Capítulo 51: Bombo Rin 1-I.
Ele dormia tranquilamente.
Com a Crise dos Portais Aleatórios, a vida ficou mais e mais difícil. Essa tal de Neda era um mundo estranho: ali, as pessoas tinham poderes. Não quaisquer poderes, mas o que ele mais gostava…
Magia!
Claro, foi terrível ver tudo ficar escuro de repente, como se algo tivesse tapado o Sol. Seus pais ficaram assustados, e sua irmã chorava de medo. Ele mesmo pensou que era o apocalípse. No entanto, tudo clareou tão rápido quanto escureceu.
E, quando deram por si, os corpos estavam repletos de energia, como se tivessem dormido bem. O pai disse que ia ver o que estava acontecendo…
Normal, até. O que não foi normal foi…
ZOOM!
Ele desapareceu. Ao invés de correr normalmente, seu pai disparou como um raio, deixando um rastro de vapor. Ele parou de chofre, diante da porta, com os olhos arregalados.
— Querida, tinha alguma coisa no meu café?
— Querido, eu…
Ela estava no ar.
— So-socorro…
Sim, sua mãe estava flutuando. O garoto piscou diversas vezes. Estava alucinando? Não, aquilo era real demais para ser loucura. Quando pensou que tinha visto o suficiente, viu sua irmã…
Levitando objetos ao redor dela.
O controle remoto dançava atrás de uma caneta, que ia na cola de uma bolsa, girando em torno dela, como se ela fosse Saturno.
— Mano, eu…
— Vocês ganharam… poderes? — murmurou ele, estupefato. — Isso significa que…
Os olhares se voltaram para ele. Se o pai agora era veloz como um raio, a mãe voava e a irmã era um x-men… seria justo, certo?
— Mas eu…
Nada. Ele não sentia nada de diferente. Nenhuma chama saiu de seu dedo, quando o pôs em riste. Os metais da sala não voaram até ele, quando ergueu a mão, nem conseguiu ler a mente de ninguém, quando levou dois dedos à testa.
— Shazam! — gritou, com as mãos para o alto. Nada. — É hora de morfar!
— Filho…
— Duelo!
— Mano…
— Ah, sei lá, vai teia! — Nada. Não aconteceu nada. Ele fez poses bobas o suficiente para sua irmã rir. — Ah, cara, na moral…
— Veja pelo lado bom… — começou a mãe, descendo. — Você continua normal, e ter poderes não parece muito bom. Eu nem sei o que vou fazer com essa… habilidade? Acho que podemos chamar disso.
— Mãe, a senhora…
Ele se interrompeu. Realmente. Qual era a vantagem de voar? Não sabia quais eram as condições de uso. Quanta energia custava? Sem barras de status, é difícil verificar as propriedades que o poder tinha.
Além disso, a julgar pela forma como tudo havia escurecido fora de casa, sendo o nerd que ele era, pensar no ocorrido não era tão difícil.
— E pensar que isso existe…
— O quê? — perguntaram os três;
— Isekai.
Eles inclinaram a cabeça.
— É, isekai… mundo alternativo. Estamos em outro mundo.
Ele andou até a janela. O céu ainda era azul, as nuvens também eram branquinhas. Tudo nos conformes. Talvez fosse um mundo muito parecido com a Terra. Deixando os pais nervosos, ele andou até a entrada, abriu a porta e viu algo que não esqueceria jamais.
— Duas… são duas…
O pai veio logo em seguida, e também ficou de queixo caído.
— Luas…
No céu, no canto oposto ao que deveria ser o Sol, havia duas luas. Uma azul e outra vermelha. Além disso, ao invés da rua, da casa da dona Nilda, do jambeiro da vizinha do lado…
— Que merda é essa?!
Havia um penhasco.
A casa inteira havia sido teletransportada para a beira de um penhasco. Quer dizer, a beirada ficava a uns dez ou vinte passos da varanda, então não era tão mortal assim. De qualquer forma, o perigo existia.
— Pai.
— T-Tô ouvindo — respondeu o homem, coçando o cavanhaque. Não conseguia tirar os olhos da floresta lá embaixo.
— O senhor lembra dos jogos… do Hazard?
— Lembro…? A gente zerou quando você tinha onze anos.
— Pois é. Lembra da penúltima fase?
A temida Sala de Juna.
— A mais difícil que tinha.
— Não dava nem de salvar o progresso — falou o pai, desviando o olhar para o filho. — Descobrimos isso morrendo no primeiro golpe da Juna.
— Antes disso. O senhor lembra do que tinha antes da gente entrar na sala?
O pai arranhou a bochecha. Onde ele queria chegar com isso?
— Os itens…
— Ah, sim. Tinha bolsas de HP, munição de escopeta, pistola e até um refil de antídoto. A gente achou estranho pra ca…
Ele abriu bem os olhos. Entendeu.
— Os poderes… você acha que é isso?
— Provavelmente.
— Mas isso é… loucura? Bem, a gente tá num mundo de fantasia… — E apontou para o céu, onde algo que claramente não era uma ave desenhava um círculo no ar. — Assumindo que os recebemos porque vamos precisar, dá pra dizer que não dá pra viver sem eles, né?
— Isso se a gente supor que todas as pessoas têm poderes…
— Você não tem… — lembrou ele. — Tá. A gente precisa do meu poder. Vou dar uma volta por aí, quem sabe acho a capital do reino ou algo assim. Precisamos descobrir se fomos invocados por alguém.
— Beleza.
Eles se encararam.
— O senhor tá se fazendo, né?
— Quem te mostrou Zero no Tsukaima?
— O senhor.
— Quem te mostrou Inuyasha?
— O senhor, pai…
O homem sorriu, bagunçando os cabelos do garoto.
— Só… toma cuidado, eu acho.
— Não vão me pegar.
E, com uma rajada de vento, sumiu de vista.
“Meu pai é maluco…”
Mas era confiável.
Ficou com medo de sair de casa. Não possuindo poderes, seria perigoso topar com um dragão. Até um slime seria mortal, perto dele. Resolveu entrar. Ao passar pela sala, viu a mãe e a irmã brincando com suas habilidades. Estavam se divertindo.
Se conseguiam sorrir, ficariam bem. Subiu para o quarto.
“Quem precisa de proteção sou eu, hein?”
Quando entrou, se jogou na cama. Encarou o teto. Havia madrugado maratonando Mushoku Tensei. Sua capacidade de raciocínio estava claramente prejudicada pelo sono, então ia demorar para assimilar a nova realidade que se formou.
“Isekai, é?”
E riu.
“Quando eu acordar, provavelmente vou levar bronca por ter amanhecido.”
Ele claramente achava que era um sonho.

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