Capítulo 15 — Uma Mentirosa
O nada era reconfortante.
Nele, não havia dor. Nem tristeza. Muito menos humilhação. Mas… infelizmente, passava muito rápido. Lentamente, a luz invadiu o cômodo negro de meu consciente conforme minhas pálpebras se abriram.
O que me saudou não foi a visão do teto do quarto de Lya que vi esta manhã, nem o céu sobre a arena em que lutei. Na verdade, parecia mais um teto feito de pano sujo.
— Argh… — gemi quando tentei me levantar, uma dor aguda se esgueirando pelo meu crânio. — Onde estou…?
Ainda meio grogue pelo sono, tentei olhar para os lados. Ou quase isso, já que meu pescoço estava enrijecido como gesso. No fim, só pude enxergar o que estava à minha esquerda.
E era a Lya.
Debruçada sobre meu corpo, ainda podia sentir seu aperto forte quando abraçou meu torso. E, embora seu rosto estivesse escondido no meu peito, pude notar manchas de lágrimas em suas bochechas de leves manchas laranjas.
— O que aconteceu…? Por que ela… Ah, é mesmo. Ela estava lá, não é?
No momento em que eu, caído no chão em meio aos golpes impiedosos de Kaedra, observava os espectadores daquele duelo, encontrei Lya. Sua expressão de choque ainda parecia fresca em minha mente.
Pensar que a deixaria me ver daquela forma, ainda mais quando estou prestes a partir de Veldoren… Era óbvio como ela deveria estar se sentindo, principalmente para dormir de tanto chorar.
Estendi meus dedos em direção aos fios do seu cabelo ruivo. Pareciam tão macios. Mas não tive a oportunidade de confirmar isso.
— Coff! Coff!
Uma tosse me impediu.
Meu olhar caiu rapidamente sobre o responsável pelo som, puxando Lya para mais perto de mim. Mas, apesar de um murmúrio baixo, ela não acordou.
Apesar da dor que senti ao mexer bruscamente meu corpo machucado, minha atenção permaneceu na pequena figura familiar sentada à minha frente.
— Você é… — comecei a falar, mas logo fui interrompido.
— Ah, si-sinto muito… Achei que seria impróprio ver essa, essa situação quieto! — o jovem loiro disse.
Que me lembre, seu nome era… Hm, qual era mesmo? Irina? Não, é muito feminino… Sim, agora me lembro. Era Irene.
— Irene, companheiro de Kaedra… — falei baixo. Talvez tenha soado meio ríspido, vendo como ele se encolheu — o que faz aqui?
— Sinto muito! Sinto muito mesmo! A senhorita Kaedra me ordenou a ficar te observando!
Ela havia feito tal coisa? Então ela era superior dele, embora não fosse tão difícil chegar a essa conclusão. Mas não foi isso que me surpreendeu.
— Por que aquela mulher faria algo assim? Depois de como me espancou, pensei que quisesse se livrar de mim.
Os olhos de Irene esbugalharam-se com minha fala. Tentando explicar-se melhor, mexeu rapidamente as mãos em negação, como se quisesse afastar o que havia dito.
— Não, não! Na verdade… sim? Mas foi só por um momento! Quando eu e Johan a impedimos de aleijá-lo durante o duelo, imploramos para que reconsiderasse!
O quê? Eles me salvaram? Mas tenho certeza de que vi minha mestra naquele momento…
— Eu contei sobre minha visão de ti para ela. Embora não tenhamos nos encontrado quando vim anunciar a chegada da caravana, ouvi muito dos moradores.
Ei, fique quieto por um momento.
Era o que queria dizer, mas não o fiz. Apenas observei com olhos perdidos enquanto Irene continuava a falar.
— Desde então, parece que a senhorita Kaedra mudou a visão que tinha em relação a você. Então, como pedido de desculpas, ordenou que eu observasse enquanto se recuperava.
— Bom, acho que tenho que te agradecer. — Sorri levemente para o rapaz. — Muito obrigado, Irene.
Mesmo com o corpo e mente pesados pela embriaguez do sono, era visível que o jovem rapaz, tímido como pareceu nos últimos encontros, se contorceu com o agradecimento.
— Inclusive, você disse que era quem anunciou a chegada da caravana? Tinha ouvido alguns murmúrios dos cidadãos sobre um jovem cavaleiro de atitude nobre. Sinceramente, não pensei que fosse você.
— Hã? Ah, eu, sabe… — O rosto de Irene avermelhou-se como um tomate em poucos segundos. Ri com seu jeito, mas logo desviei minha atenção.
Meus olhos percorreram o ambiente de aparência insalubre em que estava.
Além do teto de pano, as paredes do recinto pareciam improvisadas, também do mesmo material. Em alguns pontos, até foi possível encontrar frestas que revelaram a luminosidade do exterior.
Felizmente, ainda parecia ser dia.
— Esta é a enfermaria.
— É mesmo? Não parece muito com uma…
— Não havíamos imaginado que um duelo poderia escalar tanto, então não tínhamos nada além de algumas bandagens e gesso…
Bom, acho que era o esperado. Além de mim e Aurora, não recordo-me de um morador da cidade que fosse apto na manipulação de mana.
Claro, desconsiderando os aventureiros que apareciam por aqui de vez em quando com o intuito de caçar na floresta que circundava Veldoren.
Enquanto perdido em pensamentos, ouvi o som de farfalhar quando Irene se levantou do seu assento. Curioso, encarei-o.
— A senhorita Kaedra pediu também que, quando o senhor Arthur despertasse de seu “sono”, eu deveria avisá-la.
— Entendo.
Mas quando a mão de Irene aproximou-se da porta da tenda — também apenas um pano —, outro alguém entrou no recinto. Com seus passos largos e cabelos arrepiados, não foi difícil identificar quem era.
