Capítulo 539 - Abatida
Um sorriso de satisfação surgiu no rosto de Abel. Ele sabia que aquele Corvo Imortal era o mais inteligente do bando. Mais uma vez, a criatura não decepcionou, agindo no momento crucial.
O corvo continuou bicando e, logo, o efeito de cegueira foi ativado. Um padrão mágico emergiu sobre o crânio de Andariel, e a cabeça caiu no chão, interrompendo o voo de retorno.
Nesse momento, Abel parou de ser empurrado para trás. Sem perder tempo, ele executou uma Investida em direção à cabeça e emendou com outro Golpe de Escudo. Então, a sequência de estocadas recomeçou.
Desta vez, ele manteve os olhos fixos na fenda na testa dela, mas parecia que Andariel havia esgotado toda a sua energia com o último comando. O crânio não ofereceu mais resistência.
O corpo, por sua vez, continuava preso pelos quatro Cavaleiros Guardiões Espirituais. Embora as caudas continuassem disparando esferas de veneno, os cavaleiros se mantinham vivos graças às Poções de Recuperação Total de Abel, brilhavam constantemente em luz roxa.
No entanto, esse equilíbrio foi subitamente quebrado. Uma onda de brilho verde explodiu simultaneamente das quatro caudas de escorpião. A concentração de veneno no ar se multiplicou.
A Alma Druídica não conseguiu reagir a tempo; todos os Cavaleiros Guardiões Espirituais foram mortos, exceto o Capitão.
Outro flash de luz roxa banhou o Capitão, restaurando-o. Ele sentia que o fim da batalha estava próximo, por isso, manteve-se agarrado ao corpo de Andariel, recusando-se a soltar.
Com aquela explosão final, Andariel perdeu as caudas de escorpião. Isso significava que ela não podia mais realizar ataques de veneno. Somado aos ferimentos graves, sua força despencou. A partir daquele momento, o Capitão dos Cavaleiros Guardiões Espirituais conseguiu afirmar domínio total sobre o corpo decapitado.
Abel já perdeu a conta de quantas vezes esfaqueou a cabeça de Andariel. Seu braço estava rígido pelo esforço repetitivo. De repente, uma luz cegante emergiu do crânio e o empurrou suavemente para longe.
Ao mesmo tempo, o corpo também começou a brilhar, repelindo o Capitão.
Quando Abel pensou que algo terrível aconteceria novamente, o corpo de Andariel se dissolveu em uma sombra de luz. Dentro dessa sombra, Abel pôde ver incontáveis vidas lutando e gritando. Havia cavaleiros, Arqueiras, crianças, anciãos e todo tipo de seres não humanos. Todos estavam aterrorizados.
Lentamente, a sombra de luz se expandiu e aquelas vidas explodiram em centelhas brilhantes, dançando ao redor do quarto andar da tumba subterrânea. Logo, os gritos cessaram, substituídos por uma sensação de libertação.
As centelhas pararam de voar e se reuniram diante de Abel, fazendo uma reverência universal, reconhecida nos três mundos.
O ambiente ficou em silêncio, e aquelas incontáveis centelhas de vida agradeceram a Abel, cada uma à sua maneira, pela liberdade concedida. Enquanto as luzes desapareciam, ele ouviu um canto suave emergir.
Embora não conseguisse distinguir as palavras, uma profunda gratidão preencheu seu peito. Ele percebeu que aquela era a Canção da Vida, entoada pelas almas salvas em sua homenagem.
Abel sabia que eram almas humanas puras, e não espíritos infernais, pois seu Cubo Horádrico permaneceu inerte.
Em respeito àquelas vidas, Abel curvou-se em resposta. Com esse gesto, a última centelha desapareceu.
Finalmente acabou. Abel suspirou, encarando o cadáver podre e imóvel de Andariel.
O estranho era que ele não conseguia encontrar a alma de Andariel para recolher. Era como se tivesse lutado contra um cadáver vazio o tempo todo.
