Ambos se aproximaram da pequena e duvidosa cidadela Submundo. Não importa para onde olhavam, não havia sequer um único ser humano socialmente aceitável neste lugar. O barulho de gritos e torcida da arena era alto, em algum canto, uma música alta tocava também. Sons de vidros se quebrando, brigas e todo tipo de coisa.

    “Bem, antes de qualquer coisa, Sam, viemos aqui pois você disse que conseguiríamos comprar armaduras por um bom preço, onde vamos encontrar armaduras aqui?” Kevin perguntou.

    Sam parou de caminhar e olhou para os lados.

    “Bem, eu não sei… os caras do bar da lua disseram que aqui tem uma loja assim, o dono dela é um tal de… Nioc. É, acho que é isso mesmo.”

    E então, ela se dirigiu para a direção de um grupo de homens que conversavam alto em uma mesa improvisada de sucatas, na frente de um estabelecimento que se parecia um bar. Fora o único lugar que parecia menos suspeito, e que poderia ter informações. O bar era velho e feito de grandes placas de metal, sucata, e até mesmo de pedra.

    Kevin olhou para Sam, com dúvida.

    “O que você vai fazer?”

    Sam olhou para ele e esticou seu braço na direção do grupo de homens, apontando o dedo para eles. Todos viram.

    “Vou perguntar para eles, ué.”

    Kevin bateu a mão na testa, impressionado com a falta de noção na garota, ela literalmente acabara de apontar o dedo para um grupo de homens mais velhos e claramente de procedência duvidosa, enquanto dizia algo que eles não conseguiam escutar.

    Sam rapidamente voltou a caminhar, Kevin foi logo atrás, apreensivo.

    O grupo de homens os olhou de cima a baixo, os intimidando com seus olhares. Todos eles claramente possuíam mais de quarenta anos, além de estarem equipados com trajes mecânicos e terem corpos fortes. A mistura de seus trajes com suas roupas, os faziam parecer uma espécie de grupo de cowboys cibernéticos.

    Sam acenou para eles, sorrindo gentilmente. Segurando a vontade de espirrar, pois estava sentindo um cheiro forte e ardente, mas não sabia do que se tratava, talvez fosse fusha.

    “Eai, rapazes! Tudo bem com vocês? Será que podem me ajudar com uma coisinha?”

    Um dos homens, o que estava no centro, que possuía longos cabelos castanhos tampados por um chapéu marrom, e um cavanhaque mal feito, lançou um olhar longo para os dois jovens, sua voz soou com rouquidão:

    “O que você quer?”

    Seu olhar era firme, frio, seus olhos eram âmbar, e havia um revólver grande e prateado na mesa, próximo de sua mão.

    Sam prosseguiu:

    “Sabe onde podemos encontrar um tal Nioc?”

    O homem ficou em silêncio, olhando para a direção de Sam com o olhar fixo, sem nem piscar os olhos.

    O silêncio permaneceu por vários segundos, no início, Sam e Kevin acharam que ele estava tentando os intimidar, ou que Sam não deveria ter feito essa pergunta ou falado esse nome em voz alta, qual crime eles cometeram?

    Mas se passaram muitos segundos de silêncio, e agora, parecia que ele…

    … Estava dormindo de olhos abertos.

    “Ei, cara, você está bem?” dizia Kevin, enquanto balançava sua mão na frente do rosto do homem.

    Os amigos dele, que estavam sentados ao seu lado, começaram a rir.

    “Haha! Desa vez ele conseguiu conversar até demais!”

    “Verdade! Bom, daqui uns cinco minutos ele deve voltar.”

    Kevin franziu a testa.

    “Cinco minutos?” perguntou.

    Um dos homens respondeu:

    “Sim, sim, fusha não é para os fracos, moleque! Hahaha!”

    O outro interrompeu, aprontando com seu dedo para o estabelecimento logo atrás deles.

    “Vocês estavam procurando por Nioc, certo? Entrem nesse bar, vão até o atendente, e cuspam no chão antes de cumprimentá-lo. O nome dele é Cassandro.”

    “Como é? Você está sacaneando a gente?” perguntou Kevin.

    “Claro que não, moleque otário! É apenas o código.”

    Sam deu de ombros e começou a andar em direção ao bar. Ela deu dois tapinhas no ombro do homem que os ajudou e seguiu.

    O homem se virou para ela.

    “Oh, você tem a mão pesada, mocinha, já pensou em ir para os ringues?”

    Sam parou e olhou para ele, logo em seguida, olhou para o ringue no centro do Submundo, onde várias pessoas gritavam, torciam e brigavam umas com as outras enquanto dois lutadores brigavam ao mesmo tempo.

    “Aquilo? Hm… me parece ser interessante. Vou dar uma olhada.”

    “É sério isso?” Perguntou Kevin.

    Sam pensou por mais alguns segundos…

    “Como eu faço para lutar lá?” perguntou.

    “Basta pagar dez salis para o organizador, e pronto. Você está dentro. A propósito, não tem restrições, é uma luta totalmente livre! Use a arma, armadura e magia que bem entender! O que importa é ganhar.”

    Os olhos de Sam brilharam.

