Capítulo 128: Uma foto
24 de maio de 2024, sexta-feira.
O sorriso de Victor desapareceu no instante em que a tela do celular iluminou seu rosto. Aki, que ainda comentava algo sobre a reunião e o que fariam quando fossem para a casa de seus pais, percebeu a mudança imediata em seu semblante.
— O que foi? — ela perguntou, arqueando as sobrancelhas. — Você ficou sério de repente. Aconteceu alguma coisa?
Victor hesitou por um segundo antes de soltar o ar lentamente. O som do evento parecia distante agora, abafado pelo zumbido incômodo que se formava em sua cabeça, como se ouvisse seus próprios pensamentos.
— Não sei o que ela está planejando… — murmurou, deslizando o dedo pela tela. — Mas olha isso.
Ele virou o celular na direção dela.
Aki aproximou o rosto e, assim que viu a imagem, seu corpo enrijeceu: era uma foto deles dois, de minutos atrás — o instante em que ele lhe deu um selinho nos lábios, metaforicamente, selando a promessa de amor.
— Mas… como ela conseguiu essa foto?! — Aki exclamou, os olhos arregalados e com as bochechas nitidamente ruborizadas. — Isso foi agora há pouco! Ela estava observando a gente?!
A raiva subiu como uma chama rápida em seu peito, assim como Victor. Ela, porém, se levantou de repente, pronta para marchar até o outro lado do salão.
— Eu vou conversar com ela agora mesmo!
Mas antes que pudesse dar um passo, Victor segurou delicadamente seu pulso. O toque não foi firme, apenas o suficiente para ela sentir sua mão e recuar.
— Aki, não. — Ele a olhou nos olhos. — Deixa que eu resolvo isso. Tem um jeito certo para lidar com esse tipo de pessoa. Lembre-se que não podemos também fazer inimizade com ela ou podemos atrapalhar a Elegance Affairs. Você presenciou há pouco como ela é persuasiva e ela tem muitos contatos. Isso pode atrapalhar nossos planos empresariais.
Ela respirou fundo, contrariada, o olhar ainda faiscando de indignação. Victor digitou algo rápido no celular, mantendo o tom neutro.
[O que foi isso, Jeanne?]
Seu coração ainda estava inquieto, carregado de indignação, querendo escrever outras palavras ali. Entretanto, manter a compostura era parte do trabalho.
Antes que pudesse pensar em algo mais, a resposta veio quase instantaneamente, com um emoji sorridente no final.
[Nada demais! Só achei bonitinho vocês dois. Considere um presente meu 😉.]
Victor franziu o cenho, nitidamente desconfiado e desconfortável. Digitou novamente, controlando o impulso de responder de forma mais dura.
[Obrigado pela foto. Vou até usá-la como papel de parede. Haha]
Enviou. Bloqueou a tela. E ficou olhando por alguns segundos o reflexo de si mesmo no vidro preto, como se buscasse entender o motivo por trás daquilo.
Aki o observava em silêncio agora, a raiva se transformando em uma preocupação discreta.
— Ela não vai parar, vai? — sussurrou.
Victor respirou fundo, encostando-se na cadeira.
— Não sei… — respondeu, pensativo. — Mas uma coisa é certa: eu não vou permitir que ela use isso pra nos atingir. Ela já fez algo parecido no passado e não vai ser dessa vez que ela vai conseguir o que ela quer.
Aki assentiu, mais calma.
Victor, no entanto, ainda sentia uma pontada de desconfiança — não era apenas a provocação de Jeanne. Havia algo por trás daquela foto, algo que ele não conseguia nomear, mas que o fazia manter os olhos atentos ao redor.
O evento seguia, o burburinho de vozes retomava força, mas o clima entre eles ainda pairava denso, suspenso entre uma tensão discreta e uma sensação incômoda de que aquela “foto inocente” seria apenas o começo. Nesse meio tempo, ele até percorreu os olhos à procura da espanhola, mas em vão.
Devido à tensão, o casal mal percebeu que já haviam se passado vários minutos desde o início do discurso do palestrante. Quando finalmente focaram a atenção, ele falava sobre a “Eternit”, uma empresa em crescimento exponencial no ramo de casamentos de médio porte e um dos destaques daquela noite.
O telão exibia imagens de cerimônias ao ar livre, recepções minimalistas e pacotes de viagem para destinos paradisíacos — cada uma mais deslumbrante que a outra. Victor e Aki se entreolharam, ambos já acostumados a analisar cada detalhe com olhar profissional.
A parceria apresentada entre a Eternit e a Ecotour propunha algo inovador: unir o planejamento sustentável de eventos com a experiência de viagens ecológicas. Era um conceito de “linha contínua” — onde o casamento e a lua de mel seriam tratados como uma única jornada. O palestrante enfatizava como a personalização e a responsabilidade ambiental estavam moldando o novo perfil de consumidores no setor.
— Inteligente… — murmurou Victor, apoiando o queixo sobre a mão enquanto observava o gráfico de crescimento projetado. — Eles estão vendendo não só uma festa, mas uma experiência completa. Isso parece promissor!
Aki fazia anotações rápidas. — E com a imagem da Ecotour por trás, eles ganham credibilidade. Se a Elegance Affairs conseguir um ponto de entrada aqui, poderíamos nos posicionar como intermediários para esses casamentos. — Ela mantinha o olhar fixo no palco, a expressão voltando a exibir a confiança habitual, agora que o foco estava novamente no trabalho.
