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    24 de maio de 2024, sexta-feira.

    — Então você se esqueceu de mim? — perguntou a mulher, se aproximando com um sorriso aconchegante e provocador. 

    — Desculpe… Você é…? — Perguntou. 

    “Esse rosto não me é estranho…”

    — Ora, assim você me chateia. Eu sou a Jeanne. Jeanne Morales. 

    Ao ouvir o nome, Victor se assustou ligeiramente. 

    — Morales? Da família Morales? Bom, eu realmente me lembro que eles têm uma filha, apesar de não estar me recordando de quando nos encontramos antes… 

    — Ah, isso… eu acho que eu sei o que é. — Jeanne respondeu, apoiando o indicador sobre os lábios, como se pensasse. — Victória Salles. Agora você lembra?

    De repente, uma enxurrada de lembranças bombardearam a mente de Victor. Como um passe de mágica, foi como se todas as peças de um quebra-cabeça tivessem sido, magicamente, encaixadas no lugar. 

    [Alguns anos atrás. Belo Horizonte, Brasil, sede da Pacca Consortium.]

    Victor caminhava por entre as mesas naquele enorme espaço, que era o refeitório da empresa. Além de ser usado pelos funcionários, tinha acesso ao público geral. O chão branco refletia sutilmente alguns halos das luzes que vinham do teto e o ambiente tinha um aroma muito gostoso. 

    Foi quando ele viu uma mulher, relativamente mais alta que a média, de cabelos loiros e pele clara. Trajava uma camisa azul escura e uma saia. Ela estava, aparentemente, discutindo com uma funcionária da lanchonete, que não estava entendendo seu pedido. Então, ele interviu. 

    — Olá, boa tarde! — Ele cumprimentou. 

    — Senhor Victor! Essa senhorita não está entendendo o que estamos falando e está ficando brava. — A atendente tentou explicar. Ele apenas ergueu a mão, indicando que já tinha entendido. 

    — Você fala inglês? — Perguntou, num tom acolhedor. 

    A mulher sorriu. 

    — Sim, eu falo inglês. Eu estou há alguns minutos tentando fazer um simples pedido e não estou conseguindo…

    — Tudo bem, peço desculpas pelo inconveniente. Eu sou Victor Pacca. E você é…?

    — Victória Salles. Pode me chamar apenas de Vic. Então você é da família Pacca! Incrível! 

    — Fico lisonjeado pelo reconhecimento. O que você queria pedir? — Victor logo voltou ao tópico central. 

    Afinal, ele precisava estar presente numa reunião dentro de trinta minutos e ainda precisava almoçar. 

    Após ele intermediar, finalmente conseguiram realizar os pedidos. Victória acabou se auto-convidando para almoçar perto dele e ele aceitou, já que estava sozinho na ocasião. 

    O almoço foi ligeiramente rápido e trocaram poucas palavras… 

    Victor participou da reunião, que tinha como alguns dos participantes o senhor e a senhora Morales, da World Trails, bem como seu irmão Matheus, e seus pais, Santana e Aparecida. Também participaram alguns investidores de outras áreas. 

    Ao término, ele saiu na rua para caminhar um pouco, na tentativa de aliviar o estresse pós-reunião. Em volta do edifício, ele acabou se encontrando novamente com Victória.

    Ela o cumprimentou animada e ele retribuiu gentilmente. Quando questionada sobre o que fazia por ali, o assunto foi desviado. Victor, apesar da leve desconfiança, acabou ignorando e apenas seguiu a caminhada, com ela ao seu lado. 

    Foi quando Victor  foi surpreendido pela pergunta repentina da Victória: “Você quer ficar comigo? Eu te achei bem interessante e atraente…”

    Ele sentiu um frio na espinha ao ouvir essas palavras, quando o rosto de Fernanda, imediatamente, passou pela sua cabeça. 

    — Desculpe, mas tenho namorada. — respondeu, ainda tentando manter a paciência. — Acho melhor eu voltar, daqui a pouco tenho uma reunião. 

    E Victória Salles ficou ali, sentindo uma mistura de sentimentos ruins. “Eu nunca fui rejeitada antes! Como assim? Essa namorada dele é mais linda do que eu?” 

    Seus pensamentos pareceram explodir em descontentamento. “Ah, mas eu gostei de você… você vai ficar comigo, nem que leve alguns anos…”

    [De volta ao presente, Nagano, Japão, local do evento Ecotour.]

    — Espera… Agora que você falou, seu rosto realmente me é familiar. Victória Salles… então, você mentiu para mim sobre seu nome. Por quê?

