Capítulo 91 — Mal Pressentimento
A conversa com Akane fluiu para vários caminhos. As diferenças deste mundo e da Terra, a briga entre Ryruka e Raishi, a saudade do lar… Akane tentava encorajar o namorado com todos os argumentos que tinha. Não fez a insegurança de Kamito desaparecer, mas trouxe a ele um sorriso genuíno e um ar de gratidão. O momento não durou, entretanto. Camily precisava de Akane para resolver uma pendência, o que forçou a separação do casal. Kamito, dizendo que logo entraria, ficou para trás, a sós com seus pensamentos mais uma vez.
Olhava os belos campos e o horizonte, sentindo-se estranhamente. Por que esse lugar lhe trazia tanta calmaria? Por que sentia como se esse fosse seu lar?
Sem aviso prévio, sem qualquer indício, sua energia estremeceu e tudo ao seu redor quebrou. Não houve tempo de impedir; Kamito estava na Fragmentação. Risos maléficos e uma energia amedrontadora se aproximavam.
— Aproveitando as férias, impostor? Espero que sim, já que elas serão as suas últimas! Você está fraco e impossibilitado, por que veio a esse mundo?
Lá estava aquele ser de olhos azuis escuros, pele branca e aura negra. O sorriso sádico e o olhar maligno e odioso podiam perfurar a alma de Kamito.
— Estou cansado de ver sua vidinha patética! Você não é de nada. Nada! Por que não desiste, Kamito? Eu posso cuidar de tudo, sou muito mais forte do que você. Sou melhor do que você. Deixe isso comigo e desista dessa vida idiota.
— Você é forte? Não me faça rir! Você só é uma sombra no meu caminho, algo que eu pretendo superar. Não importa quanto tempo demore, eu darei um jeito em você, seu maldito! — ele entrou em posição de combate, assim como fez a Sombra.
Todo o local começou a tremer e a se quebrar quando as energias se tocaram. Poderia ser o fim dessa maldita saga? Kamito encarava o oponente com seriedade, determinado a sair vitorioso. A Sombra, entretanto, o fitava com um sorriso largo.
— Qual é a graça?! Acha que eu não posso te vencer? Eu já expulsei do controle uma vez, te vencer deve ser mais fácil ainda. Eu posso acabar com isso agora!
— Como você é burrinho. Você não tem condições de me enfrentar, Impostor! Você não conhece seu próprio poder, o que te faz achar que pode me vencer?!
Ele invocou duas lâminas de chamas negras e avançou. Kamito criou uma única lâmina de chamas azuis, insuficiente para conter todo o ímpeto inimigo.
— É só isso que você tem? Patético! É assim que você pretende me vencer?! Desista, Impostor! Você é fraco! Nunca me vencerá! Nunca!!! — ele gargalhava.
— Cale-se! Você não sabe nada sobre mim! Você é apenas uma sombra! Eu jamais permitirei que você tome o controle do meu corpo de novo! Morra!!!
Um chute potente no estômago jogou o inimigo para trás. Kamito sorriu e avançou para dar um golpe fatal. Antes disso, o local tremeu violentamente, o fazendo perder o equilíbrio. O vislumbre era assustador. Tudo estava caindo aos pedaços.
— O que está acontecendo?! Ei! O que você fez? Responda, maldito! Você pretende mesmo tirar tudo de mim até que eu me destrua?
— Sim! Sim! Sim! Eu quero acabar com tudo o que você construiu! Sua vida, seus amigos, sua mente, tudo que pertence a você! Eu te destruirei até que não reste mais nenhum vestígio seu em nenhum lugar, Impostor!
A intensa troca de olhares não cessou nem mesmo após ambos serem separados por uma longa fenda. Nos instantes finais, a Sombra invocou sua Relíquia e a apontou para Kamito. Sem sorrisos dessa vez, apenas um olhar determinado e assassino.
— Nosso próximo encontro será o último. Apenas um de nós sairá daqui com vida e no comando, o outro se submeterá ao esquecimento. Esse será você, Kamito.
Tudo escureceu, e Kamito foi puxado de volta para a realidade.
O peito doía tanto que cair de joelhos e vomitar sangue foi a única resposta que seu corpo pôde ter. Ver o líquido vermelho se espalhar pelo chão deixou Kamito em pânico — sabia que não era mais capaz de controlar aquilo. Sentia o corpo queimar, a energia se instabilizar. Sem forças para se levantar, caiu sentado. Outra vez ele se sentia daquele jeito. Sozinho. E com medo. Ou talvez não.
À sua frente, Tenebris o observada com os braços cruzados e a feição tranquila. Há quanto tempo ele estava ali? Kamito desviou o olhar.
— Você não parece bem, Lobo. Está doente, ou esse é um problema interno? Sabe, algo bem pessoal e perigoso, como uma Fúria? — ele ergueu a sobrancelha direita.
Ele sabia a verdade, por isso Kamito naturalmente o encarou com surpresa. Tenebris se aproximou e estendeu a mão direita para o ajudar a se levantar. Porém, ao se tocarem, suas energias colidiram e se repeliram. Pela primeira vez, Kamito sentiu diretamente uma presença maligna vinda de outra pessoa.
— Oh, interessante. — Tenebris fitou a própria mão brevemente e logo encarou o rapaz. — Eu também tenho uma Fúria. Isso que acabou de acontecer foi um choque entre elas. Fúrias são personificações dos nossos desejos e medos, e possuem um forte instinto assassino e um desejo insaciável por lutas. Nunca pensei que eu poderia sentir outra Fúria se a encontrasse. Você precisa dar um jeito nisso antes que seja tarde, rapaz. Se você for tomado pela Fúria, será muito difícil retornar.
