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    As solas rígidas dos sapatos de Tejin ecoam com pressa pelo breu. Na caverna poucos metros depois do crânio na Grande Ossada, uma passagem subterrânea de declínio diagonal sutil se estende como um túnel sem fim.

    Iluminando os arredores através de uma pequena esfera de cristal, gradualmente surge uma curiosa névoa vindo das profundezas, como fruto da incrível umidade da floresta na superfície. Protegendo-se com a sua energia azul de qualquer possível efeito dessa, o mestiço segue em frente atento com os detalhes do ambiente.

    “Ele já deve saber que eu entrei. O único problema é que… não ouço mais ninguém além de uma pessoa mais adiante. Então algo está suprimindo a energia da Ema… e dos prováveis Cavaleiros que estão aqui com o Koram.” 一 a sensação de estar descendo rumo ao desconhecido, arrepia a nuca do homem como um misto de pressentimentos ruins.

    Em um suspiro carregado, ele engole a própria saliva como se a saboreasse. À partir do momento que o primeiro passo dele toca um chão de concreto, os olhos de Tejin, vibrantes em um tom azul claro, se abrem bruscamente. A mão esquerda rapidamente desce até a varinha para ser sacada a qualquer instante. A pupila desliza para lá e pra cá, mas as orelhas são quem mais estão inquietas. Para cima, para baixo e para trás, seu comprimento alongado e pontiagudo permite que cada movimento seja claro.

    “Esse piso não é natural. Existe algo muito antigo aqui… Uma espécie de instalação subterrânea?” 一 a palma direita portando a luz é esticada até as paredes, revelando desenhos indecifráveis que mais se parecem códigos.

    Algumas dessas escrituras são familiares, outras nem tanto. De certo modo, uma forma de linguagem já morta há muito tempo. Mas, entre as rachaduras, musgos e destruição nas superfícies das paredes, piso e teto, algo faz o meio-elfo paralisar. Uma grande pilastra em forma cilíndrica mais à esquerda. Ela acende ao reagir sobre a luz em aproximação da esfera de gelo brilhante. As suas runas são distorcidas como se estivesse adaptando-se ao Gewissen azul emanado.

    O queixo relaxa, mas seu corpo enrijece com a tensão. Um conhecimento antigo  preservado e escondido nos limites de Yothergran, está bem diante dos seus olhos. Boquiaberto, ele começa a ler as informações ali contidas.

    “Descansa aqui a audição de Sozkah, o Maior dos Elfos, descendente de Managan.” 一 a mente, silenciada em meio a enxurrada de pensamentos, aos poucos volta a sua clareza. 一 “Sozkah é o Primeiro Imperador Élfico, o antecessor de Valdrien… Mas Managan? Nunca ouvi esse nome…”

    O devaneio rapidamente se quebra ao mapear algo vindo em sua direção. A velocidade, o formato e a energia revelam imediatamente o agressor para Tejin. A feição, antes mista pela contemplação das heranças sanguíneas, destaca bem o cenho espremido. A varinha é sacada com agilidade e a esfera luminosa desdobra-se com um fluxo de friagem à partir de um círculo mágico.

    As estalactites de cor laranja escuro batem contra a parede fluída e são redirecionadas para as paredes. Dessa poeira emergente, o Rascunho sob a energia do feiticeiro começa a girar enquanto ainda está apontado para frente. O clarão irradia para a direção do fim do túnel, visando especificamente o traidor adiante.

    “Pekelna Vánice.”

    O feixe congelante se alastra como uma bomba, estremecendo as profundezas de maneira interna enquanto a potência escalona como dominó sendo derrubado.

    Sentindo as vibrações e a intensidade do feitiço, Koram empilha seis escudos de círculos mágicos à sua volta e, não satisfeito, acende a Constelação de Ara para compactar tudo em um grande domo.

    “Künstlich Oberfläche: Kuppel!”

