Índice de Capítulo

    Fernando, Lerona e Raul se apressaram, chegando ao bordel que visitaram no dia anterior o mais rápido que puderam.

    Na entrada, os guardas pareciam tê-los reconhecido, quando um deles acenou com a mão em direção à entrada.

    “Estávamos esperando por vocês, caros convidados.” O sujeito disse, forçando um sorriso no rosto, mas em seu olhar havia uma pitada de crueldade que não poderia ser escondida, fruto de anos trabalhando em um local de violência extrema.

    Os dois Capitães e o rapaz pálido se entreolharam por um momento, mas aceitaram o convite, seguindo o homem.

    “Então agora somos convidados? Isso é novo.” Raul falou, de forma insinuante, enquanto andavam pelo corredor, já que haviam pago por entradas VIP antes e não foram bem tratados dessa forma.

    “Normalmente não damos esse tratamento a qualquer um. Mas um ilustre investidor fez essa requisição.” O sujeito explicou de forma enfeitada. Era como se estivesse dizendo: ‘Não quero tratar lixo como vocês bem, mas sou obrigado a isso.’

    Ouvindo a resposta, Raul deu um leve sorriso, não incomodado com a grosseria disfarçada. Pelo contrário, sentiu que ser tratado com franqueza era melhor.

    Enquanto adentravam, Fernando e Lerona olharam em volta, procurando por possíveis rotas de fuga caso precisassem sair dali. O fato dos funcionários do bordel estarem ligados de alguma forma a Eterna Viajante era uma péssima notícia para eles e poderia dificultar suas vidas.

    Em pouco tempo o trio foi levado a uma sala exclusiva no piso superior. Ao chegarem lá, um sujeito baixinho, vestindo uma roupa semelhante a um terno, estava sentado em um sofá luxuoso, bebendo algo que parecia ser vinho. Ao seu lado, uma linda mulher, de uma fina máscara semi-transparente e olhos verdes, usando um vestido branco elegante, observou o grupo entrante com olhos nítidos e cheios de inteligência.

    “Estão atrasados!” A voz insatisfeita de Deran soou, cheia de má vontade. “Achei que tinham fugido. Estava me preparando para ir atrás de vocês.”

    Fernando olhou para o sujeito e sua ameaça direta, mas sua expressão era calma.

    “Por que precisaríamos fugir se marcamos uma reunião de negócios? Como eu havia dito, vocês têm algo que queremos.”

    Deran não parecia satisfeito com a fala do rapaz.

    “Para quem implorou pela vida, você realmente está atrevido, Fernando.”

    “Implorei? Eu não me lembro disso.” O jovem Tenente falou, de forma relaxada, sentando no sofá à frente dos dois, então olhou para a mesa cheia de alimentos. “Eu posso comer ou talvez você colocou alguma coisa nisso?”

    Estreitando os olhos, Deran claramente parecia irritado.

    “Não abuse da sorte.” disse, então olhou para o guarda que trouxe o trio. “Saia, nos deixe a sós.”

    “Mas senhor, o patrão disse…”

    “Saia!” repetiu, olhando para o homem com um olhar pesado e intimidador. O guarda não tentou argumentar, quando apenas recuou.

    Vendo isso, Raul sorriu, quando seguiu o exemplo de Fernando, sentando-se a seu lado.

    “Desculpem o atraso, a ruiva ali é bem demorada se arrumando.”

    Lerona, que usava uma armadura de couro e estava suada e com os cabelos levemente bagunçados por treinar até o último minuto, balançou a cabeça para a desculpa idiota. Ao contrário de Raul e Fernando, ela se manteve ao lado do sofá, de pé, como uma guarda-costas.

    Vendo isso, Deran e a mulher ao seu lado, olharam para isso, com aparente interesse.

    “Ela é meio tímida.” O Capitão moreno declarou.

    Ignorando as palavras dos dois, Fernando sentiu seu estômago roncar ao sentir o aroma da comida sobre a mesa, já que havia dormido por tantas horas seguidas após aprender o Corpo Tirânico ele estava cheio de fome. Além disso, havia gasto muita energia se regenerando durante o aprendizado, todo seu corpo pedia desesperadamente por nutrientes.

    Vendo os alimentos na mesa chamando-o, ele não hesitou, pegando algo que se assemelhava a um pão, mergulhou num molho verde e comeu. Sentindo o sabor picante em sua boca, assentiu, satisfeito.

    Lerona e Raul olharam para o jovem Tenente de forma estranha.

    Ele realmente comeu. Ambos pensaram, ao mesmo tempo.

    Depois de ser obrigado a beber uma Poção da Verdade e ter coisas colocadas em sua bebida, acreditaram que o rapaz estaria mais atento a envenenamentos, mas não parecia ser o caso.

    Mesmo Deran e a Eterna Viajante ficaram surpresos com as ações do rapaz.

    Logo o sujeito baixinho e de topete voltou-se em direção aos dois Capitães,

    “Então você é o Raul e você a Lerona, soube que queriam negociar. Não temos tempo a perder, então vão direto ao ponto. O que querem comprar de nós?”

