Capítulo 68 - Metabolismo áurico
Convencido de que Akemi passaria por momentos de descobertas inovadoras, Masaru buscava o controle da situação. — Você está mesmo disposto a isso?
— Não sei se “disposto” é a palavra certa, mas quero entender o que está acontecendo comigo.
Kurori sorria enquanto arrastava uma das unhas pintadas sobre a beirada metálica da maca. — Huhu, que gracinha, não tem medo dos procedimentos? Bem, depois de saber o que você já passou, nada daqui pra frente passará de cócegas… Ou talvez não.
— Este garoto precisa relaxar — afirmou Masaru — ele depende da reação do próprio corpo com o calor da aura, não da sua promiscuidade inútil.
A doutora revirou os olhos, não impedindo que o homem de se posicionasse ao lado da maca, próximo ao ombro direito do pupilo.
Mãos moldaram um fogo alaranjado, brando e oscilante como uma vela ao vento, e numa jogada rápida, chamas suspensas no ar como uma grande auréola rodearam o tronco de Akemi.
“Oh! Ele tem certeza do que está fazendo? Bom, pelo menos não estou sendo atacado”, pensou o garoto, aliviado enquanto contemplava o resplendor ao redor.
Kurori observava. “Sim. Posso ver o corpo deste rapaz canalizando a energia da aura de Masaru… O núcleo dele ainda está instável, mas há outras irregularidades bem acentuadas”, ela estreitou as pálpebras. — Nunca vi um núcleo áurico responder desse jeito, me lembra um animal faminto que não teve um criador para ensiná-lo a se alimentar.
O professor fechou os olhos por um segundo, e quando os abriu, as chamas se intensificaram, girando em espirais rápidas e hipnotizantes. — Vamos começar. Você, registre o que vê em tempo real. Aburaya… mantenha-se concentrado no que sente e nos informe o necessário.
O calor aumentou e atingiu como um abraço sem contato. Músculos desacostumados tencionaram-se: o torso frágil e exposto curvou-se levemente.
Akemi se motivava. “Eu… preciso suportar isso!”
As chamas mudaram o fluxo; o objetivo: infiltrar diretamente no catalisador de aura.
Assim que a primeira onda de calor atravessou o campo áurico do rapaz, algo dentro dele acordou.
Kurori abriu a mente. — Bingo! Núcleo reanimado.
Akemi irradiou pequenas faíscas. Linhas finas de eletricidade traçavam caminhos bifurcados sob as cicatrizes da pele, iluminado o peito, braços e pescoço.
Masaru deu um passo para trás, mantendo as mãos erguidas e guiando suas chamas. — Impressionante. Ele recebe essa energia com uma facilidade inimaginável. Não há nenhum sinal de que essa absorção o danifica.
Surpresa, Kurori soltou um assovio baixo. — Então ele converte fogo em carga elétrica?
Agravando-se juntamente ao calor, as faíscas e correntes preocupavam o jovem.
“Essas chamas realmente fomentam minha aura? Então é esse o segredo? Mas, estou começando a me sentir… descontrolado?!”
A eletricidade intensificou-se: uma onda estática correu pela sala, tremendo pequenos objetos metálicos nas prateleiras. Um frasco de vidro estourou sozinho.
Kurori fez um pedido velado. — É o suficiente.
Masaru entendeu de imediato. O fogo desapareceu, mas faíscas amareladas seguiam vivas no jovem.
Atenta, a médica analisava consigo mesma. “Que energia maravilhosa, seria um capacitor humano?” Era preciso mais respostas. — Já se sentiu assim antes, garotinho?
Akemi permanecia sentado, respirando com dificuldade pelo calor corporal gerado pelas faíscas incessantes. Suas pupilas castanhas pulsavam reflexos da eletricidade recém-despertada. — Já.
— Já? — repetiu Kurori, irônica como se duvidasse.
— Ontem… quando tentei me exercitar, eu… desmaiei, lembra? Também senti esse calor por dentro. Não era do ambiente, era meu corpo mesmo… parecia que eu estava prestes a explodir.
“Se não fosse a Nikko me ensinando sobre aquela respiração áurica, eu nunca teria ido tão longe naquelas seções de exercícios. Porém, o que essa médica tem em mente?”
Kurori suspirou de leve. — Haah. Levanta da maca.
— Quê?
— Eu disse: levanta.
— O-ok…! E-e agora?
— Se exercite.
