No princípio havia o caos, e hoje ainda há. O tufão d’água nos deixou na entrada da cidade, ao contrário do que pensávamos, esta havia piorado. A torre da masmorra era mais evidente e arranhava o céu, nuvens negras cobriam a ponta, raios vermelhos eram atirados no chão e apodreciam o que encostavam. Cogumelos cresciam do chão e o ácido que expeliam derretia a alvenaria das casas. E as pessoas… essas haviam se tornado por completo naqueles monstros esguios que vimos no calabouço.

    — É o inferno… — Disse Naarus — Você libertou no mundo o inferno! 

    Naarus apontava para mim, ele me fitava com seus olhos arregalados e gritava. Fidel o abraçou, e fez o que podia para conter o terror dele. Enquanto os dois ficavam para trás, dei meus passos para dentro da cidade. Enchi-me daquele ar pútrido, observei mais de perto as figuras retorcidas. Toquei a erupção de uma, e vendo que se contorceu, não encostei mais nela.

    — Para onde está indo! — Gritou Fidel — Devíamos ir embora! 

    Não dei ouvidos, não importava, eu só tinha olhos para a torre. Por isso o deixei na entrada da cidade e segui sozinho. A brutalidade daquele lugar…, os monstros retorcidos com bocas bipartidas devoravam uns aos outros, ainda que parecessem me ignorar. Até que um soldado cruzou comigo — um daqueles que pertenciam à mansão.

    — O que fizeste?! — Gritou ele — Tu nos amaldiçoaste… o Prefeito…

    — Do que está falando?

    — O prefeito… ele… — O soldado tentou falar, mas não conseguiu.

    Ele começou a se contorcer e gritar, dois braços cresceram de suas costas se retorcendo entre o aço da armadura. O rosto foi aos poucos se distorcendo em erupções e caindo no chão aos gritos, sua coluna e pernas alongaram, e espinhos de ossos surgiram das costas. O capacete foi completamente preenchido pelas deformidades das erupções e uma nova criatura surgiu.

    Com a boca bipartida e ácido escorrendo dela, a criatura gritou. Com isso as outras se voltaram para mim e me cercaram. Eu não era um deles no fim. Peguei a espada do soldado transformado, as criaturas grunhiam para mim. Algumas pareciam tentar dizer algo, maldizer-me talvez. A primeira que avançou me deu susto, não estava esperando, por isso tropecei nas garras de outra. Esta que me pegou deixou sua saliva ácida cair sobre mim e onde atingiu fez minha pele apodrecer. Me soltei dela e fiquei de frente para o grupo de monstros.

    “Não vacile aqui garoto! Eles não são humanos” Disse Sagi.

    “Não me fale o óbvio” Pensei.

    Quando o primeiro avançou, desviei e o parti ao meio. Então todos vieram ao mesmo tempo e precisei correr. Eu fugi com direção à torre, cada vez mais e mais aberrações vinham atrás de mim. Uma enorme bloqueou meu caminho e tentando me esmagar, acabou matando outros que vinham atrás de mim. Aquele gigante deformado, com asas nojentas e chifres, eu o circulava e ele batia de punho fechado no chão que tremia. Eu consegui montá-lo e o perfurei com Pars Stella. Quando o corpo do gigante caiu, o chão rachou e deu abertura para um abismo cujo fundo revelava a mesma gruta de onde crescia a torre. 

    As aberrações que ainda me perseguiam, algumas caíram naquele abismo e queimaram no magma. Outras conseguiram pular e algumas tendo asas voaram para me alcançar. Continuei correndo em direção à torre, os poucos que me alcançavam eu partia com a lâmina roubada. Era emocionante.

    Quando alcancei a torre, soldados que ainda não tinham se transformado traziam consigo escravos. Os escravos estavam bem-vestidos, mais um sacrifício, mas para quem? Ao me verem, os soldados se retorceram e se transformaram. Matei alguns, mas ignorei o resto, os monstros que me perseguiam avançaram nos escravos e passaram aos devorar. Isso me permitiu subir alguns lances da escada daquela torre, e quando alcancei altura o suficiente quebrei o caminho para que não me seguissem. 

    “Você devia ter ajudado os outros!” Gritou Sagi.

    “Sim, mas não conseguiria de qualquer forma” Pensei.

    Fui subindo a escada, até dar com uma porta, e ao abri-la entrei-me em um salão como o da mansão. Como estava vazio, finalmente pude ter algum tempo para descansar. Então me sentei em uma cadeira, senti algo próximo e poderia puxá-lo, era água de uma das jarras na mesa. Eu a sentia como um braço, e a levei aos poucos até minha boca, mas então quando tentei tomar ela derramou sobre a mesa. 

    “Você tem o poder, mas não consegue controlar” Disse Sagi.

    “Sim… eu não controlo” Pensei.

    “Será que podemos ter uma conversa aqui? Eu preciso entender se você está raciocinando aqui.”

    “Claro, por que não?” Pensei.

    “Você já deu uma boa olhada em volta, esse lugar está um caos!” Disse Sagi, se materializando, estava mais jovem ainda “Você abandonou aqueles dois e mais os escravos lá embaixo. Já se perguntou se eles podem fugir?”

    “Eles darão um jeito” Pensei.

    O espírito de Sagi caminhava pela sala, tentava interagir com um jarro, mas não podia. Tentou puxar uma cadeira e não podia. Ele atravessou a mesa e continuou.

    “Um jeito… por acaso o Djinn mexeu com os seus miolos ou você já era assim?!” Bradou Sagi.

    “Do que está falando?” Pensei.

    “Esquece, acho que estou enganado de novo…” Disse Sagi, então desapareceu.

    Eu descansei, e depois segui com minha escalada. Os andares estavam todos vazios, e o caminho era irregular, ora dentro da torre e ora por fora. Quando estava por fora raios ameaçavam me atingir, mas não o faziam, apenas acertavam as criaturas externas que tentavam escalar pelas paredes. No último andar, encontrei outro salão, havia uma única mesa no centro — estava farta como num banquete. 

    Uma cadeira em cada ponta, sendo que na do fundo estava sentado o Prefeito, e a mais próxima de mim vazia. Sentei-me e encarei o Prefeito enquanto ele comia. Suas feições eram joviais, o gibão novo, olhos serenos.

    — Obrigado senhor Piscium, por ter eliminado o Djinn — Disse ele.

    — Eu nunca te disse meu nome.

    — Não é preciso, outros falam por ti, mas nunca por mim — Respondeu ele.

    — Qual seu nome?

    — Eu já te disse, meu nome é Admun, grosseria não lembrar — Disse ele.

    O Prefeito começou a comer, e me ofereceu. Aceitei, por modos. Um soldado surgiu de repente e passou a servir os pratos um a um. Porém o soldado estava magro como quem não comia há algum tempo.

    — Ainda não me respondeu, qual seu nome? — Perguntei.

    — Saber não irá te trazer paz… — Respondeu.

    — Eu quero.

    — Meu nome é Marduc — Respondeu.

    Marduc continuou comendo prato após prato, o acompanhei até estar satisfeito. Nos mantivemos em silêncio, só ecoavam os sons do mastigar de Marduc e o rugir do estômago de um soldado faminto.  

     — O que é você? — Perguntei.

    — Um demônio.

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