Capítulo 0194: Monstro
Libertar Eroth havia sido uma decisão difícil e bastante controversa, para dizer o mínimo. A notícia se espalhou depressa e Siegfried passou o resto da noite sendo questionado a respeito.
— Lorde Blackfield — disse Andrella. — Não me atrevo a questionar sua decisão, apenas espero que tenha ciência de que a bruxa não é confiável e rezo para que seja capaz de mantê-la sob controle. Do contrário… Bem! Acho que não preciso lhe dizer.
— Mentiroso! — esbravejou Esmond Kroft. — Você jurou que mataria a minha mãe. Me deu a sua palavra. E agora a libertou! Eu devia ter te matado quando tive a chance.
Blossom não lhe dirigiu a palavra, mas podia ver que estava incomodada. Bastou a ela um mero vislumbre de Eroth para desaparecer e não voltar a ser vista pelo resto do dia. Para onde havia ido? Não saberia dizer. Ninguém parecia saber. Escondida? Planejando o seu assassinato? Teria deixado o castelo?
Melias Kroft era o único que parecia não ter ficado incomodado com a sua decisão:
— Bem! Eu certamente esperava que você a libertasse cedo ou tarde, mas devo admitir que foi um pouco mais cedo do que imaginei. É bom que saiba o que está fazendo.
Benn Kroft também parecia feliz em rever a sua mãe. Tinha apenas quatro anos e havia tido alguma dificuldade em entender tudo o que aconteceu nas últimas semanas. O seu pai estava morto, sua mãe havia sido presa, sua irmã fora desposada e uma multidão de pessoas que não conhecia havia tomado a sua casa. Além disso, Esmond Kroft era um irmão mais velho pouco amigável e Eva não tinha muito tempo para o irmão caçula. Não era de se admirar que estivesse tão feliz em rever a sua mãe — agora seguia-a feito um filhotinho animado.
Eva não demonstrou o mesmo entusiasmo.
Embora não tenha ficado tão irritada como Esmond, a garota parecia assustada com a perspectiva de ter a sua mãe andando livre pelo castelo.
Durante o jantar, não disse uma palavra. Se manteve em silêncio e não comeu mais que uma ou duas colheres, embora tenha passado a noite inteira encarando o prato — com pequenos intervalos a cada dez segundos, para verificar onde Eroth estava; uma presa observando o seu predador. Saber que ela estava por perto era assustador, mas não saber onde ela estava parecia ser ainda pior.
Quando foram dormir, Eva implorou para que Siegfried pusesse guardas na porta do seu quarto; como não encontrou Blossom, deu a ordem para três servas e dividiu-as em turnos de vigília de duas horas cada. A porta também permaneceu trancada e, para a sua surpresa, Eva pediu para dormir com ele pela primeira vez — não como uma mulher divide a cama com um homem, mas como uma criança assustada divide a cama com um pai; e não encontrou motivos para lhe negar isso.
♦
Na manhã seguinte, Siegfried acordou com Eva aconchegada em seus braços feito um bebê e, como de costume, levantou-se e foi embora sem fazer barulho, deixando que a sua pequena esposa dormisse.
Encontrou o Castelo dos Ossos imerso em um silêncio profundo e melancólico.
As servas seguiam com as suas tarefas sem dizer uma palavra. Fantasmas andando por corredores gelados. Mas ainda podia sentir o rancor em seus olhos quando passava. Não se atreviam a questioná-lo, mas tampouco estavam felizes com a sua decisão.
“Por que será que toda vez acaba assim?!”
De fato, sempre que Siegfried recebia uma posição de liderança, tomava uma ou outra decisão que desagradava à maioria de seus subordinados. Seria isso normal? Será que era o mesmo para todos os comandantes e lordes? Ou ele simplesmente não tinha o talento para liderar?
Talvez devesse ter executado Eroth e banido Mimosa caso ela o desafiasse. Certamente a decisão não teria sido muito agradável, mas o número de pessoas afetadas teria sido um pouco menor. Ainda assim, talvez nem essa fosse a decisão correta. Eroth e a sua magia poderiam lhe ser úteis; e banir Mimosa não era exatamente algo que quisesse fazer.
Havia jurado nunca permitir o mal a quem não merecesse. Era um voto antigo, o qual não havia renovado quando foi armado cavaleiro. Ainda assim, velhos hábitos custam a morrer e não planejava banir uma boa amiga só porque ela estava assustada. Principalmente quando a sua condição atual era culpa dele mesmo.
Foi até os estábulos pegar o seu cavalo e partiu em silêncio, sem que ninguém lhe dirigisse a palavra.
O vilarejo também parecia um tanto quanto quieto. Não que isso lhe surpreendesse. Os assassinatos já chegavam a meia dúzia; de crianças a homens adultos. Ninguém estava seguro. A maioria havia se escondido dentro de suas casas — era inverno, afinal. Os mais corajosos se atreviam a espiar pelas janelas seladas e não mais do que isso.
O único lugar que transbordava de vida era O Relicário Perdido.
A taverna se encontrava fechada, mas havia alguém atendendo os bebuns e as rameiras; qualquer um que eles reconhecessem podia entrar. E pelo barulho que fazia lá dentro, era provável que metade do vilarejo já estivesse no local.
Nada havia a se fazer no vilarejo, por isso foi em direção ao pântano, como de costume.
A essa altura, já havia descoberto a maioria das estradas secretas que havia na região; caminhos ocultos por entre a água rasa. Não era tão difícil cavalgar pelo pântano uma vez que você os conhecia. Ainda menos quando o próprio cavalo já sabia o caminho — havia sido a montaria de Elliot Kroft e, por isso, não era de se espantar que o animal já estivesse acostumado com o terreno desafiador.
— Pelo menos você me ajuda, né?! O resto só sabe reclamar de tudo que eu faço. Nada nunca tá bom o bastante pra eles.
Nada.
Nem mesmo um simples relincho.
— Cê podia pelo menos fingir que tá me escutando, sabia?
E, novamente, silêncio.
Mas, desta vez, Siegfried notou. Não era só o cavalo que estava quieto; o pântano inteiro havia emudecido. O vento frio soprava e um leve nevisco cobria-lhe de branco as roupas negras. Nada além disso. Nem aves, nem peixes ou qualquer outra criatura denunciava a sua presença.
Havia entrado numa área de caça.
Mas do quê?
Incentivou o cavalo em um passo moroso e seguiu em frente com cautela, enquanto via a vegetação se fechar ao seu redor. A parte mais escura do pântano.
Foi onde o encontrou…
Um homem. Um mendigo. Das suas roupas, restavam apenas fiapos de tecido podre que terminavam de se desfazer aos poucos. Sua pele descarnada, pálida como leite azedo. O cabelo curto e esbranquiçado de um velho; o corpo completamente nu, embora o frio não parecesse lhe incomodar.
Ao seu redor, viu os cadáveres parcialmente devorados dos plebeus desaparecidos. Uma garota de treze anos, um homem de trinta e poucos, uma mulher gorda de vinte. O resto estava irreconhecível ou restavam apenas os ossos ruídos.
Monstro.
Siegfried desembainhou sua espada e isso foi mais que o bastante para que a criatura notasse a sua presença.
Os olhos vermelhos queimando como uma chama intensa. Encarando-o das sombras. Um rosto conhecido…
— Elliot?!

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