Akemi ficou claramente em dúvida se tinha escutado direito. Seus olhos correram para Masaru, que apesar de calado, compactuava com a ordem dada pela mulher. “Treinar? Agora!? Eu mal consigo ficar em pé! E ela quer o quê… flexões? Polichinelos?” Pensamentos o desconfiavam, mas contestar ordens na frente de dois superiores? Nem pensar. — Ok… tentarei — ele puxou o ar, levantou os braços e rapidamente os abaixou em sincronia com o abrir e fechar das pernas, prosseguindo ao ritmo de polichinelos. “O Major Yura é um instrutor meio impiedoso, mas ao menos consegui aprender alguma coisa… mesmo que tenha sido por baixo de gritos.”
Kurori estendeu a mão destra à direita, os dedos esguios cintilaram um brilho imperceptível; em resposta, uma cadeira de madeira encostada no canto da sala tremeu, e sem que ninguém a tocasse, as pernas rangeram contra o piso branco: o móvel deslizou em linha reta e deteu-se atrás de Kurori, que logo acomodou-se com a elegância de quem dobra o mundo ao seu comando.
— C-como você fez isso?! — indagou Akemi, exercitando-se.
— Posso manipular as vibrações moleculares dos objetos e forçá-los a atravessar microespaços de atrito. A realidade ao redor se curva para me obedecer, huhu!
“Que mulher estranha…” concluiu Akemi, receoso porém impressionado. “De todas as habilidades que vi, essa realmente é diferente. Mas pera aí…”
— Ei, você consegue fazer isso com pesso-?
— Nah-ah, sem perguntas a mais. Foque no exercício.
— C-certo! — Desconcertado pela dúvida não sanada, o jovem mantinha os movimentos.
“Impressionante”, analisava Kurori “o núcleo está se alimentando, mas não há nenhuma aura externa no ambiente no qual ele esteja absorvendo. Isso é só energia corporal… Energia metabólica.” Intrigada, ela apoiou o queixo sobre o punho fechado. “Isso muda tudo. Pelo o que parece, o fomento não depende exclusivamente de uma energia elétrica específica ou uma aura elemental calorosa. O núcleo pode ser flexível, talvez, um organismo por si só. Uma adaptação? Não, é algo mais sofisticado.”
Energizado, Akemi continuava. “… dez, onze, doze…” O suor escorria no corpo cheio de cicatrizes.
A cada repetição, a pulsação disparava. Uma descarga interna e tênue percorria a espinha e os braços, ascendendo.
Kurori levantou-se e aproximou-se devagar até que chegasse a menos de um metro do paciente. — Pode parar.
O garoto congelou no meio do décimo oitavo polichinelo, partículas elétricas escapavam até mesmo no suor. — Hã… já?
— Consegue controlar essa energia?
— A-acho que sim, aliás, posso contê-la por enquanto — sob a força da concentração, Akemi conteve as faíscas, porém, desconhecia os detalhes. As energias foram empurradas para um cárcere instável: seu próprio núcleo áurico.
A doutora deu um pequeno sorriso. — Então você tem o mínimo de controle. Agora está claro, seu núcleo também se ativa com sua própria energia, algo que nunca vi antes em um retrator. Será que você possui o primeiro núcleo autossuficiente.
— E isso é bom?
— Se isso for comprovado, significa que você pode se manter abastecido mesmo em um campo neutro, sem depender de nada e ninguém — expressou-se Marasu, fechado.
— Na verdade, não é bem assim. A energia que esse garoto absorveu através das chamas é exorbitantemente superior ao que ele extraiu exercitando-se. Talvez o esforço tenha sido insuficiente? Difícil dizer. Mas isso pouco importa, pois se ele se exaurir completamente, o corpo não terá nenhuma fonte externa para ajudá-lo, e daí, pode acabar se complicando.
Tentando recuperar o fôlego, Akemi sentou-se novamente na beirada da maca. — Então, sou uma bomba que se recarrega sozinha? — O aceno positivo da doutora o fez abaixar a cabeça para que entendesse tudo aquilo. “Minha aura pode ser alimentada pelo fogo, mas a energia que gasto ao me movimentar também conta como uma fonte. Só que… quando sofri aquele acidente, meu corpo também ficou energizado pela carga absurda de eletricidade que recebi de uma só vez. Ou seja… se eu tenho três formas de conseguir energia, existiria mais?”
— O que está pensando, Aburaya? — questionou Masaru.
Akemi encarava o chão. — Energia elétrica… térmica… cinética, potencial, magnética… radiante, química, sonora, mecânica, elástica, e até mesmo, a nuclear… Será que essas energias têm reações em mim?
Kurori interessou-se. — Huh, chegou sozinho neste questionamento?
— Mesmo assim, não deixa de ser uma boa pergunta. Onde aprendeu esses conceitos, rapaz?
