Capítulo 596 - Aventureiros
Depois de tudo, K3308 começou a escolher seu lobo de montaria. Embora estivesse de olho no rei da matilha, sabia que seu companheiro ficaria com ele. Não havia chance de negociação. Após um tempão hesitando e analisando, finalmente selecionou um lobo belíssimo.
Sob a ordem de Abel, o animal aceitou o contrato mágico com K3308. O processo foi tranquilo e, assim, o mago obteve o companheiro perfeito, algo que considerava quase impossível.
“Senhor, suas flechas!” anunciaram os guerreiros de elite, que já tinham recuperado todas as flechas perfura-armaduras do chão.
“Comandante-chefe Bodley, podemos descansar aqui um pouco? Organize alguns homens para levarem os lobos embora!”, pediu Abel.
“Claro, todos estão exaustos após uma batalha tão intensa. Vamos almoçar aqui e então voltaremos!” Bodley concordou com um sorriso amigável.
Enquanto o acampamento se organizava para a refeição, Abel conectou-se a Bartoli através da corrente de almas.
Graças à estabilidade da conexão, a mulher rastreou o mestre sem esforço. Ela se teletransportou para a cidade mais próxima e, de lá, usou feitiços de deslocamento rápido até o ponto exato.
“Quem é?!” gritou Bodley, sentindo a presença de uma figura poderosa.
Bartoli usava um manto cinza pesado que escondia seu rosto sob o capuz. Ninguém ali foi capaz de reconhecê-la; viram apenas o feixe de luz branca relampejar ao lado do garoto.
“Comandante-chefe Bodley, é um subordinado meu!” explicou Abel, prestando uma reverência para o grupo em sinal de respeito.
A recém-chegada curvou-se para ele em resposta. Nesse meio tempo, o líder já tinha ordenado aos lobos que a seguissem pacíficamente. Os animais seriam escoltados até o Castelo Harry. Como seu domador, Marcy, possuía vasta experiência com aquela raça, ficaria a cargo da adaptação.
Como o diálogo ocorria via corrente de almas, nenhum dos dois precisou mover os lábios para organizar a logística.
Logo em seguida, Bartoli montou em uma das feras e partiu com as outras quarenta em seu encalço.
“Aquele mago intermediário é uma mulher!” afirmou K3308, mordendo seu bife assado perto da fogueira.
“Como você sabe?” perguntou K3305, curioso em saber como o amigo identificou o gênero sob um manto tão grosso.
“Ela é uma condessa de prestígio. Não importa o quanto alguém tente se esconder, a essência nobre sempre transparece. Cada pequeno gesto que ela fez exalava nobreza!” K3308 comentou, exibindo um sorriso presunçoso.
“Parece que aquela maga respeita muito o K3516, quase como se fosse uma serva!” pontuou K3305. Ele também tinha sangue nobre, mas, por viver recluso no círculo mágico, não lia as sutilezas da sociedade tão bem quanto o amigo.
“Sabe o que eu acho? O 3516 deve ser filho bastardo de um rei. Nenhum nobre comum faria uma maga intermediária servi-lo desse jeito!”, murmurou, desconfiado.
Abel estava radiante vendo Bartoli desaparecer no horizonte. O fato de ter ganhado um filhote de lobo na época de cavaleiro novato foi uma sorte divina. Daquele dia em diante, sua família não precisaria de milagres para desfilar com a montaria número um do Continente Sagrado.
E o mais importante: a presença da matilha no Castelo Harry seria o grande incentivo para manter os magos de domínio que ele planejava formar.
“Senhor, seu bife assado!”, chamou Joey, estendendo um pedaço recém-preparado.
“Obrigado!” agradeceu gentilmente. Abel gostava bastante de Joey e Basil. Sem esperar ordens, os dois não só recuperaram as flechas, como recolheram todos os itens valiosos dos orcs caídos.
