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    24 de maio de 2024, sexta-feira.

    Aki não respondeu de imediato, desviando o olhar para o chão. Victor, percebendo a hesitação dela, apoiou o queixo dela com seu indicador, forçando-o levemente para cima e ela aceitando o movimento. 

    — O que aconteceu? — perguntou, a voz saindo nitidamente preocupada. 

    — Victor… — Seus olhos já estavam marejados, quando toda sua resiliência anterior desmoronou ao encontrar os olhos escuros do brasileiro. — Eu tentei ignorar aquela sirigaita da Jeanne, mas ela claramente está fazendo tudo isso para me provocar. Eu quero dar um soco nela! — disse, tão rápido que mal pôde ser compreendida pelo namorado. 

    Seus lábios estavam levemente franzidos e umas duas ou três lágrimas desceram de seus olhos. Suas bochechas estavam ruborizadas e apertava o próprio punho enquanto falava. 

    — Eu confio em você. E eu sei que você não faria nada. Mas ela está com esse joguinho ridículo! De onde você conhece essa… — Ela se calou antes de terminar a frase. 

    Victor suspirou de alívio, vendo que não era nada grave. Ele também percebeu todas as artimanhas da garota madrilenha. Por um instante, pensou em algumas outras possibilidades. 

    — Aki… — Ele acariciou o rosto dela com as costas da mão. — Não precisa se preocupar. Ela nitidamente está fazendo isso para nos provocar. Quanto ao nosso histórico… digamos que velhos conhecidos. A Pacca Consortium e a World Trails têm um contrato de parceria, embora hoje em dia não seja como antigamente. 

    Ele fez uma pausa, observando ao redor. Não havia ninguém muito próximo, então continuou: 

    — Quando nos conhecemos, há alguns anos, ela queria ficar comigo. Mesmo eu já namorando a Fernanda, ela continuava insistindo. Semana após semana enviava mensagens ambíguas e indiretas. Quando nos encontrávamos nas dependências da Pacca Consortium, ou em outras reuniões com várias empresas, ela tentava várias artimanhas para ficar a sós comigo. Até que, por fim, ela desistiu em determinado momento. Eu mantive o contato e o respeito apenas por ela ser, aparentemente, representante de uma empresa parceira. E pior que eu nem sabia que ela era a filha dos Morales. Ela me enganou esses anos todos. Foi um período bem irritante, na verdade. 

    Quando terminou de explicar, Aki estava com os olhos levemente avermelhados, quando sentiu o corpo de Victor contra o seu. Ele a abraçou, carinhosamente, depositando um beijo em sua testa. 

    — Vai ficar tudo bem.

    — Me desculpa… eu… eu nunca lidei com esse tipo de sentimento antes. Estou sendo uma boba, né? — Ela passou as costas da mão limpando mais uma lágrima que desceu. 

    — Apenas confie em mim. Eu não vou deixar a Jeanne, ou qualquer outra pessoa atrapalhar nosso relacionamento. Quero passar minha vida ao seu lado, Aki. Eu vou te proteger, te amar e te fazer feliz. Você acredita em mim?

    — Uhum… — Ela murmurou, concordando com a cabeça. — Só que aquela sirigaita realmente me irritou. Mas eu acredito em você, Victor. Eu também quero ficar ao seu lado! 

    Victor olhou novamente ao redor e ninguém estava prestando atenção naquele canto, então, como se selassem um juramento, ele depositou um beijo nos lábios de Aki. Rápido, como um carimbo, mas recheado de ternura e significado para eles naquele momento. 

    — Vamos continuar nosso trabalho, ok? Somos dois representantes da Elegance Affairs nesse momento. E, por mais que eu odeie a ideia de manter a paz com a Jeanne, ela é uma peca importante para nossos objetivos. Eu acabei de conhecer o senhor Ronald McTrumph e isso pode trazer uma grande parceria para a Elegance Affairs. Não posso discordar de que ela foi de grande ajuda. Então, vamos manter isso em mente, certo?

    O logo da World Trails reluzia no telão central, acompanhado de imagens de paisagens paradisíacas que se alternavam lentamente — praias cristalinas, florestas exuberantes e cidades históricas.

