No alto da torre o som das trovoadas era constante e ensurdecedor, sendo que com cada estrondo meu corpo arrepiava — como se o raio tivesse me acertado. O ar seco daquela sala corria pelas minhas narinas, e era acompanhado pelo cheiro de madeira queimada, comida, e pouco do enxofre que era comum naquela cidade. À minha frente estava Marduc, que comia sem parar enquanto eu estava satisfeito apenas o fitando. Cada prato eliminado era reposto por outro, soldados magros cujos estômagos eram audíveis serviam o Demônio guloso. Em dado momento a comida enfim acabou, mas Marduc batia com força o dedo indicador contra a mesa, o som do gesto era alto como o trovão do lado de fora da torre. Os soldados, sem ter o que mais ofertar para o Demônio impaciente, mataram um dos seus e o serviram com armadura e tudo.

    Marduc ao invés de repreendê-los, rasgou a armadura do soldado como quem rasga papel. Ainda com gestos nobres, comeu o cadáver de garfo e faca, com a elegância de um príncipe — nenhuma gota de sangue manchava seu gibão azul. Por alguma razão, cada mordida que ele dava naquele soldado me fazia encolher, tal como se a mordida houvesse sido dada em minha carne. Ainda assim, quis ver mais de perto, então levantei-me e aproximei-me dele. Vi bem próximo aquele cadáver com vísceras rasgadas, sendo devorado como um cervo bem servido. O cheiro era podre como das criaturas que vi do lado de fora da torre, e uma gota de seu sangue voou em minha bochecha. O sangue daquele cadáver passou a correr pelo meu rosto, mas antes de passar pela boca o lambi para ter certeza do gosto.

    — Que modos os meus… quer um pouco? — Perguntou o Demônio.

    — Dispenso…

    Retornei ao meu lugar à mesa e esperei até que Marduc terminasse sua refeição. Observei melhor os arredores, a tapeçaria nobre, os soldados enfileirados em um canto da sala. Inexpressivos, como pessoas que já estivessem ou teriam aceitado a morte iminente. Havia uma lareira atrás deles e duas cadeiras com estofado vermelho. Mais à esquerda havia uma grande janela com uma sacada ampla.

    Em determinado momento o som das mordidas cessou, um silêncio tomou a sala que só não era totalmente silenciosa devido aos trovões e os estalos vindos da lareira. Dois soldados retiraram o resto do cadáver, então o levaram através da mesma porta de onde vinha a comida. Marduc limpava os lábios com um lenço branquíssimo, e seu gibão continuava sem manchas.

    — Agora que terminei minha refeição podemos conversar! — Disse Marduc — Como foi matar o Djinn?

    — Não o matei — Respondi.

    Marduc pareceu incomodado com isso, mas prosseguiu.

    — Então fizeste um pacto… — Disse ele.

    — Sim, mas ainda não consigo controlar meus poderes.

    Marduc levantou uma sobrancelha. Sua aparência humana era de um jovem com boa fisionomia, olhos azuis e um cabelo cacheado negro.

    — O que pretende fazer com esse poder? — Perguntou Marduc.

    — Vou para o norte…

    — E só?

    Essa última pergunta foi acompanhada com a sincronia de um trovão. Isso fez com que eu me arrepiasse. Será que eu realmente deveria só usar esse poder para alcançar o Norte? Sacrifiquei minha paz pessoal por ele, sei que não foi por ambição, mas sim por amor — talvez por preguiça. Ainda que eu não tivesse objetivos claros com esse poder, ele era muito maior do que somente servir de muleta para alcançar o Norte.

    O Demônio levantou-se e pediu que eu o acompanhasse. Se dirigiu para aquela sacada, mas não procurou sentar-se fora da janela, ao invés disso, apoiou-se na parede próximo à janela, e eu fiz o mesmo, porém no lado oposto. Ele observava a cidade, e eu fiz o mesmo. Sendo que daquele lugar era possível ver a antiga mansão sendo devorada por um tipo de mofo, os civis deformados arrastando-se pelas ruas mal pavimentadas.

    — Há muito mais do que apenas o Norte — Disse Marduc — O que pode haver no Norte que valha mais do que há aqui?

    — Uma promessa.

    — E o que é uma promessa senão um juramento que ainda há de ser cumprido? — Perguntou o Demônio.

    Soldados de Marduc nos trouxeram as cadeiras da lareira para que sentássemos enquanto encarávamos a paisagem deturpada. O Demônio sentou-se primeiro, e eu na sequência. Trouxeram duas taças com vinho e uma mesa para que descansássemos as mãos.

    — Não complique as coisas — Respondi.

    — Estou apenas afirmando o óbvio, sei disso. Porém veja como vejo — Disse Marduc, tomando um gole do vinho e continuando — Promessas surgem do Ego, por que prender-se nesse Ego? Tudo não passa de afirmação e reafirmação, revisão das palavras e promessas não cumpridas.

