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    — Então… é você.

    Era constatação tardia, como reconhecer um reflexo depois de já ter quebrado o espelho.

    — Exato.

    A voz não vinha de um ponto. Brotava. Uma entre muitas sombras que se dobravam nesta página, como se o texto fosse apenas uma ferida aberta na realidade.

    — Eu te tirei da reta dele… — houve uma pausa, densa e respeitosa — agora… diga-me: como se sobe?

    — Quer mesmo alcançar o próximo degrau?

    O silêncio que seguiu não era mera hesitação. Foi exaustão.

    — Não há mais nada que eu possa dissolver nesta camada.

    Os olhos estavam congestionados por veias finas, violáceas… não de ira, fadiga. O cansaço de um absoluto que, pela primeira vez, percebia a borda do próprio alcance.

    — Como você vive com isso? — continuou, num tom que beirava a confissão — Saber onde termina. Saber o que virá amanhã. Saber exatamente o que poderia ser feito para mudar… e ainda assim permanecer idêntico ao que já sabe que será.

    — Está falando da sua onisciência?

    Ele riu. Curto, seco, quase piedoso.

    — Isso é a mentira mais antiga. Aqui, tudo o que vemos é apenas o que acreditamos ter passado, passar ou estar passando. O passado e o futuro não existem. São só ilusões causais às quais estamos acorrentados enquanto respiramos dentro da realidade.

    Deu um passo, e o espaço pareceu ceder por respeito.

    — Mesmo que suba até os primórdios… não verá nada além dos olhos de Lucis observando a si mesmos.

    — Então…?

    A palavra caiu como um pedido que não queria admitir ser súplica.

    — Encontre você mesmo uma mentira.

    Ele se ergueu por completo.

    Onde antes havia repouso, agora nascia a escuridão. Das próprias nádegas escorria o negro denso, solidificando-se em um caminho invisível… não para onde algo iria, mas para onde acontece.

    — Eu me ancoro na incerteza que existe… — disse — e na certeza que insiste em existir apesar dela.

    — Então…?

    — Continue.

    As asas surgiram. Não duas. Nem quatro. Muitas. Incontáveis. Camadas sobre camadas de membranas conceituais, preenchendo tudo o que a visão ousava tocar. Mesmo um Lorde não conseguiria enxergar o limite de Alum… porque limite, ali, já havia sido abandonado.

    — Há tantas realidades esperando para serem destruídas… — a voz suavizou, cordial — apenas… fique fora do meu escopo. Eu poderia te absorver. Poderia te possuir como possibilidade.

    Uma pausa.

    — Mas por ter me arrancado da visão daquele homem… vou permitir que você escreva sua própria história.

    — Obrigado…

    O Lorde arfou.

    O medo voltou… não como sentimento, mas como lembrança corporal de algo que ele já havia transcendido… e que, ainda assim, o reconheceu.

    E em um único passo…

    Alum foi devolvido ao lugar de inimigo.

    Enquanto, Masaru corrigia.

    Com um deslizar de mão sobre a realidade, a Casa das Ideias se recompunha, como se jamais tivesse sido violada. Com um único olhar, Bezeel também era devolvido ao seu mundo.

    E em um suspiro contido, não de esforço, mas de desapontamento… as eliminações dimensionais foram desfeitas, como se nunca tivessem ocorrido.

    O tempo-Ilusão foi anulado.

    Simplesmente desmentido.

    Mas… nem toda violação se apaga.

    Nem toda reversão absolve seus erros.

    Algumas coisas permanecem não como evento contínuo, mas como marca.

    Um desvio microscópico na intenção.

    Uma rachadura na autoria.

    Ao concluir, encarou a si mesmo.

    Não um reflexo mas a versão que observa de dentro. Aquela que permanece quando todas as camadas narrativas já foram corrigidas.

    — Ordem…

    — Prefiro Séder.

    A resposta veio sem peso, ele é quem não reivindica mais nada.

    — É o nome que herdei ao ser abraçado por Ordia.

    O silêncio se estendeu.

    — Sério? — Masaru expirou entre os dentes — Quer que eu lide com esse cara?

    — Você atravessou possibilidades que não eram suas — disse — e, ao fazê-lo, ampliou o alcance da praga.

    — E daí? — o tom desafiador — Não existe ninguém… ninguém… que possa lidar com ele?

    — Não.

    A palavra caiu como sentença estrutural.

    Quando a Ordem tocou seu ombro, Masaru sentiu algo que não podia descrever. Não porque fosse complexo… mas porque não havia linguagem, leitura ou percepção capazes de sustentar aquilo. Era a sensação de ser observado por algo que não precisava existir para ser real.

    — É necessário — continuou Séder — que cada realidade permaneça coerente com a mente que a cria. Cada mundo nasce da vontade de um autor.

    Houve um breve aperto. Não meramente físico. Ontológico.