    No centro do palco, Jeanne Morales caminhava com graça e confiança, o microfone delicadamente preso à lateral do rosto. Sua postura impecável transmitia a experiência de quem sabia que todos os olhares estavam sobre ela; de alguém acostumada com holofotes e lidar com o público.

    — Viajar não é apenas deslocar-se de um ponto a outro… — começou, com a voz firme e doce ao mesmo tempo. — É tocar algo dentro de si que muda para sempre. É sobre colecionar momentos, não milhas. 

    O público acompanhava em silêncio, capturado pelo tom quase poético de sua fala, com apenas um outro murmúrio sendo ouvido. Jeanne deu alguns passos à frente, gesticulando com elegância. Seu olhar varreu a plateia, avaliando discretamente cada expressão.

    — Na World Trails, acreditamos que cada viagem é uma história única. Uma experiência que jamais se repete da mesma forma.

    Ela fez uma breve pausa, aproximando o polegar e o indicador em um gesto de ênfase, como se segurasse algo delicado no ar.

    — Por isso, cada viagem contratada deve ser respeitada como o sonho que ela representa. Porque para cada cliente… aquele roteiro não é apenas uma rota — é uma lembrança sendo escrita.

    Alguns aplausos se ergueram espontaneamente. Jeanne sorriu, satisfeita, mas sem perder o controle da cena.

    — E é com esse espírito que buscamos novas parcerias — como a que estamos discutindo com a Ecotour. Juntas, queremos mostrar ao mundo que é possível viajar com propósito, respeitando o planeta e a singularidade de cada pessoa que confia em nós para viver algo inesquecível.

    Aplausos mais fortes preencheram o ambiente. Jeanne respirou fundo, inclinando levemente a cabeça em um gesto grato, mas seus olhos denunciavam algo mais — uma chama de ambição que não se apagava facilmente.

    — Este é um gráfico de nossas expectativas para os próximos anos com essa parceria. 

    Gráficos com vários dados foram exibidos no telão, mostrando o preparo e a ambição da World Trails e Jeanne. Com as informações sendo mostradas, o público pôde ter uma noção do empenho e das projeções. 

    Victor ajeitou o corpo na cadeira, como se tivesse visto algo incrível — e foi. Um discurso inspirador, ambicioso e cheio de carisma. Não eram apenas palavras bem escolhidas; era uma apresentação impactante. 

    Uma postura retórica impressionante. Isso era inegável. Jeanne continuou, com uma presença de palco atrativa até que finalizou o discurso. Palmas explodiram em meio aos convidados. 

    Até mesmo Aki, outrora desconfiada e enciumada, não pôde deixar de elogiar a apresentação. Ela respirou fundo, quando pensamentos que preferia manter guardados vieram à tona. Ela negou com a cabeça, tentando afastá-los. 

    “Eu prometi ao Victor!” Repetiu mentalmente. 

    Quando essa parte cessou, um burburinho começou, com várias pessoas fazendo anotações e opinando entre si acerca da postura dela e dos planos apresentados sobre a World Trails. 

    Victor e Aki não puderam evitar comentários sobre, quando deixaram comentários sobre o ocorrido. A japonesa elogiou Jeanne e o brasileiro concordou, quando disse:

    — A gente gostando ou não, ela é incrível em lidar com o público. Isso pode ser benéfico para nós. Precisamos ter um pouco mais de paciência com ela, mesmo que ela seja uma sirigaita. — Ele riu de usar o mesmo adjetivo que Aki usou. 

    — O lema deles é parecido com o nosso, não é? Cada experiência de cada cliente é única, memorável e inesquecível. Devemos fazer tudo que estiver ao nosso alcance para que aconteça conforme o planejado.

    Aki complementou, tentando ignorar o comentário de Victor, que fez suas bochechas corarem ligeiramente.

    O evento da Ecotour estava em um de seus intervalos mais longos. Desde as palavras de Jeanne, já haviam se passado alguns bons minutos e nada aconteceu. Victor chegou a ponderar se havia algum problema técnico. 

    Algumas pessoas conversavam próximas às mesas de café, enquanto outras aproveitavam para tirar fotos nos jardins do local, que tinha uma incrível luminosidade artificial. 