Akemi olhava para os próprios tênis balançando enquanto lembrava do passado. — Aprendi algumas coisas como estagiário de uma usina. Não foi muito, só o suficiente pra entender como as reações das energias funcionam. Eu não tinha muita escolha, era isso ou continuar trancado em casa, hehe. Passei mais tempo perto de cabos de alta tensão do que de pessoas nesses últimos tempos. Mas pensando agora, se meu corpo realmente reage a diferentes energias, pode ser que cada uma delas alimente minha aura de maneiras distintas. Qual seria a melhor?
Cutucado pela questão, Masaru coçou seu queixo fino, contudo, deixou que Kurori assumisse a linha de raciocínio.
— Suas dúvidas são muito mais válidas do que parecem. Dizem que a aura é moldada pela alma, mas acredito que o corpo seja o verdadeiro instrumento.
— O que isso quer dizer? — indagou o garoto.
— Imagine suas células como pequenas usinas, cada uma delas pronta para converter energia em eletricidade. Quando o calor atinge seu corpo, essas usinas entram em atividade e transformam esse calor em energia elétrica, que então é canalizada para sua aura. Definitivamente, este é um algoritimo distante da típica absorção direta dos áuricos.
Compreender as comparações alegrava Akemi.
— É um caso curioso — disse Masaru, mais para si que aos outros — se ele despertou poderes áuricos há tão pouco tempo, então o corpo dele deve ter passado por uma adaptação violenta até conseguir canalizar uma aura crescida na escassez, mas que aprendeu a sobreviver de restos.
“Isso explica por que senti aquela energia durante os treinos mesmo sem uma aura de fogo por perto. Significa que quanto mais tipos de energia meu corpo entrar em contato, mais meu núcleo pode aprender? Não, eu preciso provar essa teoria!”
— Todas as formas de energia que mencionei… são possíveis catalisadores?
— Teoricamente, sim — respondeu Kurori — mas é especulação. Precisamos de testes, experimentos, análises. Cada tipo de energia interage com a matéria em níveis diferentes. A cinética, por exemplo, depende de movimento, já a sonora atua nas vibrações. São estruturas completamente distintas, mas não se preocupe com extrapolar limites, suas emoções instáveis são uma variável bem mais perigosa. Um desequilíbrio emocional seu pode causar estragos muito piores que qualquer uma dessas energias. Há exemplos disso por toda a parte.
Akemi empolgou-se por dentro. “Há um quebra-cabeça escondido dentro de mim, se eu descobrir qual peça encaixa melhor, posso transformar meu corpo num gerador perfeito!”
De mãos atrás da cintura, Masaru ampliou a seriedade. — Aburaya.
— Senhor!
— A partir de agora, você tem uma missão.
Pés animados pararam de balançar; olhos arregalaram-se de surpresa.
— Missão? Do tipo oficial!?
— Do tipo vital… Preste bem atenção, daqui pra frente, garoto, você deve testar todas as reações que você tem diante das energias que você conhece. A cada situação adversa, a cada batalha, a cada pequeno contratempo, quero que observe o comportamento de sua aura perante todas as energias presentes, seja lá qual for. Você deve estar sempre conectado ao seu núcleo, saber o que ele sente, o que ele consome, e o que ele retribui. No momento oportuno… teste, arrisque, reaja com o que for melhor.
“Ele… está confiando isso a mim?” O sentimento escasso de honra e reconhecimento encontrou Akemi, mas uma pergunta estava prestes a escapar. — Por que está me dando essa missão…?
— Porque você é o único com um núcleo instável, adaptativo e imprevisível o suficiente pra isso. Ninguém mais poderia conduzir essa análise, e… eu preciso entender o que exatamente é você.
A frase pesou, mas não de um jeito ruim.
“Ele realmente está interessado em mim? Mas por que? O que ele quer? O que ele está vendo…? Calma, se no final o intuito é me ajudar, eu não devo fazer nada além de aceitar!” Akemi sentiu os ombros erguerem um pouco: sua coluna ficou ereta por conta própria e seus punhos se apertaram. — Farei isso! Pensarei sobre o tempo todo, no amanhã e no além!
— Huhuu! — Surpresa pela repentina determinação, Kurori deu dois passos à frente e inclinou-se devagar até o nível dos olhos do rapaz. — Você é um ratinho de laboratório bem animado, não é mesmo? Pois saiba que se caso você ou mais alguém acabar se machucando demais no processo, pode contar com meus cuidados.
— E-eu não sou um rato!
Kurori ignorou o constrangimento do jovem e aproximou-se mais um pouco, de propósito. — Só não tenta morrer pelo menos, tá? Eu sei muito bem as loucuras que um homem pode fazer em cenários inimagináveis — após utilizar de toda sua voz sedosa, ela recuou para o lado de Masaru.