    O impacto entre os Gewissen não ecoa pela área, pois a avalanche simplesmente engole a cúpula. A névoa, antes natural, é amplificada pela temperatura artificial. Ao fim daquela passagem, a silhueta de Tejin surge em passos lentos. Num único gesto de estender a varinha para o lado, toda a neblina some.

    Esse espaço central detinha estátuas grandes, mas deterioradas e em pedaços pelo tempo. Um pequeno fluxo de água ainda funciona indo até o epicentro dessa zona cercada por mais colunas de mármore, placas da linguagem antiga e detalhes de ouro envelhecido.

    “É realmente uma espécie de santuário…” 一 a atenção do aprendiz do Sábio não desgruda do inimigo à frente. Com a confirmação desse sendo um lugar sagrado, a energia emanada dele apenas se intensifica.

    一 Quanta intensidade, Tejin… Você realmente tentou me matar, não é?

    一 Não quero trocar uma palavra com você, Koram. Apenas me diga onde estão os seus “amigos” para que eu possa mandá-los ao inferno antes de procurar a minha esposa.

    一 Sem pressa… Eu não sou um traidor. Sem a ajuda de Balmund, jamais conseguiremos passar para a Segunda Camada, ou muito menos empalar a cabeça de TODOS os Puros, não concorda comigo? 

    Um terremoto vindo de cima chacoalha as estruturas do subterrâneo.

    “Essa energia… é Leander. Ermellion está mais longe do que eu consigo ouvir… Também não ouço o Kimich, mas ele deve estar bem.” 一 ao fim da análise, o braço arrastou a varinha na palma destra até a direção do teto.

    一 Não vou repetir as minhas palavras.

    Os pontos e linhas que se conectam acima da cabeça de Tejin, expandem a autoridade da Constelação de Cygnus para o ambiente. A quantidade de Gewissen mergulhado em Kern afeta as proximidades, diminuindo bruscamente a temperatura ao ponto do fluxo de água congelar.

    Recuando um passo para trás, o vice-líder dos Svartalfar da região saca um livro das suas roupas. Injetando a sua energia nele, as páginas rapidamente são folheadas enquanto se desfazem em partículas de tons diversificados de verde. Essa poeira se reúne rapidamente no chão, formando um Rascunho com traços, runas e figuras familiares aos da linguagem antiga.

    一 Idiota! Pensa que eu iria te encarar despreparado!? RESPONDA AO MEU CHAMADO, ARD’IFRIT!

    Do círculo mágico no chão, sobe uma esfera flutuante de cor esmeralda. O seu som ressoa pela área em uma frequência semelhante a queda do orvalho. Os destroços e pilares começam a se reunir como se estivessem sendo atraídos até o cristal. Em poucos instantes, uma enorme criatura de pedregulho e metal se ergue, cobertas de rachaduras esverdeadas como a sua energia.

    Entretanto, o feiticeiro o encara diretamente. Nos olhos de Tejin não há hesitação.

    一 Eu esperava algo mais assustador… 一 a varinha se abaixa bruscamente.

    “Ewiges… Paradise.”

    Toda energia azul do mestiço de cabelos negros se transforma em céu. O ambiente em que eles estão não é mais um subterrâneo, mas uma espécie de vazio celeste. O chão reflete o tom cerúleo e as nuvens enquanto há apenas Koram, o seu feitiço e o aprendiz do Sábio nesse espaço.

    Ao tentar respirar, o traidor sufoca. As pernas cedem e o corpo cai de joelhos ao chão. A saliva esvai de sua boca conforme o rosto envermelhece.

    一 “Não adianta tentar respirar aqui… Nesse espaço, não existe nenhum vento e até mesmo o tempo não corre. Esse é o Paraíso Eterno.” 一 caminhando lentamente, a invocação sequer é capaz de se mover.

    Apontando a varinha contra o rosto do rapaz com pontas rosas no cabelo, uma estalactite de gelo se forma. Entretanto, os olhos dos dois se encontram. A expressão que se forma no rosto de Koram é… um sorriso.

    Tejin arregala os olhos ao notar que está pisando na sombra daquele sujeito…

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