Estávamos sentados próximo à lareira, as chamas dos lustres haviam sido apagadas, sendo nossa fonte de calor a nossa única fonte de luz. Junto dos estalos da madeira queimada, como em ritmo nossas sombras dançavam pelas paredes. O cheiro de madeira queimada tomava a sala, e o calor era agradável. Minha companhia, o demônio à minha frente, talvez tenha sido má no começo, mas agora era tão agradável quanto a temperatura. Eu o havia julgado mal — na verdade, julguei certo, mas agora percebia que estava mais próximo dele do que de qualquer humano comum. O mal de agora, era o pedido que minha companhia fazia.

    — Poderia me matar ou não? — Insistiu Marduc.

    — Por que quer que eu te mate? 

    — Eu já pensei em fazer isso por mim mesmo, mas sou covarde demais para isso — Dizia Marduc, se levantando — Como você mesmo disse, sou um monstro triste e solitário. Nunca fui amado, nunca vivi em um lugar belo, desde que me conheço por gente estou preso nessa cidade em ruínas.

    — Não é só sair andando?

    Marduc estando em pé se afastou um pouco da lareira, e ficou atrás da cadeira que estava sentado. Sua sombra tomou forma diferente do que era, o que era uma cabeça tornou-se pequenas pessoas, e a sombra da cadeira servia de chão para essas pessoas. Como uma lembrança de algo passado, e que retornava a passar pela mente de Marduc. Uma mulher dava à luz um filho, ela sofria muito com o parto, e outra mulher à ajudava. Quando enfim a criança nasceu, e a parteira tomou-a nos braços, a sombra voltou a ser a cabeça de Marduc. Tive a impressão de não se tratar apenas do retorno à forma original, mas sim sobre a escuridão que aquela criança trouxe com seu nascimento.

    — Se fosse tão simples já teria o feito! — Bradou o Demônio — Estou preso aos limites desta cidade, como a maldição também está!

    Marduc atravessou a sala em passos furiosos rumo à uma porta, nisso acabou passando pela luz da lareira, e uma sombra revelou sua silhueta inteira. Mas naquele breve movimento as sombras voltaram a se dissolver em memórias, homens tentavam matar a criança, mas ao chegarem perto caiam ao chão ou se voltavam uns contra os outros. A imagem daquela memória me fez entender por que esses soldados são tão devotos. Me levantei para segui-lo, acabei esbarrando na mesinha, o leite e os favos de mel caíram no chão, no mesmo instante apodreceram. O cheiro de enxofre subiu com o apodrecimento.

    O Demônio andou rápido demais para que eu pudesse acompanhá-lo, quando cheguei ao corredor vi apenas seu vulto cruzando uma esquina e o som de seus passos que eram tão altos quanto os trovões. O corredor era uma longa reta com tapetes vermelhos e tapeçarias pelas paredes, entre cada arte havia uma tocha. Conforme fui caminhando pelo corredor, prestei atenção nas tapeçarias. Elas continuavam a história revelada nas sombras. Sem poder matar a criança, passaram a cultuá-la como um deus, construíram para ela e sua mãe uma mansão, e nela viveram muitos dias até que a criança crescesse. Ao mesmo tempo que prestava atenção nessa história, passei meus dedos pela tapeçaria, e acabei me cortando. Havia algo como vidro entre a costura. Limpei o sangue do meu dedo na tapeçaria, e o sangue não a manchou.

    No fim do corredor virei a esquina, dei na mesma reta que estava antes. Achei estranho, fiquei um pouco confuso, mas continuei andando. Conforme me aproximei do fim do corredor, este se estendeu ainda mais. As tochas então queimaram as tapeçarias, as chamas revelavam mais da história. Conforme a criança crescia a maldição também aumentava, primeiro o solo tornou-se totalmente infértil, depois o gado morreu misteriosamente, e então por fim uma doença tomou as pessoas. Pouco a pouco essas pessoas se tornavam bestas terríveis, mas o pior foi que os recém-nascidos da cidade eram os mais afetados, sendo necessário queimá-los para que não matassem os próprios pais. A chama tornou-se forte demais para aguentar o calor e a fumaça começou a impregnar meus pulmões.

    — Marduc! — Gritei, rodeado pelas chamas e cansado de andar — Me ajude! 