    — Papai e mamãe sempre pediram isso, para esconder minha identidade em território que não conheço. Sabe, as pessoas são muito interesseiras e saber da minha identidade poderia ser perigoso, especialmente em um país desconhecido, longe de casa. — respondeu, com um ar de superioridade. 

    Victor fechou os olhos e apertou a ponte do nariz entre o dedão e o indicador, soltando o ar em um suspiro impaciente.

    — Tudo bem, passado é passado. É uma honra reencontrar velhos conhecidos de negócios. — Expressou, com um tom difícil de explicar e estendendo a mão para um aperto profissional. 

    — Eu sabia, você é realmente uma graça. — Jeanne respondeu, apertando a mão e se aproximando subitamente para um beijo no rosto. Victor torceu o nariz com a atitude.

    — Vamos evitar contato físico, ok? Deixando isso de lado, como estão os negócios com a World Trails? 

    — Estamos indo super bem! Já somos uma das maiores empresas do setor turístico da Espanha. E agora, buscamos novos recursos para nos elevarmos. E esse projeto da Ecotour parece uma ótima oportunidade! — Jeanne respondeu de forma empolgada e gesticulando. 

    — É um projeto interessante. — completou, sentando-se novamente na mesa. — Vamos, sente-se. Vamos conversar.

    — Bom, foi muito difícil conseguir te encontrar aqui. Você se escondeu bem nesses últimos anos. — Jeanne falou, como se fosse algo muito casual. Ela puxou de sua bolsa alguns papéis. — Aqui está um projeto muito interessante da World Trails e gostaria de saber se a Elegance Affairs teria interesse numa cooperação…

    Victor arqueou a sobrancelha e em seguida recolheu os papéis, fazendo uma leitura superficial da primeira página. 

    — Preciso analisar com calma. Quando posso te dar a resposta?

    — No seu tempo, Victor. — O tom da garota foi um pouco meloso demais e o brasileiro sentiu um nó na garganta. 

    “Essa mulher… será possível que ainda está com aquela ideia maluca?” 

    Ponderou em pensamentos. 

    — Tudo bem, se me dá licença… 

    — Não, eu já estou indo. Preciso resolver outros problemas. Acho que ainda vamos voltar a nos falar ainda hoje. — Um sorriso que Victor julgou cínico surgiu no rosto dela e Jeanne se afastou. 

    Victor suspirou. “Essa garota é estranha… então aquela Victória Salles era a Jeanne… como eu não percebi isso nesses anos?! Que baita mancada!” 

    Pensava, enquanto seus olhos começaram a percorrer todos os cantos da festa à procura de Aki. 

    Seus olhares se cruzaram. Ela estava conversando com um grupo de pessoas. Victor se levantou e foi até lá. Após ser apresentado por Aki para os convidados, escondendo o fato de serem um casal, Victor foi elogiado pelos recentes trabalhos com a Elegance Affairs. 

    Victor fica grato pelas palavras e após um breve diálogo, eles se afastam e os dois voltam para a mesa. O rapaz percebe o olhar de Aki, que havia algo diferente e quando estava prestes a perguntar o motivo, foram interrompidos: 

    — Olá! Então você é a Aki! — Uma voz doce exclamou. — Estava ansiosa para conhecer a mulher que roubou o coração do Victor. — Essas palavras foram seguidas por uma risada discreta, como se fossem velhos amigos conversando. 

    Victor ficou surpreso e sem reação pelas palavras de Jeanne. Queria se levantar e colocar ela em seu lugar, mas precisava manter as aparências. Seu coração já batia mais forte e seu olhar estreitou. 

    — Aki, essa é a Jeanne Morales, uma das responsáveis pela World Trails, uma empresa espanhola de turismo. E Jeanne, essa é a Aki. Trabalhamos juntos no setor de supervisão de eventos da Elegance Affairs. 

    O brasileiro havia engolido todos os sentimentos negativos e tentava fazer uma apresentação formal e profissional. 

    — É um prazer. — Aki falou, gentilmente, mas seu olhar denunciava algo a mais.

    — Hum… é um prazer, Aki. Mas são somente colegas de trabalho? — O tom provocativo fez Victor apertar os punhos. 

    — Aqui não é um lugar para falarmos abertamente de nossas vidas privadas. Estamos como representantes da Elegance Affairs, apenas. 

    — Não seja tão formal. Somos velhos amigos, né? 

    “Amigos? Essa palavra é meio forte…” 

    Victor pensou em responder, mas deixou passar. 

    — Mas, falando de negócios, eu ainda não consegui terminar de ler os documentos que você me deu…

    Quando estava prestes a terminar, foi interrompido. 