    O sujeito moreno não respondeu imediatamente, quando se inclinou levemente para frente na direção da mulher, como forma de saudação.

    “É um prazer conhecer a Eterna Viajante.”

    Sendo ignorado dessa forma, o rosto de Deran ficou vermelho.

    “Não se dirija a ela, saiba seu lugar, insolente!” Ao falar até aí, um pesado mana se espalhou pela sala, pressionando o trio.

    Sentindo aquela força devastadora, o coração de Raul e Lerona dispararam. Não havia dúvidas, o sujeito não apenas tinha a força equivalente à de um Major, ele provavelmente era um Mago Avançado muito próximo de se tornar um Sênior!

    “Deran, pare com isso.” A Eterna Viajante finalmente falou. Sob as ordens da mulher, o sujeito baixinho rapidamente recolheu todo seu Mana. “Primeiro eu gostaria de ver aquilo. Se não tiver trazido, esqueçam sobre negociar.” falou, olhando diretamente para Raul

    O Capitão moreno franziu o cenho, sem entender ao que ela se referia. Ele havia reunido todas suas economias para essa negociação, mas se a mulher quisesse outra coisa que não fosse dinheiro, estaria de mãos atadas. Mas logo lembrou da conversa que teve com Fernando na tarde anterior e se virou para o rapaz, o encarando como se dissesse ‘mostre isso’.

    Fernando, que ainda mastigava o pão tranquilamente, ao reparar o Capitão moreno o olhando atentamente, moveu o pulso, recolhendo toda a comida sobre a mesa num único instante, sem qualquer vergonha. Então, no lugar dos alimentos, do seu lado da mesa, um pequeno, mas compacto cristal vermelho surgiu, sendo um pouco maior que uma maçã. Esse era um Cristal de Sangue de Delgnor!

    Ao ver o item, a Eterna Viajante e Deran arregalaram os olhos ao mesmo tempo, e logo olharam para o jovem Tenente com incredulidade.

    Esse patife! Ele estava com aquilo o tempo todo? perguntaram-se, sem acreditar na ousadia do rapaz em enganá-los.

    Enquanto o sujeito baixinho de topete parecia irritado, a mulher de olhos verdes não pôde deixar de esboçar, pela primeira vez, um leve sorriso.

    Quando Fernando alegou que possuíam um Cristal de Sangue de Delgnor, ele havia feito essa afirmação no plural, dando a entender que o grupo possuía. No entanto, na verdade, ele era o único que estava com aquilo o tempo todo!

    Esse menino é mais esperto do que parece. O que mais escondeu de mim? A Eterna Viajante perguntou-se, ao recordar-se de quais respostas o rapaz havia dado de forma ambígua.

    Mesmo Lerona e Raul sabendo que Fernando tinha tal item não conseguiram conter a expressão quando o viram sobre a mesa. Não por falta de confiança na palavra do rapaz, mas por ser um item raro de difícil acesso até mesmo para Generais.

    Deran logo se inclinou para pegar o Cristal, quando a mão de Raul interviu, parando-o.

    “Eu ainda não disse o que queremos.” declarou, com uma voz calma e confiante.

    “O que quer comprar de mim?” A mulher com a máscara perguntou, quando moveu seu fino pulso, passando sua palma sobre a mesa de madeira com delicadeza. Logo cinco itens surgiram. “Esses são os produtos de valor equivalente que possuo.”

    Sobre a grande mesa, havia um pergaminho, um pequeno frasco de vidro transparente com uma única e estranha folha laminada transparente dentro, um enorme globo ocular, um pequeno anel e um escudo maciço e adornado.

    Raul franziu a testa ao ver aqueles itens, pois claramente nenhum deles era o que procurava. Ele estava prestes a dizer isso, quando Fernando interviu.

    “O que são essas coisas?” perguntou, com um rosto calmo.

    Tsc! Deran não escondeu seu descontentamento ao estalar a língua.

    “Isso que dá negociar com um bando de ninguém.” Apesar de falar isso e estar com um péssimo humor, ao olhar para o Cristal de Sangue de Delgnor sentiu-se mais relaxado, pois poderiam obter um grande lucro com aquilo. Logo apontou para um dos itens. “Esse é um Pergaminho de Defesa Total. Ele está inscrito com uma poderosa Magia de Barreira de um Mago Sênior e é capaz de resistir completamente a um ataque total de até mesmo um General.”

    Fernando, Raul e até mesmo Lerona imediatamente arregalaram os olhos, cheios de choque. Um pergaminho que era capaz de resistir a um ataque de um General, era um trunfo que poderia salvar suas vidas ao lidarem com algum grande perigo. Isso não era diferente de ter uma segunda vida!

    Esse pergaminho era tão valioso que mesmo Generais o cobiçariam. Mesmo que parecesse inútil para alguém que já possuía a força de um General por se tratar de um item consumível que seria destruído após um único uso, não era realmente o caso. Ao estar com seu Mana esgotado, numa situação de vida ou morte, um General poderia usar isso de forma estratégica para alcançar a vitória.