    “Foda! Eu tenho que ir! Kevin, vamos procurar esse tal de Nioc logo, tem muita coisa interessante para se fazer aqui! Céus… como eu não conhecia este paraíso antes?”

    E entrou para dentro do bar. Kevin bufou e lançou um olhar sombrio para o homem.

    “Obrigado…”

    Porém, antes de seguir, ele se virou para trás e perguntou:

    “Por sinal, como funcionam as apostas do ringue? Se é que eles apostam…”

    O bêbado soltou uma risada.

    “Hahaha! Dessa idade, e já é interessado em apostas? Gostei de você, moleque! Enfim, perto da arena, há um dispositivo próprio para isso. Você escolhe em quem quer apostar, deposita quantos salis quiser, insere seu codinome, ou seu nome normal, e aí é só esperar. O prêmio é depositado na sua conta e dividido com os outros apostadores que acertaram, sacou?”

    Kevin assentiu, e sorriu para o homem bêbado.

    “Obrigado!… Qual seu nome mesmo?”

    “Me chame de…” ele parou de responder, e simplesmente travou.

    Parecia ter acontecido o mesmo que aconteceu com o primeiro nome que eles haviam conversado, que supostamente travou por efeitos da droga fusha.

    O outro bêbado soltou uma gargalhada:

    “Shishishi! Esse durou mais tempo que o Joseph!”

    Kevin apenas olhou com decepção e respirou fundo, e foi atrás de Sam, porém, logo ao entrar no bar, Kevin parou. Seu rosto fora tomado por uma expressão neutra, ele estava pensando.

    Sam notou o comportamento estranho e foi até ele.

    “Kevin?”

    Ele olhou para Sam.

    “Sam, procure pelo Nioc e dê uma boa olhada nos itens que ele vende, eu preciso fazer uma coisa antes.”

    “Ué, que coisa?” Sam perguntou.

    “É algo pessoal, enfim, você vai lutar na arena, não é? Eu te espero lá.” respondeu.

    “Claro que vou! Mas enfim, tá bom, boa sorte, em seja lá o que for fazer.”

    Kevin assentiu:

    “A sorte sempre está comigo, tchau, Sam.”

    “Tchau, Kel.”

    E então, Kevin se retirou do bar. Passou novamente pelo grupo de amigos bêbados ao lado de fora, em que dois estavam paralisados, e apenas um estava meramente lúcido.

    ‘Francamente, esses aí já estão se tornando um com a fusha…’

    E se dirigiu em direção ao centro.

    O interior do bar era escuro, fedia à suor, mofo e vários outros aromas malcheirosos misturados. Uma coisa que Sam notou desde que chegara em Automatuz, era o fato de que não eram vendidas bebidas alcoólicas, cigarros ou drogas pelas lojas oficiais da cidade.

    Na verdade, não se vendia muita coisa, comidas eram vendidas de todos os tipos, bebidas tá e também, com exceção das bebidas álcoolicas. Mas em Automatuz, não eram vendidos celulares, aparelhos eletrônicos, e vários outros itens do planeta da terra.

    Ao contrário de roupas, que eram vendidas de todos os tipos, e por que alguém iria querer vestir uma roupa comum ao invés de algo mais resistente como uma armadura?…

    Mas, o que mais intrigou Sam…

    Como diabos essas pessoas conseguiam bebidas alcoólicas? O cheiro não era parecido com nenhuma outra bebida que Sam conhecia, e a aparência delas era diferente. Elas eram fabricadas aqui? Como?

    E também, tinha a fusha. A misteriosa droga em que várias pessoas do submundo eram viciadas. Mas de onde ela surgiu? Bem, isso não importava muito agora….

    Sam passou pelo bar e se dirigiu até o balcão situado nos fundos. Vários homens a encaravam, uns com olhares de desconfiança, e outros com malícia. Esses, Sam encarava de volta, com uma expressão sombria.

    Porém, ela ficava constrangida ao ver certas pessoas no bar, este lugar era totalmente depravado e sem escrúpulos, nas cadeiras situadas nas paredes, estavam alguns homens com acompanhantes, e não parecia que nenhum deles tinha vergonha do que estavam fazendo… na verdade, parecia que ninguém lá dentro se importava também.

    Ela suspirou e evitou olhar, e finalmente chegou até o balcão. Lá, havia um senhor de aproximadamente cinquenta anos de idade, seus olhos eram caídos, sua expressão mal humorada e havia apenas alguns fios de cabelos castanhos nas laterais de sua cabeça, no topo tendo apenas alguns fios soltos.

    Sam abriu a boca para cumprimentar o atendente, mas se lembrou do ritual, então…

    Como ela estava encostada no balcão, ela deu um pulo e cuspiu do lado de dentro, quase nos pés do atendente.

    “Opa! Boa noite, Cassandro! Como vai a vida?”

    Ela não sabia se precisava falar algo a mais, o homem ao lado de fora apenas disse para cuspir e cumprimentar.

    O velho olhou para a garota por alguns segundos, com uma carranca em seu rosto. Então, apenas apontou com a cabeça para a porta logo atrás dele.

    “Entre alí, e não precisava cuspir nos meus pés, pirralha…”

    Sam assentiu e se curvou ligeiramente para agradecer.

    “Valeu, vovô!”

    E foi até a porta.

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