    — Não é isso. Eu posso esperar pela sua resposta. O que eu vim fazer aqui, na verdade, é te apresentar uma pessoa.

    — Que pessoa? — Ele indagou. 

    — Venha, vou lhe apresentar. 

    Enquanto isso, Aki estava com um olhar desconfiado, como uma raposa vigiando sua presa. 

    “Essa sirigaita…” Aki pensou, furiosa, porém, não podendo demonstrar sentimentos pessoais para manter as aparências. 

    Nesse momento, Aki foi convidada pelo mesmo grupo de antes. Depois de acertarem alguns pequenos e breves detalhes, Victor seguiu Jeanne, enquanto Aki foi até o pessoal que havia lhe chamado. 

    — Este é o senhor Ronald McThumph. Senhor Ronald, esse é o Victor Pacca. — Jeanne os apresentou. 

    — É um prazer conhecê-lo! — Victor expressou, apertando a mão do homem de meia idade. 

    — É um prazer conhecê-lo também, Victor. Vi que, recentemente, a Elegance Affairs tem demonstrado grande desempenho no setor de eventos. E, por coincidência, a Jeanne me disse que você estava aqui e que nos apresentaria. 

    Victor sentiu um frio na espinha. O senhor Ronald era um empresário extremamente bem sucedido no ramo de hotelaria, tendo hotéis super luxuosos em várias cidades pelo mundo. Ouvi-lo dizendo aquelas palavras era uma sensação diferente. 

    — Fico lisonjeado, mas apenas fazemos nosso trabalho com dedicação. — Ele tentou manter a modéstia. 

    — E grande parte dessas conquistas é graças ao empenho do Victor. Tenho certeza que ele é uma ótima pessoa também! — Jeanne falou de forma doce, enquanto abraçou o braço de Victor. Ele tentou recuar discretamente, mas ela segurou firme. 

    Uma sensação de raiva subiu pelas veias dele, que quase se deixou levar pela emoção e xingou aquela mulher. Contudo, querendo ou não, com ele gostando ou não, ela havia acabado de abrir uma grande porta para ele e para a Elegance Affairs. Victor respirou fundo, quando manteve um sorriso no rosto ao responder. 

    — Agradeço, senhorita Morales. Mas o mérito é de toda equipe. Eu apenas faço parte da supervisão. — declarou, casualmente. 

    A conversa durou alguns minutos, até que Ronald expressou a vontade de uma parceria. Eles trocaram contato e o brasileiro voltou para se encontrar com Aki. Porém, para sua surpresa, Jeanne o acompanhou e tentou segurar o seu braço novamente, mas dessa vez, ele desviou. 

    — Ei, para com isso. Não confunda as coisas, Jeanne. — Victor advertiu. — Eu relevei quando estávamos com o senhor Ronald, mas por favor, não faça isso novamente. Eu já te disse, eu tenho uma namorada. Daquela vez eu tinha e agora eu tenho também! 

    Foi quando percebeu que Aki estava no palco, dando uma palavra. Ele estava tão focado na interação com o senhor Ronald que não percebeu que ela havia sido convidada. 

    Aki disse algumas palavras, mas travou quando seu olhar cruzou com o de Jeanne que tentava segurar o braço de Victor. Uma sensação inquietante subiu pelo seu peito. Pensou em, pelo menos, uma dúzia de ofensas para dirigir aquela mulher. 

    “Você não é assim, Aki! Se recomponha!” Uma parte de sua racionalidade ainda estava funcionando. 

    Suspirando pesadamente, ela continuou o discurso e finalizou antes do que tinha planejado inicialmente. As pessoas aplaudiram enquanto ela descia. 

    A sensação de tantos olhares sobre ela fazia seu coração bater forte e suor se formar em suas costas. Aki não gostava de ser o centro das atenções. 

    — Calma, Victor. É apenas minha forma de se comunicar. — Jeanne se defendeu. — Aliás, você me deve uma agora, né? — Suas palavras saíram com um tom de brincadeira. 

    — Sim, eu sei. Eu realmente te devo uma, mas não abusa. O que você quer? 

    Após uma risada: — Não quero nada demais. Por enquanto, vamos apenas trocar contatos, ok?

    Victor assentiu. 

    Jeanne havia saído de perto dele e ido para outros cantos do evento, quando Victor se encontrou com Aki. Ele percebeu, imediatamente, que algo não estava certo. Então, segurou sua mão e caminharam até uma parte mais isolada do evento, onde poucos, ou talvez nenhum olhar, prestava atenção. 

    — Aki, o que aconteceu? 

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