Capítulo 680 - Altos Riscos
De repente, Fernando não pôde deixar de olhar na direção de Raul.
Esse cara… Ele vive me chamando de monstro, mas ele também não é um? pensou, enquanto analisava o risco do Corpo Tirânico, uma Habilidade só se tinha apenas uma única chance de aprender.
Indagando-se sobre a complexidade disso, lembrou que Raul havia desenvolvido o Corpo Tirânico por si próprio, sem depender das suas Veias de Mana Expandidas. Isso significava que o sujeito realmente estava disposto a morrer apenas para ter uma pequena chance de ficar mais forte!
Ao pensar sobre os riscos, o jovem Tenente manteve uma expressão calma.
Se fosse no passado, acho que eu não ousaria aprender uma Habilidade como essa, mas agora as coisas são diferentes!
Fernando sabia que, além de possuir os Passos Tirânicos, um pré-requisito para tornar o aprendizado da Habilidade ‘seguro’, ele possuía muitas outras armas que não tinha antigamente.
Diferente de quando aprendeu a Habilidade de Movimento, onde sequer conseguia sentir adequadamente o Mana ou seus músculos e explodiu suas próprias pernas acidentalmente, atualmente ele tinha suas Veias de Mana Expandidas que lhe permitiam controlar com extrema precisão seu próprio Mana, além do Disparo Neural, que lhe permitia usar seu sistema nervoso para sentir cada pequena parte do seu corpo além de aumentar grandemente sua velocidade de pensamentos. Ou seja, ele não precisaria se basear em tentativas e acertos, pois tinha tudo que precisava em mãos!
Disparo Neural! gritou em sua mente, ativando sua Habilidade com força total e assim que o fez, tudo ao seu redor pareceu ficar muitas vezes mais devagar, como se estivesse em câmera lenta. Mesmo a luta-treino de Raul e Lerona ao longe parecia ter quase parado.
O rapaz pálido logo focou-se nas partes internas de seu corpo. Cada respiração e inspiração eram como uma eternidade. Ele podia sentir com extrema precisão o ar correndo por suas vias aéreas, indo diretamente até seus pulmões, também podia sentir o sangue fluindo por seus vasos sanguíneos.
Ok, agora preciso seguir o fluxo de sangue até o coração. De repente, uma enorme dor de cabeça o atingiu, quando a extrema quantidade de informações chegando ao seu cérebro lhe causou náusea, confusão e até falta de ar, distraindo-o de seu objetivo. Merda! pensou, quando o Disparo Neural falhou, desativando-se por conta própria.
Apesar de já possuir essa Habilidade por um longo tempo e utilizá-la constantemente ao ponto de já a dominar com algum grau de perícia, usar dessa forma era algo totalmente diferente!
Normalmente, ele fazia uso do Disparo Neural para analisar o ambiente ao seu redor, ao mesmo tempo que usava isso para ter tempo de tomar decisões e reagir. Mas focar o Disparo Neural enquanto analisava o interior de seu próprio corpo era algo totalmente oposto a isso, com uma carga mental muito mais severa. A única vez que foi tão longe havia sido no momento em que precisou aprender a Habilidade. Desde então, se absteve de fazê-lo.
Todo o corpo funcionava como uma enorme máquina, cheia de seções que trabalhavam de forma independente, mas coordenadas. A quantidade de coisas acontecendo em todo lugar, com sangue fluindo, órgãos trabalhando, diafragma se contraindo e sinapses correndo de um ponto a outro por todos os lados, era um verdadeiro mar de dados. Quando o cérebro humano, acostumado a interpretar os sinais de forma parcialmente automática, ganhava consciência dessas informações de forma ativa, tudo virava um caos.
Espera! Eu não preciso focar em tudo, apenas no essencial! gritou mentalmente, quando resolveu mudar a abordagem e mais uma vez ativou o Disparo Neural ao máximo. Dessa vez, sua mente focou-se totalmente na região do seu peito esquerdo, na área onde ficava o coração, ignorando todo o resto.
Badum! Badum!
De repente, Fernando ouviu seus batimentos cardíacos e usou sua mente para seguir o som, finalmente tendo uma visão clara de seu coração e imediatamente isolou seus sentidos apenas naquela área de seu corpo.
Badum! Badum!
Olhando para aquele amontoado de carnes e músculos, do qual sua vida dependia, não pôde deixar de achar que aquilo era estranho. Observando o órgão se contraindo e expandindo rapidamente, enquanto enviava jatos contínuos e quase ininterruptos de sangue, ficou surpreso.
Atualmente, ele estava usando o Disparo Neural ao máximo e tudo deveria estar ocorrendo pelo menos três vezes mais devagar. Ao pensar nisso, resolveu contar os batimentos.
Badum! Badum! Badum!
Após um minuto exato, enquanto aproveitava esse tempo para se familiarizar com essa forma de uso, finalmente terminou de contar.
O que é isso? 200 batimentos por minuto? Isso não é muito? pensou, confuso. Pelo que havia lido uma vez, os bpm de uma pessoa normal giravam em torno de 60 a 100, mas os seus eram mais que o dobro do máximo!
Apesar de achar isso um pouco bizarro, não se preocupou, já que ele era um Usuário de Habilidades, provavelmente era normal que seus batimentos fossem muito mais altos que o de pessoas comuns. No lugar disso, focou-se no formato de seu próprio coração, tentando identificar cada parte.
Apesar de ter visto um pouco de anatomia quando mais novo em livros, ainda era difícil diferenciar desenhos ilustrativos da coisa real, já que tudo parecia um único emaranhado de músculos. Mas, mesmo com dificuldade, conseguiu se localizar, dividindo mentalmente as áreas conforme as descrições.