Abel olhou para o único sobrevivente de seu exército, o Capitão, e para os ossos espalhados no chão. Aquela foi a batalha mais intensa de sua vida.
Ele perdera muito mais do que jamais imaginou, mesmo com um inventário cheio de poções divinas.
Abel não conseguia entender como Andariel se tornou tão poderosa. Ele nunca viu um deus, mas Andariel parecia possuir a autoridade de um. Ela podia alterar as leis do mundo com apenas uma palavra. Isso não era normal. Nem mesmo os demônios do inferno comuns possuíam tal capacidade.
Se Andariel tivesse esse poder quando o Céu e o Inferno disputavam o controle do Mundo das Trevas, ela jamais teria sido aprisionada voluntariamente naquela tumba.
Abel não conseguia compreender esses mistérios, mas a batalha terminou. Agora, restava o espólio. Ele caminhou até os restos de Andariel.
Logo, a expressão de Abel tornou-se sombria. Ele sacrificou tanto. E Andariel, uma das Grandes Males, não deixou cair nenhum equipamento. Mesmo que outros chefes pudessem não deixar armas ou armaduras, eles ao menos deixavam uma alma que poderia ser transmutada em uma Poção de Atributos.
Abel recusava-se a aceitar aquela realidade. Sentia-se roubado. Perdeu sete Cavaleiros Guardiões Espirituais, incontáveis Poções de Recuperação Total, e tudo o que conseguiu foi um cadáver inútil.
Quanto mais olhava para Andariel, mais sua raiva crescia. Num acesso de fúria pragmática, ele apontou para o cadáver e desenhou um padrão mágico no ar. O Qi da Morte se reuniu e, bang. O corpo de Andariel explodiu em pedaços, e um esqueleto anormal se ergueu dos restos.
Era anormal porque, ao contrário dos esqueletos humanoides comuns, este possuía quatro caudas de escorpião nas costas.
Foi a primeira vez que Abel invocou uma variante assim. Como raramente precisava renovar seu exército de esqueletos, ele desconhecia essa possibilidade da habilidade Ressurreição de Esqueleto.
Abel então invocou um lobo terrível, e o esqueleto anormal caminhou automaticamente em direção a ele. Logo, os dois começaram a se fundir. A substância semitransparente do lobo formou uma camada de “músculos” e “pele” sobre os ossos.
Um Cavaleiro Guardião Espiritual de seis braços nasceu diante de seus olhos. As quatro caudas de escorpião assemelhavam-se a braços extras envoltos naquela substância espectral. O detalhe mais fascinante era que a ectoplasma formara mãos funcionais na ponta de cada cauda.
Vou te chamar de Naga! pensou Abel, lembrando-se das criaturas marinhas míticas de múltiplos braços.
Uma excitação ardente substituiu a frustração. Já que sua habilidade podia gerar variantes, e ainda havia seis vagas em seu exército, ele decidiu testar com os cadáveres das criaturas infernais espalhados pelo salão.
Ele invocou os seis esqueletos restantes, mas, ao final, teve certeza de que Naga era única. Talvez fosse fruto de seu carma.
Ele acabou de libertar tantas almas, ouvindo a Canção da Vida. Embora não soubesse o efeito prático daquilo, deveria ao menos ter aumentado sua sorte, mesmo que minimamente.
Os novos esqueletos foram transformados em Cavaleiros Guardiões Espirituais, um por um. Ele ordenou que vestissem os equipamentos mágicos deixados pelos cavaleiros caídos, que ainda estavam em boas condições.
Logo, o temível esquadrão de oito Cavaleiros Guardiões Espirituais de Abel estava reformado. Esse era o poder supremo do Necromante. Talvez nenhuma divindade no Continente Sagrado utilizasse mais essas técnicas de invocação tradicionais, preferindo transformar guerreiros poderosos diretamente em mortos-vivos de elite

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