Enquanto comiam, Bodley varreu os olhos pelos presentes até fixá-los em K3308.
“Escutem bem”, declarou o líder. “Quero deixar algo muito claro. Espero que todos guardem segredo sobre o estilo de luta do Senhor Mago K3516!”
K3308 se sentiu ofendido com o olhar sério, protestou:
“Por que está olhando para mim? Eu sou o mais confiável daqui!”
Até K3305 negou com a cabeça. Seu companheiro falava pelos cotovelos; esperar descrição parecia ingenuidade.
“K3308 manterá o segredo”, assegurou Markham em voz baixa.
Sempre presente às costas do protegido, a garantia de Markham selava o assunto.
“Obrigado, Comandante-chefe Markham!” agradeceu Abel, curvando-se.
Abel não se preocupava com a fama de poderoso. O que demonstrou não era o seu verdadeiro limite, pois seus recursos mortais continuavam em segredo. Ainda assim, prudência era essencial na Cidade do Milagre.
“Essa sela está imunda!” reclamou K3308, aproximando-se da sua nova montaria assim que terminou de comer.
Markham não disse nada; apenas avançou e ajudou a soltar as fivelas da montaria. Equipamentos para lobos eram específicos e raros; jogá-los fora não era opção.
“Bodley, vou ajudar a lavar o equipamento do K3308!” avisou Markham.
“Não se preocupe com isso. Tenho um conjunto de selas novinhas nos meus espólios. Fique com uma!” Abel sorriu, sacando uma sela impecável da bolsa e estendendo para o guerreiro.
“Caramba, muito obrigado, K3516!” K3308 puxou o couro lustroso com os olhos brilhando.
Markham soltou um suspiro de alívio. Ninguém sabia onde ficava a fonte de água mais próxima e a falta de higiene dos Lobisomens era lendária. Tentar esfregar aquele chiqueiro a seco seria um inferno.
O presente, era uma das selas pessoais de Abel. Vento Negro crescia constantemente e demandava trocas regulares, obrigando-o a estocar várias opções na Bolsa Espiritual do rei orc.
Com os estômagos cheios, o grupo retomou a marcha. Abel pulou nas costas do rei dos lobos, enquanto o cervo continuava a segui-lo docilmente, treinado para acompanhar a comitiva sem necessidade de cabrestos.
K3308 testava sua nova aquisição, acelerando e freando repetidamente para exibir suas manobras.
Todos sabiam que a conexão mágica da vontade comandava o animal. As manobras não refletiam talento com as rédeas, mas sim ordens mentais baratas.
Ninguém deu muita trela. Pelo menos a distração mantinha o jovem mago calado e com um sorriso bobo no rosto.
Na formação, K3308 cavalgava lado a lado com K3305. Embora Markham fosse sua sombra protetora, o guerreiro empunhava qi de combate de gelo e tinha a personalidade de uma geleira. Assim, o colega mago era sua única válvula de escape social.
“Senhor Bodley, detectamos um esquadrão de aventureiros mais à frente!”, relataram Joey e Basil, retornando a galope.
Os dois não perderam tempo descansando e redobraram a atenção após o fiasco da última emboscada.
“Formação de batalha!”, berrou Bodley.
“K3308, rápido! Assuma a formação!”, ordenou Markham.
“Joey, são mais orcs?” K3308 murchou na sela.
“Não, é um esquadrão humano!”
“Então por que a preocupação?!” reclamou o garoto, irritado.
“Esquadrões humanos são piores que os orcs, K3308!”, alertou Markham com extrema seriedade.
“Exatamente. Vamos manter a postura defensiva para deixá-los cientes do nosso poder. Assim, ninguém tentará nos roubar”, complementou Bodley.
Qualquer grupo mercenário que se aventurasse pelo Monte Budapeste à procura de bestas espirituais trazia, no mínimo, um Comandante-chefe e um Mago experientes para compensar a escassez de membros. Subestimá-los seria letal.

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