Capítulo 86 - O Moinho e o seu Guardião
A palma coberta pelo tecido áspero da manopla retira o suor da testa com algum cuidado. A franja castanha jogada para o lado, desmancha-se em fios menores enquanto rapidamente o rosto volta a encharcar.
一 Falta muito ainda, Tejin? 一 puxando a meia-elfa atrás de si pelo pulso, sua exaustão é tamanha que quase não consegue ficar de pé.
一 Não… Estamos quase lá. 一 entre arfares, o meio-elfo arruma o óculos no rosto conforme os passos esmagam as raízes aéreas no solo.
Há quase uma hora desde que se separaram de Kimich e caminham sem nenhuma pausa. Se antes a floresta estava rasa e límpida, agora o estreito por entre os troncos e arbustos, transformam a viagem num verdadeiro labirinto floral. Distinguir direita ou esquerda é tão impossível quanto nos emaranhados de Yothergran, mas por motivos diferentes. Lá, o breu quase absoluto reina. Aqui, a paisagem bem colorida é tão bem padronizada que dá a impressão de estar caminhando sem sair do lugar.
O vigor da flora entorpece os maus acostumados sentidos de Jeanice. Acostumada com o maculado e o encardido, o ambiente límpido e colorido lhe causam fortes enxaquecas. Seus olhos semicerrados e as orelhas mais baixas que o normal, reforçam a sua expressão contorcida pelo incômodo sensorial.
Entretanto, um forte vendaval produz uma avalanche de pétalas de cores infinitas. Entre os corredores estreitos, eles mergulham no aroma indistinguível pelas misturas. Abrindo os olhos lentamente no repentino silêncio, o trio se depara com um casarão de madeira, no qual um enorme moinho gira ao badalar do Terceiro Campanário inaudível para os humanos.
一 É aqui…? Nem parece que estamos dentro daquela floresta… 一 sobre o gramado plano, as botinas de Raisel afundam o tapete esmeralda aos estalos crocantes.
一 Isso é… um capricho do meu velho mestre. Ele nos faz passar pelo Bosque Oculto de propósito… 一 amarrando o cabelo negro esvoaçante em um pequeno rabo de cavalo, Tejin toma a frente ao ir em direção ao edifício.
Ao seguir as costas do homem, os passos do garoto se tornam mais pesados. Por algum motivo, seus pés estão, pouco a pouco, grudados no chão. Como resultado desse empecilho, a entorpecida Jeanice o ultrapassa; seguindo até a entrada.
一 T-Tejin, espera! Tem alguma coisa errada… 一 estendendo a palma para tentar alcançá-lo, acaba se desequilibrando e pondo a mão ao solo.
Olhando-o de soslaio, o meio-elfo engole seco. Junto da sua companheira de mesmo sangue, eles deixam Raisel para trás ao adentrar.
A porta, enfim, se fecha.
“Que droga… Por que não consigo me soltar desse chão!?”
Debatendo-se, força física parece em vão. Porém, utilizar sua energia talvez tornasse as coisas perigosas. Os olhos dourados encaram cada gramínea em concentração. Fechando quase completamente a sua visão, o tato aguçado age em conjunto com o Gewissen. A silhueta áurea desprende a mão e as pernas das profundezas do gramado.
一 Em cento e oitenta anos, essa é a primeira vez que eu vejo um humano com a presença de um Elfo Puro… 一 sentado de pernas cruzadas como borboleta em pleno ar, a voz hesitante reflete o seu semblante pensativo. 一 Não, não é isso…
Levando a atenção até a figura enigmática, as sobrancelhas sobressaltam. Um senhor velho e pequeno como uma criança, mas com orelhas tão grandes quanto asas, com um enorme cavanhaque e moicano como a crista de um galo…
一 Você têm um Demônio. 一 as íris pequenas como estrelas o encaram diretamente. A pressão causada pelo senhor não é hostil como uma besta selvagem, mas ofuscante como uma luz absoluta.
De forma súbita, o ambiente inteiro se emaranha em Raisel novamente. As gramas esticam-se como cordas, prendendo-o dos pés à cabeça, do pescoço aos cotovelos; completamente imobilizado.
一 Que curioso. Um humano que carrega tanto a pureza da Luz dos Elfos, quanto às Trevas profundas de um ser vil… 一 encostando os pés no solo com tanta graciosidade quanto uma pluma, o senhor cruza os pulsos para trás da cintura.
Aproximando-se com suas pernas curtas, o velho não usa sapatos. Há apenas uma meia que tapa seus pés parcialmente, cobrindo apenas os polegares. Entre anéis de ouro nos tornozelos e nos pulsos, o grande colete com golas pontudas e barras rastejantes, não há dúvidas que é um erudito.
一 O.. que você… vai fazer comigo? 一 o aperto das vinhas sufoca o garoto lentamente. A cada segundo, elas se tornam mais firmes; fazendo seus ossos rangerem.
Contudo, o queixo do ancião se estende ao observar o brilho prateado do colar em seu peito. Os lábios arqueiam-se brevemente e, com a palma, ele alisa o grande cavanhaque.
