O soldado radiante abriu a fechadura da cela, e correu em direção ao corpo de Luke que, por sua vez, estava cada vez mais desesperado.

    Cada passo do soldado – por mais apressado que fosse – emitia um grande som na cabeça de Luke. Cada passo era como um eco infinito e perturbador, que ficava cada vez mais alto…

    E então, o homem finalmente chegou ao corpo do garoto. Ele se ajoelhou e o encarou por alguns segundos, perplexo.

    “Mas o que?… Como?! Quem fez isso?”

    Ele colocou as mãos na cabeça e olhou para os lados, logo em seguida, se aproximou mais de Luke, e tocou em seu ombro afim de empurrá-lo para o lado.

    Era como ver uma pobre lebre caindo em uma armadilha…

    E então, quando ele finalmente virou o corpo de Luke para cima. O garoto fechou os olhos e segurou firmemente o cabo da presa negra escondida debaixo de sua mão, que estava nas sombras.

    “Eu sinto muito!”

    E cravou a lâmina no pescoço do soldado.

    Ele sentiu ela rasgar o tecido de sua gola alta, cortando a pele do homem e, ao mesmo tempo, perfurando sua carne. A lâmina parou quando encostou em algo duro e resistente, provavelmente o osso.

    Tudo ficou em silêncio…

    Tudo ficou vermelho.

    Luke abriu os olhos lentamente, e viu o olhar perplexo do soldado o encarando de volta…. Era um homem adulto, cerca de quarenta anos, possuía um bigode volumoso, seus olhos eram castanhos e sua pele parda.

    Sangue começou a jorrar de seu pescoço…

    Luke rapidamente colocou sua mão na boca do soldado, para tampá-la e impedir que qualquer barulho saísse dela. Seu coração estava disparado, ele não conseguia tirar seus olhos dos olhos do homem que perdia sua vida aos poucos.

    O homem, por sua vez, nem tentou gritar. Sua boca estava cheia de sangue, que vazava pelas frestas dos dedos de Luke e caiam em seu rosto, e não demorou muito para que o soldado vomitasse um coágulo que acabou manchando todo o rosto do garoto com sangue, muco e o que pareciam resquícios de alimentos.

    Por fim, ele caiu. Seu corpo por cima de Luke, que estava com o semblante travado em desespero. Luke sentiu umidade escorrendo pelas pernas do homem, e mais respingos de sangue manchando seu corpo.

    O sangue escorria cada vez mais… um odor metálico acompanhado do cheiro de urina e fezes tomou conta da cela, e Luke, ainda sentado, se arrastou apressadamente para trás e se apoiou na parede. Sua respiração acelerada, seu rosto traumatizado. E ele não conseguia tirar os olhos dos olhos ainda abertos do homem que acabara de matar.

    Ele abriu a boca para tentar falar alguma coisa, mas o nó em sua garganta não permitia.

    E após alguns segundos, ele simplesmente vomitou no chão. E começou a chorar descontroladamente, agarrando e puxando seus cabelos com força, enquanto seus olhos tremiam e seus dentes pressionavam seus lábios, a ponto de fazê-los sangrar.

    “Não! Não! Não! Eu não queria…”

    Suas palavras foram interrompidas pelo choro novamente. Ele cravou as unhas em sua cabeça e começou a balançá-la intensamente. Não importava para onde ele olhasse, havia morte, e sangue. Quando seus olhos estavam abertos, ele via sua vítima, e quando seus olhos se fechavam, ele via sua mãe.

    ‘NÃO! CHEGA! EU NÃO QUERO VER, EU NÃO QUERO VER!’

    Ele não sentia nada além de medo, arrependimento, e nojo de si mesmo. Sua vontade, nesse momento, era arrancar seus próprios olhos e suas mãos. Ele sentia-se envergonhado por isso, e se sua mãe tivesse visto o que acabara de fazer?

    E então, ele se lembrou de mais um rosto…

    … O rosto do homem que tirou a vida dela.

    “Não, não, você não! Eu não sou igual a você! Não sou!”

    Ele vomitou novamente, estava ficando fraco, quase apagando. E então, começou a ir na direção do soldado, ele caminhava de joelhos, manchando seu traje com seu próprio vômito e sangue no chão.

    Quando chegou ao homem morto, Luke o encarou por alguns segundos enquanto segurava seu rosto. Ele não conseguia parar de chorar, e também não conseguia evitar olhar nos olhos do homem que ainda estavam abertos.

    “E-eu sinto muito… eu sinto muito!”

    E então, ele abraçou o cadáver enquanto abafava seus gritos nele. Depois, colocou a cabeça do homem de volta no chão, e fechou seus olhos.

    Ele também era um homem com um sonho?… E se ele tivesse família? Alguém que estivesse o esperando, ou que nunca deixou de procurá-lo desde que fora abduzido à sabe-se lá quanto tempo?

    Qual era o nome dele? Quantos anos ele tinha? E se ele não fosse uma pessoa ruim?…

    Luke sentou-se no chão, sem ligar para os fluidos, ele apoiou os cotovelos no joelho e colocou suas mãos em seu rosto.

    “Eu… eu matei… eu matei alguém.”

    Ele rangeu os dentes e olhou para a situação deplorável do cadáver. E então, se lembrou novamente de sua mãe.

    “Eu sinto muito, eu sinto muito…”

    Luke passou mais alguns minutos tentando se acalmar e esperando o desespero passar. Chegou em um ponto em que ele estava sem energia para continuar chorando. E apenas dava alguns soluços.

    Ele se lembrou de um exercício de respiração que Clara o ensinou para se acalmar. Ele puxava o ar pelo nariz por seis segundos, segurava por quatro segundos, e soltava o ar pela boca por cinco segundos.

    Ele fez o exercício inúmeras vezes, e após alguns minutos, o desespero descontrolado havia ido embora, mas é claro, o sentimento horrível ainda estava lá.

    Ele se levantou e voltou ao corpo do homem, e levou sua mão até a orelha do cadáver.

    “C-com licença…”

    E retirou seu DPJ com muito cuidado.

    Após limpar o sangue do dispositivo, Luke o inseriu em seu ouvido. Ele sabia que demoraria cerca de dez segundos para que o DPJ se ajustasse à ele. Então, ele passou esses dez segundos olhando ao redor…

    Sangue, vômito, urina, um cadáver… era, sem dúvidas, uma cena horrível. O garoto não pode evitar de sentir outro enjôo. Porém, em seu estômago não havia mais nada para ser expelido.

    O som de três bips alertou Luke que o DPJ havia se conectado à ele. Então, ele respirou fundo e deu dois toques rápidos para invocar seu painel.

    Olá, Zero!

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