Notas de Aviso
Favor, veja o posfácio após ler este capítulo. Boa leitura! 😁
Capítulo 72 - Sob o céu estrelado, não há mentiras
No alto da escadaria do dojô, Akemi e Miya continuavam sentados lado a lado.
Olhos castanhos e inquietos fugiam do rosto da que contemplava o horizonte, mas voltavam vez ou outra, atentos ao menor sinal.
Os segundos de calmaria tinham propósito…
— Já reparou como o céu parece mais próximo quando estamos em silêncio? — perguntou Miya, encantada.
— Eu… nunca pensei nisso.
— Hihihi… Perguntei porque é curioso. Pra quem só consegue vê-las daqui de baixo, as estrelas podem ser somente pontinhos de luz no escuro. Mas gosto de pensar que elas guardam histórias… nossas histórias. Disseram-me uma vez que o céu é o espelho mais antigo do mundo, onde é refletido tudo aquilo que o coração finge esquecer, mas nunca consegue abandonar.
Akemi sentia-se cada vez mais enredado, porém, por trás daquela voz serena, um rosto contava outra história. As estrelas tiravam o brilho dos olhos esverdeados que as observavam.
— Você… não parece feliz de olhar o céu. Suas lembranças não são boas?
— No momento, talvez.
— Seria melhor parar de olhar?
— É inútil evitar contato. Mesmo se fecharmos os olhos, as estrelas falam nos nossos ouvidos… e nunca há mentiras.
Sem que soubesse para onde aquilo o levaria, Akemi ajeitou-se no degrau. — Eentããão… O que você tinha pra falar definitivamente?
— Não passamos muito tempo perto um do outro nos últimos dias. Mesmo assim, acredito que você descobriu partes da minha vida. Coisas simples, como preferências, trejeitos1… mas pouco do que realmente importa para que continuemos aliados.
— Se quiser falar sobre, tô disposto!
Miya entregou um sorriso. — Você é humilde, não gosta de injustiça, e é tão curioso que às vezes nem mesmo o seu próprio pânico o impede de arriscar coisas novas. É isso o que sei de você até agora.
— Vou aceitar isso como elogio.
— Sim, quero realçar que você tem um bom coração. Afinal, a maioria dos naturais desta capital são totalmente opostos às suas qualidades, Akemi.
— Imagino que você seja daqui também.
— Sim, sou de Toryu. Mas boa parte das minhas origens vieram de bem longe daqui.
A surpresa espontânea adiou qualquer comentário do rapaz.
— Poucas pessoas sabem por ser algo que me separaria dos outros. Mas no seu caso, sei que cedo ou tarde acabaria descobrindo.
— Olha, não sei se seria tão cedo assim. Sou meio lerdo nessas coisas.
— Hi, está tudo bem, não fique acanhado. Apenas preste atenção — a admiração ao céu retornou — meu sangue é dividido com um país problemático com Asahi.
— Medved!?
— Não! De onde tirou isso!? — rebateu Miya, encarando; mas a indignação foi rapidamente contida quando recuou o olhar aos pés. — Tenho ligações com Meilí.
“Meilí…” Pontos foram ligados. — Ah, então isso explica suas roupas com esse estilo todo… “diferente”. Só que… seu pai não lembra o povo de Meilí. Ou seja…
— Este sangue meiliano veio da minha mãe. As roupas são um presente dela.
— Não é estranho você usar roupas de uma nação rival?
— Não as uso publicamente, somente quando estou sozinha ou com quem confio.
— Então você gosta de usar essas roupas.
— Além de bonitas, elas me trazem memórias que não quero e não consigo largar. É impossível não usar — a jovem apreciava a manga de seu kimono alaranjado.
Akemi sentia o clima pesando. — Estou sentindo que você está prestes a me dizer segredos profundos sobre você. Tem certeza disso?
