Capítulo 11 — O Trio Estranho e o Gigante
Os acontecimentos da noite anterior ainda estavam frescos na minha memória. Todos aqueles sentimentos ainda pareciam incômodos, deixando minhas bochechas rosadas, mas me forcei a ignorá-los. Neste momento, eu tinha outras coisas a priorizar.
Na minha frente, caminhava Aurora com o mesmo jeito indiferente de sempre. Seus passos eram firmes enquanto vagava sem rumo. Perdi meu olhar sobre seu cabelo esvoaçado no ar, mas continuei a segui-la.
Apressei meus pés para ficar ao seu lado, mas ela apenas me deu um breve olhar antes de voltar a observar seus arredores. Torci para que se interessasse por alguma barraca, mas ela não faria tal coisa durante uma missão.
A senhorita Aurora estava completamente focada em rastrear os cavaleiros escondidos pelo festival.
Desde que a encontrei esta manhã, quando apareceu subitamente na porta da casa de Lya, a informei sobre as pequenas descobertas de ontem.
Não havia muitas informações, no entanto.
“Eu realmente deveria ter mantido o foco na missão… mas não podia decepcionar Lya…”
Ao lado de Aurora, observei as barracas. Com as habilidades elevadas dela, senti que seria uma boa oportunidade de focar no meu verdadeiro plano: criar boas memórias com ela!
Como havia percebido antes, a indiferença natural de Aurora pelo mundo ao seu redor a impediu de formar laços profundos com essa terra distante e gélida.
Se eu desejava mesmo voltar aqui depois que meu objetivo de aniquilar o Mosteiro de Deus fosse alcançado, gostaria que ela viesse junto comigo, e de bom grado.
No entanto, conforme prestava atenção nos produtos, senti minha carranca aumentar. Claro, eram produtos de qualidade, como relógios de bolso adornados com pedras preciosas, mas havia um grande problema.
Eu simplesmente não conhecia os gostos dela.
“Devo ser o pior discípulo do mundo, não?”, me culpei com a ideia.
Não parecia justo com ela não conhecer seus gostos. Pelo amor da Deusa, estávamos juntos a cinco anos! Forcei-me a tentar lembrar de algo que a deixasse feliz, mas independentemente do meu esforço, nada surgiu.
Com a consciência pesada, um forte suspiro escapou da minha boca. Eu deveria estar bem frustrado, já que Aurora se virou para mim.
— Você está bem, meu discípulo?
— Hã? Ah, sim, desculpa…
Rapidamente desviei o olhar quando ela me chamou. Envergonhado, senti minhas bochechas esquentarem, mas tentei ignorar. Para minha sorte, a atenção dela mudou de alvo.
Logo à frente, encontramos uma comoção.
Transeuntes de todas as idades, mas com uma clara predominância dos mais jovens, tomaram a rua. Apesar de não ser uma visão rara nesses últimos dois dias, os gritos entusiasmados eram estridentes demais para serem ignorados.
Cogitei que pudesse ser o rapaz de ontem, aquele tal de Edgar, mas descartei a ideia pouco tempo depois. As pessoas que o observavam ontem agiam como nobres apreciando arte, mas essas pessoas à frente…
— Isso, pega ele!
— Não, não! Desvia dele, porra!
— Pela Deusa, ele é o pior lutador que já vi na vida! Vou perder todo meu dinheiro nessa aposta…
Sinceramente, eram muito parecidos com o grupo de rufiões que me livrei tempos atrás. A forma como se empurravam e arremessavam coisas… não entendi o que chamou a atenção de Aurora.
Meu olhar se moveu dela para a multidão, e depois da multidão para ela. Seu rosto permaneceu travado, como sempre. Mas seus pés não.
Sem ao menos falar comigo, partiu em direção àquelas pessoas. Cocei a cabeça com isso, mas decidi segui-la. Infelizmente, meus planos teriam que esperar.
Poucos metros depois, chegamos ao nosso destino — a praça de Veldoren. Um lugar geralmente aconchegante, mas que agora parecia um campo de guerra.
— O que é isso…? — não pude evitar dizer.
O aconchego foi substituído pelo cheiro pungente de suor e lama. Tive que me forçar para não tampar o nariz. Olhando para Aurora, ela parecia muito melhor do que eu.
Como se fosse incapaz de sentir o forte odor, observou com afinco a situação que se desenrolava ali. No centro de uma roda de pessoas, duas delas duelavam.
Socos desengonçados e ocasionais escorregões compunham a briga. Não havia quaisquer técnicas e planos, apenas a pura violência. Cortes e hematomas surgiram rapidamente na pele de ambos os homens.
As pernas bambas deles mal podiam os sustentar, mas a multidão os manteve de pé com seu fervor. Mais surpreendente que a resiliência dos dois homens, foram suas expressões — sorriam como se presenciassem o momento de suas vidas.
Então, um soco certeiro no queixo encerrou o duelo.
Quando o corpo exausto de um dos homens despencou no chão lamacento, o grito do homem vencedor irrompeu no ar. Foi um anúncio cru de sua vitória. E ninguém poderia negar isso.
