Capítulo 0202: Atrasados
O banquete não terminou. Durou a noite inteira e continuou até o amanhecer.
Embora a maioria dos convidados tivesse se rendido à bebida, desmaiando onde estavam (com um caneco de cerveja na mão), alguns madrugaram na bebedeira sem fim — tão zonzos que mal eram capazes de se manter retos, tombando de um lado para o outro. Siegfried definitivamente não era um deles.
O rapaz dormiu cedo e acordou ainda mais cedo, como de costume.
Enquanto alguns convidados continuavam a beber de canecas vazias (bêbados demais para notar que estavam vazias), as servas já começavam a limpar.
Siegfried vestiu suas roupas, lavou a boca e o rosto e então deixou o Salão Talmond em direção ao acampamento dos soldados (que havia sido montado do lado de fora). Mas, tão logo atravessou o portão, deu de cara com um de seus homens o esperando sentado ao lado da entrada:
— Milorde. Graças a Elyon, finalmente. Eles não me deixaram entrar…
— Calma! O que houve?
— É o Ander. Esfaquearam ele! Aqueles merdas. Enfiaram uma faca no estômago dele. Procuramos a noite inteira, mas não achamos nenhum curandeiro, médico ou o que fosse.
O soldado estava desesperado, mas bastaram alguns instantes para se acalmar e contar a história toda: aparentemente, uma confusão havia acontecido ontem à noite, depois que os homens Talmond acusaram Siegfried de ser um bastardo fodedor de crianças e alguns de seus homens tentaram defender a sua honra. Uma discussão teve início e, na confusão, Ander foi esfaqueado por um dos recrutas Talmond. Tudo durante o banquete da noite passada.
— Tentamos chamar o senhor, mas os guardas não deixaram! Disseram que tinham ordens e não iam deixar ninguém entrar. Quando explicamos o que aconteceu, aqueles merdas riram e ameaçaram chover flechas sobre a gente.
O soldado então levou Siegfried até o colega ferido. Como era de se esperar, após passar uma noite inteira sangrando, estava pálido e à beira da morte. Haviam-no lavado e posto alguns panos para estancar o sangramento — o que apenas lhe servia para prolongar o sofrimento.
Morte. Lenta e dolorosa.
Não havia nada que Siegfried pudesse fazer por ele, mas os soldados olhavam-no da mesma forma que uma criança olha para o pai em busca de respostas.
Então retornou ao Salão Talmond e explicou a situação para o Barão Talmond, que havia acordado cedo e preparava-se para partir.
— Uma briga entre soldados — disse Klaus Tamond, sem lhe dar muita atenção. — Não tem nada de novo sobre isso. Vão ter muitas mais ao longo da guerra. O que quer que eu faça?
— Ele precisa de um médico!
— Então arranje um!
— Foram seus homens que o esfaquearam!
— E?
— É sua responsabilidade!
— O soldado moribundo é seu! Há quem diga que a responsabilidade é sua. Seja como for, não tenho nenhum médico para os seus homens, devia ter trazido um você mesmo. Não imaginou que alguns deles pudessem acabar se ferindo? Estamos indo pra guerra, garoto!
— Não esperava que fossem feridos por seus próprios aliados.
— Isso só mostra que é muito jovem. E ingênuo. Soldados brigam e se matam o tempo todo. Faria bem em lembrar disso.
— …
— Minha resposta permanece. Não tenho médico nenhum pra você ou seus homens. Sugiro que busque por um no vilarejo. Talvez ache algum curandeiro perdido por aí.
Siegfried já estava indo embora, quando o Barão Talmond fez um último comentário:
— Ah! E só um conselho, garoto. Não volte a cometer o erro de pensar que somos aliados. Eu reuni oitenta, sem mencionar os vinte que mandei com Brandon. Você trouxe vinte. E já perdeu um sem nem ao menos pisar no campo de batalha. Nós não somos iguais! Eu sou um vassalo do Conde Donoghan. Um de seus homens de confiança. Você é o senhor de um pântano qualquer e só está aqui porque o lorde Brandon ficou entediado de me esperar reunir os homens. Entre eu e você existe um abismo. Você não é nosso aliado. É só mais um soldado que recrutamos. Não se esqueça disso!
Ander morreu uma hora mais tarde.
Siegfried enviou alguns soldados em busca de um curandeiro no vilarejo, mas já haviam tentado isso na noite passada e, novamente, não encontraram ninguém disposto a ajudar.
Tudo o que puderam fazer foi anotar as suas últimas palavras. Um amigo prometeu cuidar da família dele e ficaram ao seu lado até que morresse. Uma cova rasa foi cavada e assim Siegfried perdeu o seu primeiro homem na vindoura guerra.
Chegaram ao Salão Hawk 49 dias depois.
♦
A viagem pelo condado de Donoghan foi longa e tediosa. Era um domínio vasto e despovoado, com poucos vilarejos e ainda menos estradas e trilhas.
As poucas comunidades que encontraram eram ruínas — algumas ainda quentes de ataques do último outono; outras, não mais do que uma lembrança de séculos passados. Seus moradores? Fantasmas e animais silvestres.
Vez ou outra encontravam alguma caravana de ciganos ou grupo de refugiados vindos do norte. Mas Brandon Donoghan estava com pressa e, por isso, ignoravam todos; exceto por algumas das mulheres refugiadas que se ofereceram para aquecer as camas dos soldados por uma noite em troca de comida — e foram embora muito mais gordinhas do que chegaram (de comida e outras coisas).
E assim a viagem seguiu.
Voltaram a encontrar mais refugiados, mais ciganos e mais ruínas depois disso. E quando finalmente chegaram ao Salão Hawk, descobriram que haviam sido os últimos.
— Lorde Brandon — disse a Baronesa Hawk; uma mulher elegante que já passava dos quarenta anos. Não era sedutora, mas tampouco via-se a idade pesar em seus ombros. — É bom vê-lo. Mas temo que o seu pai já tenha partido.
— Quando?
— Há duas semanas. Esperou pelo senhor por uma semana antes de partir, mas era necessário pôr os homens em marcha. Ele me pediu para lhe dizer que estará esperando pelo senhor no Castelo Essel.
Brandon não gostou nem um pouco da notícia. Amaldiçoou o pai, os homens e até mesmo o cavalo, mas a culpa pelo atraso era única e exclusivamente sua. O tempo que havia levado para encontrar o Castelo dos Ossos e retornar com Siegfried para o Salão Talmond havia sido, ironicamente, de duas semanas.
“Se não tivesse vindo atrás de mim, já teria se juntado à tropa e eu estaria em casa.”
Não que ele fosse admitir isso.
Brandon estava pronto para seguir viagem imediatamente; e teria feito isso, se o Barão Talmond e a Baronesa Hawk não o tivessem convencido de que os homens precisavam de algum descanso após uma jornada tão árdua.
— Mesmo se partirmos agora, ainda iremos levar duas semanas para encontrar o seu pai — explicou Klaus Tamond. — Além do mais, homens descansados andam mais rápido.
— Pois bem! Que seja! Partimos amanhã de manhã!

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