一 Uma cobaia, garoto dos Forscher. 一 reprimindo as suas intenções, o mestre afrouxa o ambiente para libertar o menino.
一 Cof! Cof! 一 despencando imediatamente, a mão afugenta o aperto sobre o pescoço em meio às tosses. Levantando brevemente o olhar, os pensamentos se alinham:
“Forscher… É o antigo grupo nômade do vovô. Como ele os conhece?”
一 Levante-se. Eu sou Azlam, o Sábio Honorário dos Ventos e, à partir de agora, você está sob a minha posse.
Ao mero apontar do dedo indicador para o peitoral de Raisel, um pulso de energia o guia para dentro da cabana. Ao passar pela porta, a mais profunda escuridão o abraça enquanto cai de costas para o abismo. Noutro segundo, o forro de madeira aparece como o abrir das cortinas.
Visivelmente perplexo, poderiam entrar moscas na boca do rapaz. A confusão entre a transição perante os cenários, enfim, é digerida aos poucos. Apoiando-se com as mãos ao piso de marfim, o jovem se ergue.
一 Raisel, está tudo bem? 一 usando os dedos como pinça, Jeanice agarra a corda que prende a cintura dele.
一 Jeanice… sim, estou. 一 ao vê-la melhor, um pequeno sorriso de alívio naturalmente se forma.
一 Ei, moleque, me diga o que você sabe sobre o rapazinho. 一 sem qualquer som de passo, o sábio senta sobre o sofá encapado.
Já esperando a impaciência do mentor, Tejin aproveitou o tempo no teste para buscar um chá para servi-los. Derramando com cuidado o líquido verde de aroma amargo, ele dispõe um copo para cada.
A batida sutil dos ventos sobre as janelas laterais da cabana fisga a atenção de Raisel. Espiando o exterior, percebe que a cidade de Kanthen não é nenhum pouco longe dali.
“Passamos quanto tempo caminhando na ilusão do velho?” 一 bebericando o chá, os olhos dourados voltam para o encontro.
一 Entendi… Um órfão com todas as afinidades de Kern… Bem, eu nunca saí dessa maldita floresta, mas de uma coisa eu tenho certeza. 一 molhando a garganta pela última vez, o copo de argila bate contra a mesa. 一 É impossível esse garoto existir. Ou melhor, continuar vivo.
As palavras secas trazem um fim ao que se formava de um clima amistoso. Com um soluço de palavras, a boca de Tejin abre por um suspiro breve; dando-lhe o empurrão necessário.
一 Mestre, eu entendo o porquê disso… Mas deve haver um meio. O Senhor não pode—
一 Posso. Óbvio que eu posso… Quem você pensa que eu sou? Mas eu tenho uma condição. 一 da extremidade do dedo esticado para Raisel, um pequeno Rascunho se forma; tão pequenino quanto um grão de areia brilhante.
一 Suspender o Contrato desse garoto temporariamente.
一 E você consegue fazer isso?! 一 de supetão, o menino se levanta com as mãos batendo sobre a mesa em grosseria. Entretanto, a escuridão dentro de si segura o riso como o cantar de uma chaleira.
Da lateral do moicano de Azlam, uma enormidade de veias saltam em sua fúria controlada. A sua mobília requintada fora manchada pelas mãos sujas de um Contratante. Mas ele suspira fundo em silêncio.
一 R-Ray, se acalme… E por favor, tente não encostar muito nas coisas. 一 um riso sem graça escapa dos lábios de Tejin.
一 F-Foi mal… 一 pondo uma das mão até a cabeça, as risadas de Leraje o ensurdece.
Coçando a garganta com o punho à frente dos lábios, o velhote cruza as pequenas pernas sobre o sofá.
一 Kuhum. Consigo, mas não por muito tempo. Posso ensinar para você uma maneira de filtrar e utilizar seu Beisen… 一 de soslaio, cruza os braços e tem a atenção voltada para a garota. 一 E ela?
As íris azuladas se encontram. Calmamente, Jeanice nega com a cabeça. Receoso, o comerciante apenas inclina o rosto para a mesa.
Respirando profundamente, a garota põe a palma à frente do peito; dizendo:
一 Meu nome é Jeanice, Jeanice… Asdoth.
As pupilas do sábio somem de tão minúsculas. Os ombros tensos relaxam e as narinas exalam um ar pesado.
一 Asdoth… Que trágico. Você deve ter sofrido bastante, mocinha. 一 após divagar entre memórias longínquas de relâmpagos púrpuras enquanto ainda jovem, o velho a encara diretamente. 一 Você não deve ter tido a educação adequada, mas pelo visto, o moleque ensinou o básico.
Um sorriso abrangente toma o rosto do velho; revelando a falta de um dos seus dentes.
“Parece que terei semanas ocupadas…” 一 mal podia conter a sua animação de ensinar mais uma feiticeira em potencial e ter uma cobaia para a prática depois de anos das suas pesquisas.

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