    Apesar de surpreso, algo logo veio à mente de Fernando.

    Eu já vi pergaminhos antes, mas a maioria só armazena Magias de baixo nível como Bolas de Fogo, Rajadas de Vento, Magias de Reforço e similares. Cada um costuma variar de 30 a 50 moedas de prata. O que é absurdamente caro levando em conta que é um consumível de uso único. Mas se os simples já são tão caros, qual o valor dessa coisa?! pensou, logo entendendo o problema. Ele tinha uma estimativa do preço do seu Cristal de Sangue de Delgnor, mas não tinha tanta certeza, então resolveu confirmar algo.

    “Qual o preço médio disso?”

    Ouvindo uma pergunta tão idiota, Deran revirou os olhos.

    “Perguntando algo tão estúpido numa negociação. Eu poderia apenas mentir e superestimar o valor dos nossos produtos, já que você parece tão patético e desinformado, mas pelo menos quando negociamos, gostamos de honestidade, já que a reputação da Eterna Viajante está envolvida.” O sujeito falou, cheio de arrogância, o que apenas fez Fernando revirar os olhos.

    Honestidade? Você pretendia me matar e até pensou em nos saquear! pensou, verdadeiramente irritado.

    “Nada dessa mesa custa menos de 10 moedas de ouro, você pode conseguir até mais se vender para as pessoas certas. Assim como esse Cristal de Sangue de Delgnor que você trouxe. Obviamente, temos nossos contatos e podemos chegar a preços maiores, mas o valor base dos itens na mesa é esse.”

    Ouvindo isso, Fernando assentiu, pois o preço era exatamente como tinha estimado. Segundo o que Alfie e Wedsnagauer disseram, o preço médio em grama do Cristal de Delgnor girava em torno de 10 moedas de prata. Logo, 1kg deveria custar cerca de 10 moedas de ouro.

    Parece que, ao menos nisso, estão dizendo a verdade, pensou, enquanto analisava friamente Deran e a Eterna Viajante. Mas 10 moedas de ouro para algo que só pode ser usado uma única vez é realmente um gasto excessivo. Mesmo que seja algo que possa salvar sua vida, poucas pessoas estariam dispostas a pagar por isso.

    Enquanto o rapaz pensava nisso, os olhos de Lerona se arregalaram quando olhou para o jovem pálido como se estivesse olhando para um estranho. Ela sabia que o cristal era um item raro, mas não imaginava que teria todo esse valor.

    Raul também ficou ainda mais surpreso, por ser um Capitão focado no Sistema de Habilidades, ele sabia o quão bom e raro era carne de Delgnor e tudo que variava da mesma, mas não tinha noção do preço de mercado do Cristal de Sangue, ficando chocado com o alto valor.

    Como esse garoto conseguiu isso? Ambos se perguntaram ao mesmo tempo.

    Mesmo que um Tenente ganhasse em torno de 1 moeda de ouro por mês, raramente conseguia economizar tanto, já que os gastos eram contínuos. Além disso, fazia pouco tempo que Fernando havia sido promovido. Mesmo se ele não tivesse gasto uma única moeda de prata, ainda seria impossível ter acumulado tal riqueza para possuir algo assim.

    Logo, Lerona se lembrou do velho Mestre de Runas que estava no Batalhão Zero, acreditando que o mesmo deveria ter dado aquilo como presente para o jovem pálido por ter se tornado seu Aprendiz de Runas.

    Vendo as expressões dos dois Capitães, Deran não pôde evitar encher-se de prepotência.

    Esses caipiras nem sabem o valor disso, então como obtiveram tal item precioso? perguntou-se, olhando para o Cristal de Sangue de Delgnor. Então, um pensamento veio à sua mente ao lembrar-se de que Fernando, sob o efeito da Poção da Verdade, alegou que estavam relacionados a um Cavaleiro e um provável Grande Mago. Talvez eles sejam apenas peões e o verdadeiro mestre esteja escondido nas sombras?

    Ao chegar a essa conclusão, um arrepio passou por sua espinha.

    Merda, como eu fui idiota! É claro que é isso! Algum figurão não queria mostrar seu rosto, então usou algumas peças descartáveis. Se esse for o caso, devemos apenas vender o que esses caras querem e sair da cidade o mais rápido possível!

    “E o restante?” Nesse momento, Fernando perguntou, interrompendo os pensamentos de Deran.

    Com uma expressão mais amena, o sujeito baixinho de topete continuou com a explicação.

    “A seguir, no frasco, temos uma única folha de uma Árvore de Luz, um item extremamente escasso no mercado. Dizem que, se um Alquimista for capaz de prepará-la, isso ajudará um Mago com Disposição Elemental para a Luz, a ter seu Mana extremamente refinado, ao ponto de conseguir fazer até mesmo alguém com uma Disposição Ruim ou Média ser capaz de usar Mana Elemental.”

    Quando Lerona ouviu isso, todo o seu corpo tremeu.

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