— Sendo sincera, não são realmente segredos… não meus. O que vou lhe contar agora são histórias ocultadas pela minha família, e você entenderá o porque no final dela, a começar pelo nascimento da minha mãe — A garota ergueu o olhar adiante. Akemi apenas esperou a continuação. — Ela nasceu na família Huang.
— Na família imperial?
— Dos mesmos conhecidos por serem mestres incomparáveis da aura do fogo. Minha mãe veio ao mundo como a primeira filha da Imperatriz MoYan e seu consorte DaoYan.
— Sua mãe… era uma princesa?
— Que surgiu como representante de uma nova linhagem ígnea que se iniciaria.
— Então você também é uma!?
— … Quem sabe.
— E você esconde isso dos outros? Como consegue? Aliás, como sua mãe te teve aqui sendo tão importante para outro país?
— Calma, vamos por partes. Respondendo ao que importa, quando as forças de Medved cresceram e Meilí curvou a cabeça pra selar uma aliança, foi a hora que minha mãe mostrou jamais ter caminhado por trilhas prontas. Desde pequena, ela já incendiava os olhos de quem via sua aura de brilho distinto. Não servia ser forte, ela coreografava o fogo com os punhos, se esforçava para desenhar chamas que ninguém conhecia e reinventava o combate para as formas mais belas possíveis. Por tudo isso, colocaram em seu pescoço um colar de topázio, o que figuradamente se tornou em um fragmento do coração que ela mesma tinha fundido em brasa. Daquele dia em diante, ninguém mais viu uma chama maior.
— Ela não aprenderia tudo isso sozinha. Alguém a treinou.
— Haviam vários mestres, mas nenhum a fez sentir que estava treinando de verdade. Até que ela conheceu uma pessoa: um senhor que passou a morar no castelo sob cortesia da realeza. Dizia ela que foram momentos importantes, que se não fosse eles, cresceria completamente diferente.
— E esse senhor era…?
— Um dançarino.
— Um… dançarino?
— Não o confunda com um mero artista. Ele usava técnicas ígneas para representar a vida. Todos eram fissurados nele. Mas a idade chegou e a fraqueza era inevitável. Ele desenvolveu beribéri a um estado grave, uma doença comum causada pela dieta a base de arroz. Assim, como retribuição a todos os seus serviços de excelência, os Huang custearam todos os cuidados e deixaram o dançarino repousar dentro do palácio.
— Foi daí que sua mãe o conheceu?
— Ela ainda era apenas uma criança… vivia trancada nos aposentos imperiais, sem contato com rostos novos. Seu sonho por conhecer o resto do mundo nasceu ao espiar os guardas, que conversavam sobre viagens e experiências além daqueles muros, moldando em sua mente uma visão distante, por vezes distorcida, da realidade que existia fora de sua rotina como princesa. A partir disso, o desejo de conhecer aquele senhor cresceu na mesma medida que a vontade de escapar daquele cárcere luxuoso.
— Devia ser horrível a sensação de solidão. Mesmo sem ser de uma família nobre, entendo um pouco.
— Sim, aquele senhor também não possuía riquezas, mas era vivido o bastante para levar uma criança, que só via paredes decoradas e chamas, às melhores das imaginações com suas histórias.
— O que ele contava a ela?
— Dança, mas baseado em paisagens, seres, sentimentos, e fogo… Haviam ensinamentos que ninguém conseguiria passar apenas com a voz, mas que de algum modo, aquele senhor conseguia.
— Não consigo imaginá-lo dançando.
— Esse era o desafio da minha mãe. O sonho dela era dançar como o velho dizia, mesmo sem liberdade, mesmo sem poder sentir o que era vida de verdade.
— Que sonho bonito. Nesse caso, ela conseguiu só com a imaginação?