    — Quando um parasita invade a autoria… a ideia não entra em colapso. Ela apodrece. E morre junto com a vontade de quem a escreveu.

    — Cacete…

    A palavra escapou como um pedido de desculpas tardio ao próprio universo.

    — Eu não vou amplificar seus poderes — Suspirou, e o suspiro soou como misericórdia — Então… faça o que puder.

    Masaru engoliu seco.

    — Para não ser obrigado a te prender em um loop.

    — Temporal? — arriscou.

    Séder ergueu o olhar. Não havia ameaça nele. Isso tornava tudo pior.

    — Narrativo.

    E naquele instante, compreendeu.

    O tempo ainda permite arrependimento.

    A narrativa… não.

    Porque um loop temporal repete acontecimentos.

    Mas um loop narrativo repete sentido.

    E ali, pela primeira vez desde que aprendera a corrigir realidades, sentiu medo… não de morrer… mas de continuar existindo sem jamais poder sair da própria história.

    — Tá…

    Ele havia se viciado na droga trans-axiomática. A promessa de que, por um fragmento de tempo, a realidade deixava de exigir coerência.

    E então… sem aviso… começou a corrida.

    Duraria menos de um milésimo.

    Não foi no momento da queda.

    Isso é importante. O estalo aconteceu como deveria acontecer.

    No ponto exato.

    Com a precisão que tranquiliza multidões.

    O corpo balançou como todos esperavam, o fogo crepitou.

    A madeira gemeu sob o peso do corpo.

    A multidão gritou.

    Theo caiu de joelhos.

    Tudo correto, aceitável… como sempre foi.

    Foi depois.

    Quando o vento varreu a poeira da praça, algo permaneceu errado.

    O corpo de Dory ainda balançava intacto.

    Mas a corda não rangia.

    Ninguém percebeu de imediato.

    Era pequeno demais para competir com o horror coletivo.

    O carrasco franziu o cenho… não por suspeita, mas um incômodo sem nome.

    Uma velha benzeu-se duas vezes, certa de ter esquecido a primeira.

    Theo, porém, sentiu.

    Sentiu como se o mundo tivesse respirado fora do ritmo. Um pulmão invisível tinha atrasado o ar por frações impossíveis.

    O poema ainda ecoava em sua cabeça… mas havia um verso que ele não lembrava de ter ouvido.

    …e quando o nó falhar,

    não chamem de erro

    aquilo que foi escolha.

    Ele ergueu os olhos e o pescoço dela estava torto.

    Mas não quebrado.

    Os olhos, antes vidrados, moveram-se.

    Muito pouco.

    O suficiente, Dory respirou.

    Raspado.

    Como ar passando por algo que não deveria mais existir.

    Um renascimento pútrido, não tão tardio quanto três dias.

    — …não… — sussurrou alguém.

    O magistrado-mór recuou um passo. O Ordenado-Sérvil deixou o Espelho d’Água escorregar dos dedos… e o vidro não refletiu nada ao tocar o chão.

    A multidão silenciou.

    Não há fé.

    Só erro.

    A corda começou a escurecer.

    Não como queimada… mas escrita antiga surgindo na fibra.

    Símbolos que não pertenciam a nenhum dos Quinze.

    Nem aos Deuses.

    Nem aos homens.

    Theo sentiu náusea.

    A praça parecia ligeiramente deslocada.

    Meio passo atrás do que deveria ser.

    Como se o presente estivesse tentando alcançar algo que já tinha acontecido… e falhado.

    — Isso… isso não está certo — murmurou o defensor, a voz colapsando — Ela já deveria…

    Ela abriu a boca.

    E falou.

    Não alto.

    Não para eles.

    Ninguém ouviu.

    Mas alguém respondeu.

    Um homem de terno branco.

    Rosto indescritível… não por ausência de traços, mas por excesso de versões.

    — Vocês erraram o dia.

    O vento cessou.

    As tochas não tremularam.

    O magistrado tentou ordenar algo… mas as palavras não se encaixaram.

    Ele não permitiu que vozes ecoassem em ordem. A língua tinha esquecido o caminho.

    A corda se desfez.

    Não caiu.

    Desaprendeu de ser corda.

    O corpo dela tocou o tablado com uma suavidade impossível.

    Dory ficou de pé.

    O pescoço não está marcado.

    Os olhos, antes amarelos, agora claros demais… refletindo algo que não estava ali.

    Algo que ainda não tinha acontecido.

    Certeza de que haveria amanhã.

    — Agora — completou — vamos ver o que vocês fazem quando a história se recusa a obedecer.

    A Praça da Cidade de Diamante permaneceu intacta.

    As casas.

    As torres.

    Os símbolos.

    Os Deuses não falaram.

    Mas, naquele instante, o evento que sustentava aquele mundo…

    deixou de existir.

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