    Em um piscar de olhos, o corredor voltou ao que era, só que sem as tapeçarias. Vi o vulto de Marduc novamente, como se tivesse voltado ao instante anterior. O segui e dei em uma escadaria, era um lance escuro de escadas, sem luz, tomei uma tocha do corredor e segui. As paredes da escadaria tinham diversos espelhos pequenos, e através deles não havia reflexo, somente mais daquelas imagens, daquelas lembranças que Marduc compartilhava comigo fosse inconsciente ou consciente. 

    Os reflexos de um passado revelavam uma mãe amaldiçoando o próprio filho, ela também erguia uma lâmina e perfurava o próprio coração. A criança encontrava sua mãe sem vida, e o sangue da finada corria sem fim em suas mãos, mas lágrimas não caiam de seus olhos. Da escada acabei em uma porta, a atravessei e me encontrei com Marduc em um quarto simples. 

    Não havia tapeçarias, no teto não havia lustre, no centro havia apenas uma cama simples e gasta. Sobre a cama estava deitado o Demônio, mas estava muito mais jovem, vestido diferente de pouco tempo atrás. Quando me aproximei, seus olhos abriram, ele se levantou, atravessou-me e foi de encontro com uma sombra.

    — Posso realizar seu desejo… apenas diga, mas cobrarei um preço… — Disse a sombra, cuja voz era familiar.

    — Quero ser como os outros, quero sentir, ter emoções, sorrir, sofrer, amar… — Disse Marduc.

    — Concederei seu desejo criança. Em troca, tornarei esta cidade para mim e você terá de me ofertar sacrifícios ou levarei de volta o que lhe dei e mais!

    Ambos se dissolveram junto da cama, e o quarto se iluminou. As paredes foram cobertas com molduras de pinturas diversas. Nas pinturas era possível ver o dia em que a torre foi erguida. Prosperidade voltou à cidade. Havia também outro que mostrava Marduc já com Gibão Azul, sentado em um trono enquanto soldados levavam à ele um pergaminho. Na próxima, Marduc já recebia sua primeira remessa de escravos e os encaminhava até a entrada da torre. 

    No fim do quarto havia outra porta, quando à atravessei, ouvi passos e choro vindo do fim de mais um corredor escuro. Não estava mais com a tocha, então o atravessei sem luz, mas conforme fui me aproximando do choro luzes brancas foram acendendo e revelaram paredes de mármore com entalhes de mais memórias. O Demônio um dia separou uma mulher dentre os demais escravos, ele deu banquete, banho e vestes novas. Havia uma estátua pequena em uma mesinha, nela tinha uma mulher e um homem. A mulher não temia o homem, e o homem a agarrava nos braços ao modo que era agarrado de volta. Marduc já amou e foi amado? 

    Quando enfim cheguei até a fonte do choro, havia apenas uma luz e duas sombras no chão. Uma sombra se aproximava da outra e dava-lhe um beijo, então a outra se transformava em algo distorcido. 

    — Onde estão meus sacrifícios? — Perguntou a voz familiar.

    — O QUE FIZESTE?! NO QUE A TRANSFORMOU?! — Gritou a sombra.

    — Tomei mais do que lhe dei… não destes meus sacrifícios, então tomarei tua mulher, irei interromper o controle da sua maldição, mas como sou piedoso não irei retirar seus sentimentos — Disse a voz — Dê meus sacrifícios ou tomarei mais ainda!

    A voz cessou, restando apenas o choro da sombra, forçada a matar a criatura distorcida. A luz apagou, o silêncio tomou conta, uma porta se abriu e através dela estava Marduc em uma cama coberta por cortinas de seda fina roxa. As paredes de carvalho, não havia mais tapeçarias, pinturas ou estátuas. O lustre no teto fazia a sombra de Marduc, mas ela já não estava dançando ou revelando formas. E o espelho na parede revelava meu reflexo. Quando olhei para trás vi que a porta que atravessei dava diretamente com o salão onde estava a lareira e as cadeiras, sem corredores ou escadas.

    “Apenas mate ele…” Disse Sagi, antes que eu me aproximasse mais do demônio.

    “Só por que ele é um demônio?” Pensei.

    “Eu não ligo mais para o que ele é, já disse, vamos além do bem e do mal. O que peço é somente para eliminar uma criatura entregue” Disse Sagi.

