Era sexta-feira treze.

    — Que belo dia para se enfrentar zumbis, hein?

    Ele estava diante de uma casa azul. Um muro baixo a separava da rua, e um jardim cheio de ervas daninhas despontava por cima dele.

    A família que morava ali, aparentemente, não se importava com a imagem que passavam para os vizinhos. Moravam num subúrbio, afinal de contas.

    Ratos de lacinho ainda são ratos, eles diriam.

    Ele precisava ser rápido.

    — Você sabe como eles infectam outras pessoas?

    — Não — disse Renato, balançando a cabeça. — Não tivemos tempo para estudá-los.

    — Entendo.

    Mas ele tinha uma ideia.

    “Se o Simia-rex foi introduzido em feridas abertas, é justo pensar que é assim que a reprodução funciona.” 

    Era discutível. Afinal, não sabiam se o vírus realmente tinha consciência, e assumia o corpo da vítima, ou se ele apenas a induzia a fazer suas vontades.

    Em todo caso, deviam eliminá-los.

    — Você não vai gostar nenhum pouco do que vou sugerir agora — disse Nathan, coçando a nuca.

    — Diga.

    — O que acha de…

    Olhou para a casa, depois para ele.

    — Tocarmos fogo?

    — Passou pela minha cabeça — disse o cientista, arregalando os olhos. — É., é uma opção válida.

    — Mas…

    É a sua família, era o que Nathan ia dizer.

    Ele devia ser um monstro, se havia concordado. Dando de ombros, Nathan andou pelo corredor lateral.

    — Beleza.

    — Aonde você vai?

    — Vou buscar a gasolina — respondeu o garoto.

    Um corredor entre muros ligava as duas casas. Lama preta molhava o chão, mas ele não se incomodou com isso.

    Ao entrar em casa, o garoto viu a própria garagem. 

    Um grande vão era reservado ao carro, que o ocupava sem remorso. Um cubículo guardava ferramentas, duas bicicletas e um tambor de gasolina.

    “É isso!” 

    Fuçando na caixa de tranqueiras, ele pegou um objeto prateado e o guardou no bolso. Na passada, pegou o tambor. Deslizando o portão de ferro, ele saiu como um ladrão.

    De volta à casa do fundo, o cientista o esperava.

    — Você realmente…

    — Ué, eu tava falando sério. Precisamos resolver isso o mais rápido possível. Não sabemos como o vírus se comporta, nem como ele vai evoluir! Então, precisamos dar cabo dele o quanto antes…

    E estendeu o tambor.

    — Tome.

    — Hã? — grunhiu Renato, confuso. — Por que?

    — Bem, a casa e a família são suas, né?

    — É sério isso?

    O garoto assentiu.

    — Certo, certo. Eu vou.

    Desajeitado, o homem de jaleco passou pelo arco de entrada. Balançou o recipiente de um lado para o outro, molhando as ervas daninhas.

    Enquanto fazia isso…

    Squish, squish!

    Um som pegajoso, como o de alguém pisando em água, veio de dentro da casa.

    — M-merda…

    — Que foi? — indagou Nathan, do lado de fora.

    — Nada, não aconteceu nada — falou o cientista, fingindo tranquilidade.

    Porém!

    — Mas que…?!

    CRAM!

    Um braço ensanguentado furou a porta, e uma mão tateou pela superfície de madeira. Nathan correu e arregalou os olhos quando entendeu o que era.

    — E-e agora?! 

    — Taca fogo! 

    — Mas eu não…

     — TACA LOGO!

    O isqueiro brilhou na mão direita. Ele abriu a tampa com o dedão, e uma chama acendeu. Ele encarou a grande massa de plantas….

    E não fez nada.

    — TACA LOGO!

    — Eu não…

    Um garotinho com um dente faltando surgiu em sua memória.

    Em seguida, uma mulher baixinha oferecia uma vasilha cheia de fritinhos, enquanto um homem magricelo, cansado, vestindo trapos, descansava uma lata de tinta na varanda.

    A vida antes daquilo.

    — Eu não posso.

    Péssimo timing sentimental.

    O braço esbarrou na maçaneta, e a porta se abriu, revelando um jovem de pele bem pálida. Suas veias, todas elas, eram bem evidentes, e a vermelhidão tomava conta dos olhos.

    Ele tentava tirar o braço da porta.

    — Urgh, urgh!

    Desesperado, como se fosse morrer.

    — Sai da frente!

    O cientista foi empurrado para trás. O tambor de gasolina foi tomado de suas mãos, inclusive o isqueiro.

    — Corre!

    — O que você vai fazer…?

    — CORRE!

    Renato obedeceu, e fugiu para o outro lado da rua. Sozinho, Nathan apertou a mão em torno da alça do recipiente.

    “Eu odeio isso.” 

    Ele se aproximou do zumbi, que outrora foi um adolescente que nem ele.

    — Que Deus me perdoe.

    E derramou gasolina nele.

    — Me perdoe…

    — GAAAAAAAAAH! — berrou o morto-vivo.

    Abrindo o isqueiro, deu uma olhada na chama. Murmurou a primeira oração que lhe veio à mente, e atirou o objeto.

    O fogo explodiu.

    Ele correu desembalando e, quando olhou para trás, viu que as chamas tomaram conta da casa. A brasa subiu, transformando a residência numa grande fogueira.

    Renato, de cabeça baixa, apertava os punhos.

    — Então é isso… — murmurou ele.

    — A consequência das suas ações? Acho que sim.

    — Isso não é nada confortante.

    — Heh, não é pra ser.

    E se encararam.

    — Já falou com os outros?

    — Já. 

    — Então o São João começou mais cedo, em Itacoatiara.

    — É o que parece — disse Renato, sem humor.

    Tuc!

    — Mas que porra…?

    — Pra você se lembrar.

    Era o isqueiro.

    — Espero que você reflita sobre isso — falou o garoto, se dirigindo ao corredor.

    — Pode deixar.

    Sem “tchau”, nem “até logo”, os dois se despediram. 

    — — —

    No dia seguinte, Nathan acordou com o olho direito ardendo. O quarto fedia à fumaça, e o vozerio dos vizinhos do fundo vazava pelas paredes.

    “Isso vai render assunto até 2030.” 

    Quando foi para a cozinha, o pai assistia a uma live no Facebook.

    — Teve um incêndio ali atrás — falou o homem, bebericando o café.

    — Tão falando que foi a rede elétrica. A Marta disse que o gato que eles fizeram também tá com defeito — disse a mãe, servindo os ovos fritos na mesa.

    — Espero que isso não ferre com a gente.

    — Verifica, depois ?

    A conversa mudou de rumo, e logo Nathan se sentou para comer. Lembrou-se do cientista, do isqueiro e do tambor de gasolina.

    O pai não tinha dado falta, então estava tranquilo. Como um laboratório grande estava envolvido, ele realmente não tinha com o que se preocupar.

    Nada de ruim ia acontecer.

    “E isso é muito ruim.”

    Mas não havia nada que ele pudesse fazer. Ninguém ia saber do que aconteceu. Ninguém ia culpá-lo por atear fogo em uma família que poderia estar viva.

    Ninguém nem saberia sobre o simia-rex.

    “Eu odeio isso.”

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