Toda aquela ocorrência era, na mais simples das palavras, loucura.
As vestimentas baratas dos dois lutadores denunciaram que eles eram moradores de Veldoren, então por que criariam esse cenário caótico no meio da cidade?
Tentei encontrar alguma resposta em Aurora, afinal foi ela quem demonstrou interesse nesse evento. Mas seus olhos cinzentos se perderam muito além daqueles dois homens.
Silenciosamente, ela observou um trio de indivíduos do outro lado da praça.
Em pé, uma figura encapuzada e dois homens observaram o duelo — um deles segurando a barriga de tanto rir.
— Hahahaha! Nossa, isso foi… Hahahaha!
O homem riu audivelmente. As duas figuras ao seu lado demonstraram desagrado com sua histeria, apesar de não fazerem algo para contê-la. Mesmo eu me senti incomodado.
— Aconteceu algo, senhorita Aurora? — foi minha vez de perguntar.
Ela, no entanto, balançou a cabeça em negação.
— Sinto algo diferente ao vê-los.
— Diferente?
Ao voltar minha atenção para as figuras, tentei encontrar algo. Mas não importava como eu olhasse, não vi nada de estranho. No máximo possuíam características únicas.
Espera… eu não me recordo de ninguém como eles.
Parado em frente ao grupo, estava uma figura encapuzada que assumi ser o líder. Devido às suas vestimentas que cobriam todo o corpo, era difícil dizer algo sobre ele. Mesmo seu sexo era desconhecido.
Mas ele era alto demais.
Ele, que era facilmente tão grande quanto Aurora, deveria ter ao menos dois metros de altura. E não deveria existir ninguém em Veldoren sequer próximo do tamanho da mestra.
Decidi observar melhor seus companheiros. O cabelo dos homens me chamou a atenção, um amarelo vivo impressionante. Por isso, imediatamente presumi que fossem irmãos.
No entanto, enquanto um deles ria como um louco a ponto de quase tropeçar, o outro segurava a capa da figura misteriosa timidamente.
Seu olhar desconfortável percorreu os arredores, como se torcesse para que ninguém os visse junto do louco.
Um trio tão estranho… Finalmente, observando com mais cuidado, foi que entendi o que a mestra queria me dizer.
— Eles não são daqui.
Mesmo sem que ela dissesse algo, pude sentir que Aurora concordava comigo.
No entanto, apesar de não serem daqui, ainda havia algo que não compreendi completamente: por que ela estava olhando tão atentamente para eles?
Mesmo que suas vestes fossem estranhas, até luxuosas demais para o povo daqui, era o esperado se realmente vieram junto da caravana.
Senti a pergunta escorrer até a ponta da minha língua. Queria entender melhor a situação. Mas meu questionamento morreu na minha garganta sem nunca ser dito em voz alta.
Naquele momento, a figura encapuzada olhou diretamente em nossa direção.
Seu rosto estava coberto pela capa, mas de alguma forma ainda foi possível ver o brilho carmesim de seus olhos — algo estranhamente familiar.
Cocei minha nuca com a ideia. Tentei me lembrar de onde aqueles olhos me eram familiares, de onde havia sentido essa mesma sensação.
— O Cavaleiro Negro… — Aurora, então, me revelou.
Foi quando senti como se meu mundo tivesse tombado. A revelação foi tão grande que minha cabeça parou por um momento. Felizmente me recuperei rápido.
“Sim, agora eu me lembro… Foi naquele momento em que senti esse olhar”, pensei ao me relembrar de quando a caravana chegou na cidade.
Havia tantas carruagens, tantos soldados e, no entanto, uma única imagem se sobrepôs a todas as outras: a figura imponente de um cavaleiro numa armadura negra sobre um cavalo igualmente assustador.
E também me lembrei de como ele nos encarou naquele momento.
— Não seria melhor irmos embora? — perguntei apressadamente.
Desde o primeiro momento que nossos olhares se encontraram ontem, aquele cavaleiro definitivamente nos considerou suspeitos por algum motivo. Mas Aurora não se importou com isso.
— Já é tarde demais para isso, meu discípulo. Olhe para ele.
Seguindo as ordens dela, olhei para a figura encapuzada. Ela deveria estar com seus companheiros, mas não estava. Muito pelo contrário, ela caminhou pesadamente em nossa direção.
Cada passo seu ressoou pela minha cabeça. Lutei para pensar em algo, uma maneira de escapar, mas não funcionou. Antes que eu percebesse, uma longa sombra se estendeu sobre mim.
“Cadê o sol?”
Com o pescoço enrijecido pelo susto, virei minha cabeça lentamente para cima. Senti a mesma sensação sempre que era forçado a olhar para Aurora de frente; a sensação de olhar diretamente para alguém mais forte do que eu.
— Qual o seu nome? — uma voz rouca escapou de dentro da escuridão que era o manto. Meu corpo paralisou com a voz, mas percebi algo ainda mais chocante.
“Isso… é uma mulher?”

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