— Você fica tão tranquilo falando sobre isso. Eu não pude sentir bem sua Fúria, mas parece que ela não te atrapalha e nem tenta tomar o controle. Como você fez isso? Eu preciso parar essa maldita sombra antes que ela tire tudo de mim! — ele apertou as mãos, o olhar transmitindo desespero. Qualquer método poderia ser útil, não?
No entanto, Tenebris apenas se afastou e olhou para o céu.
— Por favor, Tenebris! E-eu não posso acabar assim. Eu não quero perder tudo que eu tenho. — Kamito se aproximou. — Você entendeu, não é? Não quero abandonar meus amigos, deixar de existir nem perder o controle! Se tem um jeito, me diga!
— Eu gostaria de poder te ajudar, mas temos Fúrias muito diferentes e o que eu fiz para lidar com a minha não funcionará com a sua. — ele fez uma pausa e logo fitou o rapaz. Seu olhar transmitia a calma que Kamito há muito buscava. — Apesar disso, eu já perdi o controle uma vez, sabia?
— Você perdeu? — Kamito arregalou os olhos. — Como fez para voltar?
— Não sei. — Tenebris gargalhou. O companheiro ficou ainda mais confuso. — Foi há quatro anos, na noite que a Emota invadiu o palácio imperial. Eu não me lembro de todos os detalhes, mas tenho o bastante para uma boa história.
Tenebris encostou na parede com os braços cruzados, convidando Kamito a se juntar a ele. Ambos ficaram lado a lado, observando o céu carmesim.
— Invadimos a fortaleza através de antigos túneis subterrâneos. Despistamos os guardas, evitamos os capitães e ainda conseguimos raptar uma das conselheiras do Imperador que nos ajudou a entrar. Parecia perfeito. — o semblante leve mudou. — Deveríamos ter parado por ali. Sabe, dado meia-volta e voltado para casa.
— Por quê?
— Tudo deu errado. Fomos emboscados pelos Capitães Cascavel e Navaro, além do próprio Imperador. A conselheira que nos ajudava foi morta, Ryn foi pega pela Manifestação do Impero e forçada a lutar contra nós, e eu fui extremamente ferido por uma explosão. Mesmo que eu tenha conseguido mandar Cascavel para longe do palácio, nós estávamos em desvantagem. Capuz terminou lutando contra o Imperador sozinho e foi derrotado. Mairon e Raya foram superados em pouco tempo. O maldito Navaro ainda fez questão de espancar Raya e se divertir com o sofrimento dela… — Tenebris franziu o cenho, com repulsa dessas memórias. — Eu não me lembro de mais nada depois disso. Só sei dos detalhes que Raya me contou.
Após uma breve pausa, ele fitou Kamito com um sorriso de canto.
— E ela disse que minha Fúria interferiu na luta para enfrentar Navaro, sem atacar nenhum dos nossos amigos. Não parece loucura?
— Com certeza. Eu nunca imaginaria que uma Fúria seria capaz disso. Eu pensava que elas só pensavam em lutar e destruir o Manifestador. — Kamito levou a mão ao queixo. — Será que ela não foi atrás desse Navaro por ele ser o oponente mais forte?
— Talvez, mas Raya disse que minha Fúria não foi atrás de Impero após derrotar o Capitão Navaro. — Tenebris deu de ombros. — Não quero insinuar nada, nem decidir como você vai lidar com a sua Fúria, mas posso dizer que cada Fúria tem seu próprio jeito de ser, assim como você e eu. Ela pode estar querendo te matar ou, quem sabe, tentando te mostrar alguma coisa, como a minha fez comigo.
— Incrível… Isso é totalmente diferente de tudo que eu já ouvi sobre Fúrias até agora. Mas… Não sei. A minha segue dizendo que sou um impostor e que ela vai tomar meu lugar. Não tem como ficar tranquilo quando existe um ser maligno te infernizando.
Tenebris gargalhou, deixando o rapaz ao lado um pouco confuso. Ele então deu alguns tapinhas no ombro do Kamito e se afastou calmamente.
— É verdade. No seu estado atual, talvez a única alternativa seja lutar e submetê-la a você. — ele caminhava de volta para a casa, bastante pensativo. A energia maligna que se manifestava no rapaz poderia ser mais perigosa do que o próprio Imperador? Talvez, mas ele curiosamente queria acreditar no rapaz. — Na hora certa você vai saber o que fazer, eu tenho certeza. Tenha calma, Lobo. Ansiedade e nervosismo só favorecem a Fúria dentro de você. Controle seu espírito e, quem sabe, você poderá conviver com uma Fúria por mais de quinze anos, como eu.
— Q-quinze?! Você está brincando comigo, não é? — Kamito se afastou da parede, incrédulo. Tenebris apenas acenava, sem olhar para trás.
— Boa sorte, Lobo. Conto com você.
— Obrigado! Eu não vou perder para essa Fúria, pode contar com isso! — Kamito afirmou com confiança. — Há pessoas que confiam em mim e que se importam comigo. Não posso desapontá-las, principalmente a Akane. Eu prometi sempre estar ao lado dela e eu pretendo fazer isso. Custe o que custar, eu vencerei essa sombra!
Tenebris concordou com um sorriso simpático e, enfim, se retirou.
Após mais um tempo a sós, Kamito voltou para a casa. Sentia fraqueza. Cansaço. O corpo pesava. Atordoado como estava, ele precisava, muito, descansar.
Dias se passaram. Enfim, era domingo, o dia da festa. Kamito se arrumava num dos cômodos. O terno branco e a camisa social vermelha exalavam grife. O penteado jogava os cabelos para trás, transformando o Lobo da Ordem em um jovem nobre.

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