    — Promessas às vezes podem ser vazias, eu sei disso, mas variando de quem as faz é possível se agarrar nelas — Respondi.

    — E quem lhe prometeu isso? Se a pessoa já tiver mentido para você uma só vez, indiferente de quem seja, a promessa tem metade das chances de ser vazia como diz — Retorquiu Marduc.

    Eu não tinha resposta para isso, e ele sabia disso. Pegou a taça de vidro de safira e a levou aos lábios. Bebeu seu vinho todo em um só gole. Um soldado atrás de nós encheu a taça novamente. Eu não tinha uma resposta simples para a pergunta, quem me prometeu o Norte foi Sagi, e sim, ele já havia mentido para mim inúmeras vezes, mas também se provou leal algumas vezes — pois é, algumas vezes ele foi leal. Dá para contar nos dedos quantas vezes ele me deu sua aprovação e me protegeu de verdade, mas não sei contar quantas críticas ele já me deu e mentiras ele contou. Ainda assim, sinto, talvez por conta da fusão, que ele fala a verdade quando se trata do Norte.

    — Por que nós não simplesmente nos matamos? — Perguntei.

    — A violência nem sempre é uma opção… — Disse o Demônio.

    — Mas você foi bem violento com os Fragarks, com o jovem degolado dias atrás, com o soldado de agora a pouco — Respondi — Mesmo a paisagem à sua volta inspira violência, sua Natureza é violenta!

    Marduc deu um gole seco no vinho, me encarou de canto de olho. E depois de beber mais uma taça cheia, o soldado continuava a repor o vinho.

    — Já ouviu falar de almas semelhantes? — Perguntou o Demônio.

    — Refresque minha memória fazendo favor.

    — Dizem que nesse mundo há almas opostas, semelhantes e que se completam — Disse Marduc — Por mais que não acredite, acho que somos semelhantes.

    — Não inspiro por violência — Atorqui.

    — Nem eu… só não há como negar que eu e você estamos atolados até o pescoço nela.

    Quando o vinho acabou e parou de ser servido, novamente Marduc bateu a ponta do dedo contra a mesa. Soldados trouxeram um dos seus, cortaram a garganta e deixaram seu sangue preencher a taça. O Demônio bebeu o sangue com gosto, como se fosse um vinho melhor que o primeiro.

    — Não venha me dizer que somos iguais! Eu não bebo sangue como se fosse água! — Bradei.

    — Mas não faz alguns minutos que lambeste o sangue das vísceras daquele homem — Disse Marduc — E se não estás acobertado pela violência, como explica suas cicatrizes?

    — O sangue pode nos aproximar, mas não somos iguais — Respondi — Tudo que faço é para sobreviver, e proteger quem amo.

    — E quem ama o monstro?

    Em minha mente, vi o rosto de Cleonice em lágrimas clamando por sua vida; tive a lembrança de Gryiejörn se debatendo desesperado. Olhei para minha própria mão e lembrei do sangue dos escravos escorrendo por elas, assim como o rosto do clérigo, do sacerdote e dos soldados caídos comigo. Pensei que talvez se meus pais e avô me vissem hoje não me amariam como já amaram. Enquanto meu coração palpitava forte e sem ritmo, lembrei-me do único que ainda não me abandonou…

    — Fidel, esse ama — Respondi.

    — O escalpelado? E quem poderia tê-lo mutilado?  — Perguntou Marduc.

    — Não fui eu, se quer saber, nem foi decorrente de minhas ações. Disso minha consciência está limpa, diferente da sua que deve carregar todas as culpas!

    O Demônio sorriu, levou o sangue à sua boca, lambeu seus lábios. Eu acabei tomando um pouco de meu vinho também. Um soldado surgiu com uma bandeja de prata e pôs sobre a mesinha entre nós. Na bandeja estava servido algum tipo de petisco fino e retorcido, pareciam… não, com toda certeza eram dedos humanos.

    — O que é o amor? — Perguntou Marduc — Acredito que o amor seja um desejo de posse incondicional, será que Fidel realmente deseja possuir o Monstro, ou apenas se aproveita dele?

    — Não levante dúvidas contra Fidel!

    — Mas seria possível que ele em algum momento estivesse envolvido com algo contra você? — Perguntou o Demônio.

    Lembrei-me vagamente de Higg e como ele estava prestes a me matar. Fidel estava com ele, mas nada é tão preto no branco. Marduc, pegou um dedo, arrancou-lhe a unha e comeu deixando apenas o osso fora da bandeja.

    — Eu acredito em Fidel, confio nele. Sei que não faria nada de mal contra mim, mesmo que ele necessite do monstro e não da pessoa, ele jurou-me sua lealdade — Disse.

    — Palavras, palavras ao vento! — Bradou Marduc — Palavras pequenas, palavras grandes! No fim, juramentos são apenas isso não entendeu?!

    O Demônio encheu a mão com dedos e os jogou inteiros na boca, sem sequer tirar as unhas ou cuspir os ossos. Os mastigou, e dava para ouvir os pequenos ossos se quebrando como o trovão cortava os céus.