Victor sorriu de leve, satisfeito com a retomada da sincronia entre eles.
— Isso é algo que eu gosto em nós dois — disse baixo, quase num tom cúmplice. — Mesmo quando tudo tenta nos tirar do eixo, a gente volta ao que faz melhor. Nosso trabalho junto é impecável!
Ela virou o rosto por um instante, tentando esconder um pequeno sorriso, antes de voltar a atenção para o palestrante. O homem agora mostrava um vídeo curto com depoimentos de casais reais que haviam contratado o serviço conjunto. A plateia parecia genuinamente interessada, e era fácil perceber o potencial da proposta.
Aki suspirou, recostando-se na cadeira. — Se conseguirmos entrar em contato com o representante deles antes do encerramento, podemos garantir uma reunião. Acho que seria mais fácil.
— Já estou pensando nisso — respondeu Victor, pegando discretamente o cartão corporativo que tinha preparado para tais momentos. — Esse tipo de parceria pode nos abrir muitas portas. Também podemos tentar deixar nosso cartão, né? — Ele sorriu de forma marota para Aki que retribuiu.
…
Depois de mais alguns minutos, finalmente o evento se encerrou. Victor e Aki se entreolharam, trocando um aceno cansado, mas satisfeito.
Apesar de todo o desconforto com Jeanne e de não ter alcançado o propósito de uma reunião já marcada com a Eternit, tinham conseguido bons contatos. E antes de deixarem o local, Victor guardou cuidadosamente o cartão do representante da empresa de casamentos e de alguns outros convidados que demonstraram interesse na Elegance Affairs.
— Pelo menos saímos daqui com algo produtivo — comentou Aki, ajeitando a bolsa no ombro.
Victor concordou, soltando um breve suspiro.
— Sim. E quanto mais longe daquela mulher, melhor.
Sem vontade de socializar nem de se arriscar a encontrar Jeanne ou Mio Oda novamente, os dois optaram por sair discretamente, evitando o último brinde coletivo. Chamaram um táxi, e o veículo chegou em poucos minutos.
O caminho de volta foi silencioso no início — um silêncio tranquilo, onde apenas o som da cidade preenchia os espaços e os ruídos do veículo.
As luzes da rua passavam pelo vidro, refletindo nos olhos de Aki, que se recostava no banco, ainda com o pensamento distante.
— O dia foi longo — murmurou ela. — Mas ainda está só começando, né?
Victor sorriu. — A Haru é uma graça. Não fala assim.
Ela respondeu com um sorriso. O táxi encostou poucos minutos depois na frente da casa dos Yamada. Eles desceram e caminharam até o portão.
Nem precisaram tocar a campainha. Fuyu estava do lado de fora, encostado no muro, com o celular colado no ouvido e um sorriso disfarçado.
— Yumi… eu te disse que—
Ele congelou no meio da frase ao ver a irmã se aproximando com um olhar travesso. Tentou desligar o telefone discretamente, mas Aki já havia entendido tudo e ele acabou se atrapalhando um pouco, quase deixando o celular cair.
— Oh, Yumi, é? — provocou ela, cruzando os braços e arqueando uma sobrancelha com um sorriso malicioso. — Então é por isso que está com esse sorriso bobo no rosto.
— Ei, não é o que você está pensando! — gaguejou Fuyu, desviando o olhar, visivelmente sem saber onde enfiar as mãos.
Victor, observando a cena, não resistiu e entrou na brincadeira.
— Calma, Aki… ele só estava estudando a relação interpessoal. — disse, sério, antes de começar a rir.
Ele passou uma das mãos pelos cabelos de Fuyu, o bagunçando de propósito.
— Vocês só fazem isso quando o Natsu não está perto! Só porque sou mais tímido! — protestou o garoto, tentando disfarçar o riso, enquanto arrumava os fios desgrenhados.
Aki riu alto, quase esquecendo de toda a tensão do dia. Por um instante, aquele pequeno momento familiar trouxe uma leveza que ela nem percebia o quanto precisava. Foi relaxante e quase uma terapia.
Foi então que Shouto apareceu na porta, com o semblante calmo e a jaqueta já vestida. Hana surgiu logo atrás dele, com um sorriso apressado.
— Olá, meus queridos — cumprimentou o pai, simpático como sempre. — Realmente sentimos muito. A Haru está tomando banho. E nós já estamos indo, mas qualquer coisa, podem nos ligar, certo?
— Claro! Podem ficar tranquilos. — respondeu Victor, educadamente.
Hana se aproximou e tocou o ombro da filha, sorrindo com carinho.
— Obrigada, Aki. Sei que foi em cima da hora…
— Não se preocupe, mãe, pai. Vai ser divertido — respondeu ela, serena.
— E eu não ganho nenhuma satisfação? — Fuyu dramatizou e eles riram.
Os três então entraram no carro e se afastaram pela rua. Aki e Victor permaneceram por um momento na calçada, observando as luzes traseiras desaparecerem na curva.
Aki soltou um suspiro leve.
— Lá vamos nós — disse, com um sorriso divertido.
Victor a acompanhou com um olhar terno.
— Espero que ela não tenha descoberto o estoque de doces da cozinha. Imagina ela com o dobro de energia.
Aki riu, empurrando-o de leve antes de abrir a porta.
— A Haru não é assim… — respondeu, mais pela brincadeira do que realmente explicando.
O ar quente e familiar da casa os envolveu, e pela primeira vez naquele dia, o peso parecia um pouco menor.

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