    “Você diz para ir além, mas sempre me cobra das decisões ruins que tomo. Hipócrita!” 

    “Eu só te cobro o que você mesmo se cobra. Por mim já estaríamos em Björn, mas você quis ser humanista e libertar os escravos. Depois os matou, depois torturou os substitutos, depois os abandonou” Dizia Sagi “Sua consciência pesa, mas você já aprendeu a reprimir, eu apenas exponho algo que tu já não dás mais tanta atenção. Agora vê aquele homem? Ele morreu há muito tempo, matá-lo será um ato de misericórdia. Pense, que se continuar seguindo esse caminho sem ouvir o que há dentro de ti, logo será você naquela cama…”

    Me aproximei da cama e sentei-me ao lado de Marduc. Este se parecia com o Demônio de meu tempo, estava chorando, deitado com a cabeça entre os travesseiros. O homem soluçava e batia no travesseiro. Já estive assim, tão entregue ao sentimento que nem sei dizer o que eu sentia ou não, e vê-lo daquela forma me fazia ter certeza de que no fundo ele era humano.

    — O que foi que eu vi lá atrás? — Perguntei.

    — Tudo… — Disse Marduc, ainda com a cabeça entre os travesseiros.

    — Eu não vou pedir para me explicar, só tenho uma pergunta; ainda quer que eu te mate?

    — Depois de ver tudo ainda pergunta? — Marduc se virou, e encarou-me — Eu perdi tudo! Minha mãe, meu amor, nem sequer minha cidade me restou… aquele Djinn… eu devia tê-lo servido melhor, não deveria ter sido negligente com ele…

    — Meu Djinn, sei…

    — Você o escuta? Pode falar com ele dentro de você?

    — Não… ainda bem, já tenho alguém para me encher o saco, não preciso de dois — Disse.

    Marduc sentou-se, apoiando-se na cabeceira. Recolheu os pés e ficou lá sentado em posição fetal, com queixo entre os joelhos. Seu curto cabelo negro caia sobre a testa e cobria seus olhos azuis. O nariz fino e as poucas sardas acabavam me lembrando Cleonice. E novamente, a face do choro não combinava com aquele rosto. 

    — Sabe por que tenho minhas cicatrizes? — Perguntei — Há um ano e meio, eu comi um peixe e esse espírito passou a dividir corpo e mente comigo. Desde então ele me importuna, me coloca em situações de risco, me treina e me critica. Até mesmo alcançar o Norte é ideia dele.

    — Já sabia sobre o espírito, só não do resto…

    — Sabia…? Bem, não importa… Tem algo que ele me disse que eu… na verdade ele não disse, mas ficou implícito para mim… — Eu dizia, me enrolando nas palavras — Que todos têm um recomeço!

    O silêncio perdurou um pouco, Marduc estava engolindo o choro. Me aproximei dele, sentando-me à sua direita, o Demônio deitou a cabeça de lado e me encarou com um sorriso sereno. Aquele sorriso me lembrou Cleonice novamente, me aproximei mais de perto para vê-lo e então ele levantou a cabeça. Eu estava muito próximo, encarando aqueles olhos azuis, o beijei. Marduc acolheu o beijo e escorregou suas mãos pelo meu peito. Ainda havia gosto de sangue na boca dele, mas não podia parar. Montei por cima dele e continuei o beijando.

    Marduc rasgou minha túnica, a mesma que ele havia me dado horas ou meses atrás. Eu rasguei seu Gibão, e fui descendo, beijando, de seu pescoço até sua virilha. Eu o lambi, e o chupei, e retornei até seus lábios. Marduc enfim rasgou minhas calças, e pôs seu membro dentro de mim. O senti, me movimentei, continuei por cima e Marduc acariciava meu membro. Estávamos unos, um soldado entrou pela porta e deixou algo no meu pé. Somente quando nós dois chegamos ao orgasmo que eu peguei o que quer que havia sido deixado.

    — Faça! — Disse Marduc, ainda ofegante.

    Com a faca em mãos perfurei seu coração. Ao mesmo tempo era como se meu próprio havia sido perfurado. No fim, meu futuro estaria selado, assim como ele, fiz um pacto com o Djinn da Ironia e da Ambição. Não há razões para sorrir agora.

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