    Aki estava prestes a comentar algo com Victor quando o celular dela começou a vibrar dentro da bolsa. Ela o pegou e se surpreendeu com o nome e a foto na tela.

    — Mamãe? — murmurou, franzindo o cenho. — Que estranho ela me ligar agora…

    — Pode atender. Deve ser importante. — Victor comentou. 

    Aki assentiu e deslizou o dedo na tela.

    — Alô , mamãe?

    A voz de Hana soou apressada, um tanto tensa, do outro lado da linha. 

    — Aki, minha querida! Eu preciso pedir um favor enorme! — ouviu-se um ruído de fundo, talvez o barulho de uma porta sendo fechada com pressa. — Eu e seu pai precisamos sair agora, aconteceu um imprevisto, e não dá pra levar a Haru com a gente!

    Aki piscou, confusa.

    — A Haru? O que aconteceu? É algo grave? — perguntou, preocupada. 

    — Nada de grave! — respondeu Hana, rapidamente. — Só aconteceu um pequeno imprevisto na fábrica da Yamada Breweries Co. e vamos ter que ir lá. Não queremos levar ela para esse problema e a senhora Kazu não pode ficar com ela agora. Você poderia nos ajudar?

    Aki lançou um olhar em direção a Victor, visivelmente dividida.

    — Agora? Mas… eu ainda estou no evento com o Victor.

    — Eu sei, eu sei, desculpa… — Do outro lado, Hana suspirou. — Mas vai ser só por algumas horas, até voltarmos. Ela está tranquila, já até jantou, só precisa de um pouco de companhia.

    Victor, percebendo o tom da conversa, apoiou o cotovelo na mesa.

    — Pode colocar no viva-voz — pediu ele, em tom calmo.

    Aki assentiu, e a voz de Hana ecoou entre eles.

    — Victor, desculpe incomodar vocês no meio do evento. Sei que estão ocupados, mas confio muito na Aki e… — deu uma risadinha nervosa — na sua paciência também.

    — Não se preocupe, senhora Hana. Assim que o evento terminar, podemos ficar com a Haru. — Victor respondeu com serenidade. — Vocês precisam sair em quanto tempo?

    — Dentro de uma hora… 

    — Certo. Acho que dá tempo. 

    Aki olhou para ele, surpresa com a prontidão da resposta. Ela tapou o microfone do telefone. 

    — Tem certeza?

    — Claro. — Victor sorriu de leve. — Além do mais, vai ser bom passar um tempo com minha irmãzinha. — Ele ergueu o próprio punho, deixando a fita à mostra. 

    Do outro lado, Hana suspirou, aliviada.

    — Obrigada! Prometo compensar vocês depois! 

    — Tudo bem, mãe. Cuidaremos dela. Mas e o Fuyu?

    Hana riu. 

    — Ele precisa ir com a gente. É que, de última hora, alguns representantes da Yamada Breweries não puderam ir num importante evento que terá… e precisa ser exatamente três pessoas. — A mãe explicou. 

    Aki suspirou. — Entendi. Não tem problema. Era só curiosidade. Até daqui a pouco. — Aki encerrou a chamada e deixou o celular sobre a mesa, soltando um longo suspiro. 

    — Então… já pensou no que faremos? — Victor indagou em um tom despretensioso. 

    — Se meus pais demorarem demais… nós vamos dormir na casa deles? — Aki perguntou, quase abruptamente. Victor arqueou a sobrancelha, surpreso.

    — Dependendo do horário, não tem problema. Eu só não queria abusar. Mas se for esse o caso, acho que está dentro da naturalidade. — Ele riu. 

    Continuaram conversando um pouco mais, quando finalmente o dirigente da reunião subiu ao palco e chamou a atenção de todos. Nesse momento, Victor recebeu uma mensagem em seu celular. Ao olhar a notificação, viu um nome que não preferia ver naquele momento. “Jeanne Morales”. 

    Ao abri-la, seus olhos se arregalaram.

    [Olha que bonitinho!]

    A imagem que acompanhava a mensagem anterior fez o coração de Victor bater ainda mais forte e ele cerrou seus punhos. 

    “Essa Jeanne!” Exclamou em pensamentos, sentindo a raiva subir em seu peito.

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