    — Já foi traído Marduc? Por acaso o demônio já acreditou no amor e foi enganado? — Perguntei.

    — E você não? Ainda espera confiar nos outros depois disso? — Retorquiu.

    — Então é disso que se trata… Você é uma criatura triste e solitária, e quer me transformar no que você se transformou!

    Marduc se levantou, abriu as janelas da sacada e se apoiou no parapeito dela. O vento da tempestade era forte, e mesmo com a ameaça de uma chuva fina caindo sobre nós, fiz o mesmo que ele me apoiando naquele parapeito adornado. O Demônio encarava a cidade que possuía, a destruição que causava, deu um leve suspiro.

    — Tudo o que está vendo me pertence — Disse Marduc — Não é horrível?

    — Ao menos você tem consciência disso! — Respondi — Se sabe então por que destrói?

    — Eu não quero destruir, gostaria de ver campos floridos ao menos uma vez na vida…

    O Demônio falava manso essas palavras, se apoiava, tinha um olhar de ressaca. Não como a ressaca do mar, mas a ressaca do moribundo que bebe para esquecer da própria miséria. Marduc, em todo o seu luxo e poder, não passava de um homem miserável.

    — Eu já estive em um campo florido, não é tudo o que se imagina — Disse.

    — E como é então? Como poderia um campo florido não ser absolutamente melhor que isso? — Perguntou o Demônio.

    — Toda rosa tem um espinho, e toda beleza cobra seu preço. Ao menos esse lugar é honesto.

    — Mas de que vale a honestidade? O homem precisa ser uma pilha de segredos para não ferir o outro com suas palavras.

    — Não eram apenas palavras ao vento? — Ironizei.

    Como se fosse sincronia, um vento correu forte sobre nossos rostos. Eu tive que cobrir a face, mas Marduc sequer piscava com tanto vento. Ele então disse para as nuvens que cessassem e o vento parou, a chuva caiu grossa, mas graças a um telhado em cima da sacada não fomos atingidos por ela.

    — A verdade não é para ser agradável e sim confiável. É para podermos saber o que esperar, esse lugar por pior que seja, é honesto, não tem grandes segredos por trás — Eu dizia — Já estive em um templo adornado com ouro, pedras preciosas como: Jaspe, Safira, Calcedônia, Sárdio, Crisólito, Berilo, Topázio e Ametista. Havia um Sacerdote e seus Clérigos, todos vestidos com linho fino, adornos roxos, fios de ouro e joias nos dedos. O Sacerdote, mais que os Clérigos, falava palavras bonitas e tinha voz reconfortante, uma pena que não juntava as palavras aos modos…

    — Como assim? — Perguntou Marduc.

    — Ele tinha mais sangue nas mãos que muitos assassinos, e diferente dos assassinos que são marcados por esse sangue, o dele era encoberto por tesouros dos espólios que tomava.

    — Não sou muito diferente dele então.

    — Pelo contrário, você tem seus luxos, mas não esconde seu jogo — Respondi.

    Voltamos para o salão, ao passar pelas janelas os soldados as fecharam juntos das cortinas vermelhas. Pensei que voltaríamos para a mesa, mas pelo contrário, as cadeiras que ora estivemos sentados estavam próximas da lareira, Marduc sugeriu que nos aquecêssemos.

    — Não há como esconder a natureza das coisas, eu sou o que sou assim como você — Disse Marduc — Nossas ideologias é que são distintas, mas somos iguais em ego e semelhantes em natureza.

    — Concordo que se não fossem as circunstâncias poderíamos ter sido amigos.

    — E quais são as circunstâncias? — Perguntou Marduc — Não responda já posso imaginar a resposta: é essa sua fusão de almas, o espírito que te acompanha por acaso odeia os demônios?

    — Não diria que seja por conta da fusão, é mais por conta da forma como nos jogou naquela masmorra…

    Os soldados sem ter o que mais servir, trouxeram-nos leite morno e favos de mel. Marduc já não estava comendo.

    — Não vai comer? — Perguntei.

    — Dispenso… — Respondeu — Sobre a masmorra… faz três meses desde que vocês entraram lá, sei que o tempo é relativo, mas é um pouco injusto me cobrar dívida disso. Sequer lembro seu nome, ou melhor, nem lembro de você se apresentar naquelas circunstâncias.

    — Meu nome é Piscium Piger, meus amigos me chamam de Piscis — Disse.

    — Como devo te chamar?

    — Pode ser Piscis.

    O Demônio sorriu, e riu um pouco e bem de leve. Seus olhos saíram um pouco da ressaca e se voltaram para o morno como era a temperatura do leite.

    — Então somos amigos? — Perguntou Marduc.

    — Posso te perdoar da dívida de três meses, então sim.

    — Posso te pedir um favor? Como um amigo? — Perguntou.

    — Claro, fique à vontade!

    — Poderia me matar? — Perguntou Marduc.

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