O caminho largo que sobe deve ser a Aorta Ascendente, a curva superior que se conecta a várias artérias, o Arco da Aorta e, após a curva, indo para baixo, a Aorta Descendente. Então, tudo que eu preciso fazer é concentrar o Mana nesses três pontos e explodi-lo, enquanto controlo a velocidade e potência, assim como nos Passos Tirânicos, pensou, achando tudo mais simples do que inicialmente havia imaginado.
De certa forma, Fernando achou esse processo vagamente similar ao uso da Magia Elétrica, só que muitas vezes menos complexo. Logo, de seu ponto de vista, sentia que era capaz de fazer isso.
Eu deveria tentar? pensou, quando abriu os olhos, olhando na direção de Raul e Lerona, que estavam ao longe. Havia alguma hesitação em sua expressão, perguntando-se se deveria fazê-lo diretamente ou consultar o Capitão moreno primeiro. No entanto, logo chegou a uma conclusão. Eu não posso continuar sendo um mimado que depende dos outros para tudo. O senhor Raul já me deu essa Habilidade incrível e fez um guia tão preciso, não posso pedir nada mais que isso. Se eu quiser percorrer o caminho de um Usuário de Habilidades, preciso pelo menos ser capaz de fazer algo assim por mim mesmo!
Após um breve instante, seu semblante ficou frio, tendo decidido fazer a primeira e talvez última tentativa de aprender o Corpo Tirânico. Se ele falhasse e morresse, que assim seja! Apenas significava que ele não era tão talentoso quanto os outros pensavam.
Bang!
“Ei, isso é tudo que você tem, ruiva?” Raul perguntou, de forma provocativa, em direção a Lerona, ao empurrá-la para trás mais uma vez, ao acertar seu torso com um chute.
A Capitã apenas o olhou com as sobrancelhas franzidas, enquanto recuperava o fôlego e analisava os diversos hematomas se formando em seu corpo após essa breve troca de golpes. Ela simplesmente não era capaz de revidar, por mais que se esforçasse.
“Eu realmente vou poder entrar no Sistema de Habilidades fazendo isso?” indagou, com alguma desconfiança. De seu ponto de vista, parecia que o sujeito apenas estava descontando suas frustrações nela devido a todas as discussões que tiveram no caminho até Yandou.
“Acho que isso depende mais de você do que de mim”, o sujeito moreno respondeu, com um sorriso largo.
Ouvindo isso, Lerona ficou pensativa e assentiu, quando atacou mais uma vez.
Swish! Bang!
Ela ergueu um chute alto, visando o rosto do Capitão, mas Raul apenas defendeu com seu braço, quando imediatamente contra-atacou com sua outra mão com extrema velocidade.
“Que tipo de Habilidade você planeja me ensinar primeiro?” A mulher perguntou, quando deu dois passos para trás, esquivando do soco, que passou a centímetros de seu nariz. “Talvez uma Habilidade de Defesa?”
“Não. Se esse fosse o caso, eu estaria te dando uma surra muito mais pesada”, o sujeito moreno respondeu casualmente, quando a perseguiu, dando mais uma série de socos, que foram habilmente esquivados ou defendidos. Vendo isso, um leve sorriso de canto de boca se abriu.
Mesmo sendo uma Maga, ela ainda é uma excelente lutadora de curto alcance, o esperado da Lança Boreal! elogiou, mentalmente.
Muitos Magos se acostumaram a se engajar em batalhas de curto alcance, a maioria simplesmente o fazia porque não possuía Magias poderosas o suficiente para confiar, ou porque não tinham tanto talento para o Sistema de Magia, mas outros Magos o fazem simplesmente porque gostavam de encarar o inimigo frente a frente.
Raul não tinha certeza sobre qual tipo de Maga Lerona era, mas sabia que ela certamente se tornaria uma boa Usuária se fosse capaz de adentrar no Sistema de Habilidades.
Swish!
Após a mulher desviar de mais um de seus socos, o Capitão moreno continuou:
“Normalmente, uma Habilidade de Constituição do tipo Defesa é a mais indicada para novatos. É simples e relativamente fácil de aprender. Porém, você não é uma novata comum”, disse, quando tentou dar uma rasteira surpresa ao varrer com sua perna direita, mas Lerona previu seu movimento quando agilmente recuou seu pé esquerdo para trás, alterando sua base de apoio, ganhando espaço e contra-atacando com um chute baixo, defendido por ele ao erguer sua outra perna. “Além disso, você é uma lanceira, alguém que depende principalmente de movimentos rápidos e reflexos afiados. No lugar de uma Habilidade focada em defesa, acredito que uma Habilidade de Movimento do tipo Agilidade seria melhor para o seu estilo de luta.”
Ouvindo isso, a mulher, com seus longos cabelos ruivos, que nesse momento estavam uma bagunça, ficou surpresa. Ela não pensou que o sujeito não só a ensinaria uma Habilidade, como até pensaria em quais eram mais adequadas para si.
Enquanto pensava nisso, Lerona olhou brevemente para trás do sujeito. Então viu Fernando, ao longe, e sua expressão mudou.
“Ei, aquilo… é normal?”
“Há? O quê?” Quando Raul se virou para acompanhar o olhar dela, desconfiado, acreditando que podia ser algum tipo de finta, mas assim que se virou, seus olhos se arregalaram. Ao longe, Fernando estava sentado no chão, de pernas cruzadas, enquanto seus olhos e nariz sangravam terrivelmente e todo seu corpo tremia, como se estivesse convulsionando. “Não! Aquele idiota, o que ele fez?!”

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