Com as bochechas em chamas, Akemi desviou o rosto. “Me matar? Ela acha que sou idiota!? E que tipo de cuidado ela quer dizer…? Bem, acho que depois de algumas coisas, talvez ela tenha razão.”
— Obrigado, doutora. Tentarei me manter vivo.
Masaru soltou um pigarro. — Ahém. Isso é tudo por hoje. Os experimentos já renderam mais do que eu esperava. Na verdade, me fizeram pensar bastante.
— Vai escrever um artigo sobre isso? — perguntou Kurori, de braços cruzados.
A grosseria passou pela cabeça do homem, mas a resposta veio sem provocações.
— Penso em começar rascunhos.
— Ah, sim, cientistas adoram isso, huhu.
Era certo que Masaru claramente não queria dar bolas à ajudante, seu interesse estava em outro lugar. — Continue me informando sobre sua aura, rapaz. Se preciso, mande relatórios, observações. Me encarregarei de administrar o que puder.
Akemi levantou-se da maca e prestou uma continência espontânea. — Entendido, senhor! Me esforçarei para trazer tudo detalhado! — Irradiando pelas cicatrizes, a eletricidade rapidamente o percorreu, mas logo, aquietou-se em definitivo… pelo menos por ora.
— Muito bem — respondeu Masaru, esboçando um leve aceno de cabeça.
Com os pensamentos em direção ao descanso que aguardava no quarto, Akemi virou-se em direção à porta de correr. Sua mente carregada de informações tentava se animar com o que poderia acontecer dali para frente. “Esse dia nunca acaba, hein?”
Mas então, antes do primeiro passo para fora…
— Aburaya.
A voz de Masaru fez o jovem parar e virar a cabeça o suficiente para que demonstrasse atenção.
— Hiromi, minha filha, disse que está te esperando no setor 7 do Campo de Treinamento 3.
— Mas por que assim do nada?
— Não faço ideia. Estranhei, inclusive. Parece até que ela já sabia que você viria a me procurar. Ela não me disse o motivo, apenas que espera você lá.
“Setor 7, Campo 3…? Por que num lugar tão aleatório e desconhecido por mim? E por que agora!?” Apreensivo, Akemi rapidamente retomou a compostura em continência. — Pode deixar, vou providenciar isso. Obrigado pela informação, senhor!
— Última coisa. Já que irá falar com a minha filha, trate-se de ao menos recolocar o seu uniforme completo.
— C-claro! M-mas onde elas estão?
— Aqui — Kurori levitou as roupas até o dono delas, impressionando-o com suas habilidades áuricas.
— Oh, valeu!
As vestimentas foram pegas e vestidas com a pressa de quem queria desaparecer dali, o que realmente fazia sentido, já que o jovem apressadamente se vestia enquanto se afastava. — Obrigado pelas orientações!
A porta foi deslizada e os passos apressados se distanciaram pelo corredor.
Kurori sorria enquanto Masaru encarava o nada.
— Huhu, que garotinho curioso — comentou a mulher, ajeitando os curtos cabelos atrás da orelha.
— … Prevejo mudanças.
— Ah, é? E por que acha isso?
— Aquela aura é uma das manifestações iniciais mais voláteis e imprevisíveis que já vi. Existem, claro, outras mais perigosas, mas, segundo os registros do passado, a eletricidade, quando a eletricidade desperta em um corpo humano, corrói, incinera, rompe e arruína sem piedade.
— De todos áuricos elétricos, só se espelha em um. Mas é preciso muita personalidade. Não sei se aquele corpo franzino e desconfiado seria capaz de bancar o herói… entretanto, certamente não se encaixaria na vilania, huhu!
— Bem observado, vejo nele um coração genuinamente puro, sem um pingo de orgulho inflamado ou veneno nas intenções, e mesmo com todos os medos que o paralisam, há ali o mínimo necessário de vontade, a fagulha que qualquer um precisa para evoluir. Se ele for guiado pelos caminhos certos, longe da escuridão que engole tantos poderosos, pode ser que talvez estejamos novamente diante daquele raio que caía e alterava tudo ao seu simples toque…
Kurori entendia as previsões de Masaru. Um áurico com ideais nobres, firme em seus princípios e imune a desvios, com certeza se tornaria um grande herói… ao menos, na teoria, pois na prática, os mais espertos sabiam que isso era somente um rótulo: para eles, a palavra “shihai” não passava de um título para medir poder, e Kurori, uma dessas pessoas safas, inclinou o corpo com um sorriso de canto e optou pelo o que mais lhe importava no momento. — Que lindo ver você todo orgulhoso do seu pupilo. Mas agora me diga… posso receber o meu pagamento?
— … Você tem poucos minutos…

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