Índice de Capítulo

    Por que uma espada? Bem…

    Mesmo com a energia espiritual fortalecendo seu corpo, sua força física era quase inexistente. Seus punhos e pés mal tinham impacto suficiente para servir de defesa. Ele precisava de algo que compensasse essa fraqueza — algo necessário para sua sobrevivência.

    E foi por isso que, diante da sugestão de seu mestre, se curvou sem resistência.

    — E como farei? — perguntou, incerto.

    — Criará sua própria arma espiritual… forjará!

    Suspirou de imediato ao ouvir aquelas palavras.

    — Vai me ensinar a ser ferreiro agora?

    A dúvida era genuína, mas, entre os atos de um ferreiro espiritual, aquele era o mais simples. A entidade, paciente, desapareceu por um instante e reapareceu com um garfo na mão, colocando-o sobre uma pedra.

    — Preste atenção… você vai canalizar energia na ponta dos dedos. Mas não para transformá-la.

    Enquanto falava, suas trevas começaram a se espalhar pelo talher, deslizando pela superfície metálica como serpentes.

    — Ela precisa ser estática, apenas o suficiente para envolver o objeto como um canalizador.

    E então, como se respondesse ao comando de seu mestre, a escuridão ao redor do garfo começou a se contorcer, circundando-o com o mesmo brilho incandescente de brasas em fúria.

    — E então, completará com uma entoação apropriada. Isso servirá para selá-la. Entendeu?

    O jovem franziu a testa, analisando o processo com atenção antes de soltar a pergunta que pairava em sua mente.

    — E como sabe tudo isso?

    A entidade riu de leve, quase ofendida.

    — Ehr… você está diante do maior leitor deste mundo, e ainda me pergunta isso, depois de tudo que já te ensinei?

    — Foi mal… mas… — desviou o olhar, hesitante. — Por que você mesmo não cria uma espada para mim? Seria mais… forte, não?

    — Não!

    — Ehr… por quê?

    — Você ainda não entendeu o propósito da espada, não é? — Sua voz soou grave, como uma reprimenda. — Ela não é um atalho para te dar mais poder. Criar um objeto amaldiçoado assim só serviria para te atrapalhar. Quero que a use apenas como um canalizador de sua energia, um meio de se defender. No fim, será uma extensão dos seus próprios punhos. Compreende?

    Foi como um balde de água fria que, após o choque inicial, o aqueceu.

    — Certo, certo… Então, irei compensar essa fraqueza.

    Se aproximando, olhou ao redor, buscando algo.

    — E a espada?

    A entidade revirou os olhos antes de enfiar a mão no bolso e retirar um objeto inusitado.

    — Primeiro… você usará isto.

    O jovem piscou ao ver a pequena lâmina.

    — Uma… faca de queijo?

    — Ou de pão, se preferir chamar assim.

    O silêncio que se seguiu foi quase cômico.

    — Até conseguir… você tentará criar um talher espiritual.

    — Ah…

    Bem, para tudo, há um começo. E, aparentemente, o dele começou com uma faca de queijo.

    E antes que todos pudessem se entregar ao luxo de dormir e fingir que um novo dia traria qualquer coisa além de mais desgraça…

    Yami e Amai chegaram à base da resistência. A garota seguiu para conversar com seu pai, enquanto ele, sem muito entusiasmo, jogou-se no canto mais escuro da quadra do colégio, agora reduzida a um acampamento improvisado. O lugar estava lotado de sobreviventes — um termo bem generoso para descrever gente que mais parecia ter saído de um pesadelo coletivo. Famílias inteiras amontoadas, homens que já não pareciam ter forças para serem chamados de homens, mulheres que seguravam nos braços o que restava da próxima geração, e até crianças sozinhas… pequenos espectros sem um lar para chamarem de seu.

    Era isso que sobrava. 0.01% da população que um dia enchia essas ruas, agora reduzida a uma estatística irônica de resistência. Mas ei, pelo menos tinham mantimentos e lençóis para se agarrarem à ilusão de que ainda havia calor humano.

    E ele, sozinho finalmente soltou um suspiro entediado, recostando-se contra a parede fria, como se isso pudesse afastá-lo de toda essa miséria.

    Então, com uma expressão que misturava tédio e desprezo, murmurou:

    — Ei… Azaael?

    O demônio, que sempre surgia nos momentos mais inoportunos (ou talvez fosse apenas coisa da sua cabeça perturbada), fez-se presente.

    Fala…

    O ex exorcista olhou ao redor, certificando-se de que ninguém estava prestando atenção nele. Não que fizesse muita diferença — todos estavam ocupados demais tentando segurar seus próprios cacos para se preocuparem com um rapaz falando sozinho.

    — O que acha disso tudo?

    Houve uma pausa, longa o suficiente para deixar espaço para qualquer pensamento desconfortável rastejar.

    Não sei…

    Ótimo. Nem mesmo um ser imortal e infernal tinha algo a dizer sobre esse espetáculo patético.

    — Ehr…

    Franziu a testa, levemente irritado. Era pedir muito um demônio articulado para debater o peso filosófico da existência?

    — Entendo seu luto, mas vai ficar agindo assim?

    Para seu azar, algumas crianças o observavam sussurrar para o nada, cochichando entre si e rindo discretamente. Pequenos demônios de carne e osso, sempre prontos para tornar qualquer situação pior.

    Ele desviou o olhar, resmungando baixinho:

    — Ehr… pestes…

    E Azaael, por outro lado, enfim parecia estar se divertindo. Ou talvez fosse apenas sua eterna natureza de criatura desprezível.

    Não é só luto, garoto, é ódio! Muito ódio!

    A voz ecoou em sua mente, carregada de um fervor quase teatral.

    Quero… destruir aquele cuzão!

    E estava errado? Talvez. Mas quem era ele para julgar? No fundo, parecia estar apenas ouvindo a própria voz ecoar, como se estivesse falando consigo mesmo.

    Era estranho. Sempre foi o passivo, aquele que observava o mundo girar sem se dar ao trabalho de empurrá-lo. Mas agora? Agora era ele quem fazia as perguntas. Agora, era ele quem forçava um caminho. Os papéis se inverteram.

    E o cabeça-dura da vez… era o demônio.

    Será que nunca mais veria aquele ser asqueroso e risonho? Talvez não. E parte dele odiava admitir que não sabia como se sentir sobre isso.

    — Então é isso? Vamos… ser dois obcecados e chatos até o fim?

    Vamos…

    Seco. Cru. Sem espaço para debate. O tipo de resposta que esmaga qualquer tentativa de prolongar a conversa.

    E suspirou, derrotado.

    — Aff… sorte a minha que me vou primeiro…

    E fechou os olhos, como se dormir fosse o bastante para fugir da própria existência.

    ÚLTIMO CAPÍTULO ESCRITO AQUI!

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (1 votos)

    Nota