— Johan? O que faz aqui? — o jovem tímido perguntou.
Johan olhou para os lados, como se em busca de algo, quando me avistou. Por um breve momento, pude jurar ter visto um sorriso naquele rosto arrogante. Mas ele rapidamente mudou seu foco para Irene.
— Hm, apenas vim ver como estava a situação. Sabe, você pode cometer alguns erros, não é, Irene? — Ele passou o braço por cima do ombro do rapaz.
Um sorriso desabrochou em seu rosto. Era bem mais suave do que os que eu havia visto antes. Estranhamente suave.
— Tudo, tudo ficou bem… Agora, tenho que ver a senhorita Kaedra…
Como um rato fugindo do gato, Irene desvencilhou-se de Johan e correu porta afora — embora aquilo, realmente, não fosse uma porta. Senti o olhar do cavaleiro agitado demorar-se no fugitivo, mas logo veio até mim.
Assim como fiz quando identifiquei Irene agora pouco, aumentei o aperto sobre Lya. Felizmente, apesar da força, ela afagou sua cabeça em meio peito com leves murmúrios.
— Arthur… Não vá…
— Parece que tem algo bem interessante aí. Peço desculpas se estou interrompendo.
Observei o homem sentar-se na mesma cadeira que o anterior, mas com uma postura muito mais confiante.
— O que você quer? — perguntei de cara.
Embora tenha perdido vergonhosamente para aquela mulher louca, não era idiota. Vendo os olhares rápidos que aquele sujeito lançou para Irene, e mesmo para Lya, era nítido que ele desejava algo.
— Nossa, parece que fui pego. — Ergueu as mãos em rendição fingida. — Eu… tenho uma proposta para você.
Estreitei meus olhos com sua fala.
— Você sabia que… aquele tal de Irene… é uma mulher?
— O quê, do que está falando?
— É chocante, eu sei. Mas de trás daquela armadura e jeito tímido, existe uma jovem donzela que fugiu da família.
O sorriso em seu rosto se intensificou. As quinas de seus lábios quase tocavam suas orelhas.
Esse cara é louco. Foi uma ideia que surgiu desde o primeiro momento em que o vi, mas que, a cada vez que falava, ganhava força. Mas ele não parecia querer terminar ali.
— Não me importo — afirmei.
A testa de Johan franziu momentaneamente, mas logo ele se forçou a perguntar.
— Desculpa, mas… acho que não entendi.
Irene era uma mulher? Pouco me importava. Não era minha aliada, nem amiga. E, no entanto, este homem revelou seu segredo sem o menor pudor.
— Não tenho o menor interesse em você ou na tua proposta. Saia.
Mas esse homem não parecia disposto a recuar.
— Ei, me escuta, tudo bem? Basta que me entregue Aurora e, então, farei com que Irene seja sua.
Minha mão moveu-se instintivamente para meu quadril em busca de minha espada. Eu mataria ele ali mesmo, independente se Kaedra quisesse vingança ou não.
No entanto, quando minha mão tocou o lugar onde estaria minha arma, não senti nada. Foi quando percebi que estava desarmado.
— Uau! Ainda bem que confiscamos aquela espada. Você realmente parece disposto a me matar, hahaha!
Ele riu. Não, gargalhou. A mesma risada estranha e maníaca de quando o encontrei pela primeira vez. Johan olhou diretamente para mim depois de enxugar as lágrimas.
— Pense bem sobre isso, Arthur. Já deve ter percebido a esse ponto, mas aquela mulher não se importa com você. Faça a coisa certa.
— Acho que é melhor você calar essa maldita boca.
Aurora foi a primeira a me estender a mão depois que minha aldeia foi destruída pelo Mosteiro de Deus. Ela foi quem me ensinou tudo o que sei.
Estar aqui ou não, não muda isso.
Quando ameacei levantar-me, Johan rapidamente recuou. Se levantando de seu banco, aproximou-se da porta.
— Estarei por aí, explorando o que esse lugar pode me oferecer. Quando estiver disposto a me ouvir, pois estará em algum momento, venha me encontrar.
Assim, ele partiu, deixando-me sozinho com o punho cerrado. Talvez tomado pelo momento, esqueci que minhas mãos estavam sobre a sonolenta Lya.
Um gemido de dor escapou de seus lábios, as pálpebras pesadas revelando o verde esmeralda presente em seus olhos.
Nem preciso dizer que soltei o aperto que estava firme sobre a pele dela. E, no mesmo instante, ela me chamou.
— Arthur…? — assim como o eu de minutos atrás, a fala de Lya transbordava sonolência.
Mas, no momento em que seus olhos encontraram os meus, eles se arregalaram, espantando de vez aquela sensação.
— Arthur! Arthur!
Seus braços finos me apertaram o máximo que podiam. E mesmo que fossem firmes, nem de longe machucavam a mim.
— Seu idiota! Por que… Por que lutou contra aquela mulher?!
Acompanhando as palavras, lágrimas jorraram como cachoeiras por suas bochechas. Vendo isso, não pude deixar de sentir-me um tolo.
Mesmo acompanhado de alguém como Lya, que chora por mim, ainda perdi meu tempo com uma discussão sem sentido com aquele sujeito chamado Johan.
Mas eu não repetiria isso de novo.
— Desculpa, Lya… Não farei mais isso.
— Você, você promete?
— Nunca mentiria para você.
Apesar das lágrimas que desciam pelo seu rosto, o sorriso que surgiu em Lya apagou qualquer traço de animosidade que tinha em meu coração.
Bastava pensar nela. Apenas nela.
— Então — a chamei —, quer explorar mais do festival comigo?
Poderia deixar meus problemas para mais tarde contanto que tivesse a companhia de minha melhor amiga.

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