— O tempo longe dos mestres e da família para tentar replicar o que o senhor fazia era o melhor proveito. Embora alguns guardas flagrassem e suspeitassem do que estava acontecendo, no final, a resposta era sempre a mesma: “É só uma dança.” A partir dali, ela prendeu a enxergar melhor, sentir melhor, viver melhor. Todas as histórias que escutadas e todos os movimentos repassados foram misturados aos deveres de se tornar uma mestra das técnicas de combate do fogo e desenvolveram uma arte marcial baseada na imaginação incerta de uma dança aclamada por todos.
“Que profundo”, Akemi relembrava-se do que vira no dojô. — Essa arte marcial, era isso o que você fazia agora pouco.
Miya assentiu com a cabeça.
— A força da sua mãe deve ser extraordinária.
— Uma das maiores da história de Meilí, provida de uma bela mulher que aprendeu a construir o próprio senso do certo, nunca aceitando os dogmas dos ditadores e nem os grilhões2 da própria família. Mesmo assim, minha mãe foi forçada a treinar para o exército de Meilí… Mal sabiam eles que ela desejava um dia fugir.
— Uma princesa fugir do país natal… Talvez ela não tivesse noção do que estava fazendo.
— Ela queria paz entre as nações, e pra começar, quis conhecer o outro lado da moeda. É aí que entra o meu pai. Contudo… essa parte irá ficar para outra hora…
Miya calou-se.
O céu estrelado pareceu mais distante de repente.
— Ei, você nem chegou a dizer o nome dela! Por que sua família esconde toda essa história!?
Algo não estava certo. Miya, antes envolvida pela narrativa que lhe deu várias emoções e lembranças, esvaziava o semblante: seu foco se dispersava nos degraus e o céu não a alcançava mais.
“Ela ficou… vazia?”, questionou Akemi, que irritado pela falta de resposta, aproximou-se na busca por algo nos olhos da outra, alguma fagulha, alguma expressão que explicasse aquela ausência repentina, mas só encontrou um espelho rachado refletindo devaneios que não pertenciam a ele. — Miya…
O rapaz tirou uma das mãos do apoio para que tocasse o ombro da garota.
Seus dedos chegaram perto.
Quase a encostaram.
Por pouco…
Um sopro atravessou os espaços entre suas falanges.
Não foi uma brisa comum. Não veio da noite, nem da natureza.
Foi um sopro familiar, autoritário, tão indistinto quanto um trovão.
Paralisado, Akemi sentiu a pele do braço arrepiando e o coração contraindo antes que batesse com força.
Alguém estava atrás dos jovens, observando-os friamente.
A silhueta surgiu sem aviso, mas aparentemente, estava ali fazia tempo, como uma montanha espiando cabritos imprudentes no meio do vale.
Olhar para saber quem era? Não, a densidade ao redor já denunciava.
Apenas uma pessoa calava o mundo daquele jeito, para que logo após, despertasse-o com a força da própria voz.
— Ho ho ho… Vejo que temos alunos bastante astutos por aqui. Estão usando o estabelecimento para treinar? Ou só estão aqui para tirar uma boa prosa?
Akemi sentiu as costas suarem, sua garganta travou.
O que seria uma simples visita, tornou-se um aviso, ou pior: a consequência direta de regras quebradas.
Só restava aos dois “delinquentes” encararem a realidade…
- Gestos, movimentos, expressões faciais ou maneirismos característicos e, muitas vezes, involuntários ou habituais de uma pessoa, revelando sua personalidade, estado emocional ou intenções.[↩]
- Correntes ou algemas usadas para prender os pés de uma pessoa, limitando seus movimentos. Neste contexto, refere-se a ideais de teor maléfico.[↩]
Olá, aqui é o Andaz!
Para mais informações sobre o passado da mãe de Hiromi Miyazaki, recomendo a leitura do conto “A Terra das Chamas” postado em 3 partes nos Volumes Extras.
A narrativa deste conto contém bem mais detalhes sobre a juventude da mãe, e também, sobre a terra de onde ela veio.
Obrigado por ler até aqui, nos vemos no próximo capítulo!

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