Uma dama de branco, nossa cara Pionla, entra no bar. Suas mãos se fecham de raiva, já que, sem magia, não poderia criar dinheiro para comprar algo para seu plano.

    Ela sorri ao ver um homem bêbado e se aproxima, sentando-se ao lado dele.

    — Como vai, querido? — ela sorri tranquila, enquanto seu rosto se aproxima do dele. — O que traz um senhor tão belo aqui? — ela passa a ponta do dedo pela borda do copo dele.

    — Olá… gracinha… o que um ros…to tão bonito anda fazendo por aqui? — a voz dele era lenta, se prendendo nas palavras, com o cheiro forte da bebida. — Quer uma bebida doc…inho?

    — Na real, eu quero sim. Se puder ser álcool puro, seria ótimo — ela chega mais perto, com a voz gentil.

    — Tem cert…eza? Não é algo norm…al para garotas… — ele solta um soluço. — Mas… se é isso que vo…cê quer… então tudo bem.

    Ele chama o garçom, e Pionla cobre o rosto com o chapéu, já que ser reconhecida agora não era a melhor ideia. Após a garrafa chegar, ela pega.

    — Já volto, amorzinho… vou só preparar uma coisinha para você.

    Pionla sai do bar e faz uma careta de desgosto por ter entrado naquele lugar.

    — Agora… onde eu acho fogo?

    Ela anda pelas sombras e vai até um beco, onde há um barril queimando e sumindo em pixel. Havia palitos e restos de comida por perto.

    — Que boa sorte a minha.

    Pionla usa a tesoura para cortar um pedaço do vestido e, com tudo isso, improvisa um coquetel molotov.

    — Vou precisar ser rápida… 3… 2… 1…

    Ela coloca fogo na ponta do pano, corre até os cartazes de procurado e joga.

    Usa o chapéu para não ser vista pelas câmeras dos jornais, que já estavam por todo lugar. Um escândalo pronto para ser noticiado.

    Mas ainda não havia acabado.

    Ela rouba um dos celulares das pessoas que estavam se aglomerando e entra em uma lojinha. A lojista não estava — foi ver o caos lá fora.

    Pionla vê os fios da Opala tentando impedir o fogo e sorri. Liga o celular, tenta fazer uma ligação — não dá certo. Então manda uma mensagem:

    — Rua 42, no centro, em uma lojinha de roupas “Moda para impressionar”. Não sei se terei outra chance de comunicar assim.

    Ela desliga e joga o celular no chão, perfurando-o com a tesoura.

    Alguém entra pela porta dos fundos e vê Pionla destruindo o aparelho.

    — P… Pi… Pionla… — a lojista começa a tremer. — Por favor, não destrua Simulacrum… eu tenho família.

    — E quem falou que eu quero destruir Simulacrum? Foi a Opala? — Pionla responde. — Sim, fiz coisas erradas, mas eu quero salvar o país cenográfico, não destruir Simulacrum.

    — Bem… eu vi isso… está em todo lugar… é estranho algo tão de repente… — ela olha para as roupas. — Se o que diz é verdade, você não veio aqui à toa… precisa de roupas mais tradicionais daqui, não é?

    — Não estou mentindo… e saiba que não vamos apagar esse lugar. Vamos resolver a energia antes de pegar o artefato, ok? — ela olha as roupas brilhantes. — Mas sim… vou precisar disso. Não tenho dinheiro agora, mas, quando resolvermos tudo, eu volto e pago o que quiser.

    — Certo, vamos ver o que dá para fazer — ela se aproxima e começa a levar Pionla para uma área onde ela poderia trocar de roupa.

    Várias roupas são jogadas por cima. Pionla pega algumas, e elas se fundem com as que já estavam, ficando bem mais eletrônica. As roupas mudam, mas não o sentido.

    Seu chapéu se manteve mudando levemente, mas o vestido mudou quase por completo.

    — O que acha dessa? — Pionla sai do trocador.

    A lojista derruba as roupas que estava segurando.

    — Você tá… maravilhosa. Eu nunca vi roupas combinarem em alguém assim… parece que sempre foram suas.

    Ela se abaixa e começa a juntar as roupas no chão.

    — Só preciso fazer uma última mudança — Pionla pega a tesoura e mexe nos panos da própria roupa, dando a ela uma textura de pixel. — Agora tá tudo combinando.

    Ela se olha no espelho, se admirando e fazendo pose.

    — Você parece agora com alguém daqui. Espero que minha humilde loja possa ter te ajudado — a lojista sorri de longe.

    — Ajudou muito. Pode me dar um nome para eu guardar quando voltar? — Pionla pergunta calmamente.

    — Hei… parece bobo, mas…

    — É um lindo nome. Vou me lembrar, Hei — Pionla interrompe, sem maldade. — Se importa se eu passar um tempo aqui? Tô esperando alguns amigos.

    — Acho que não me importo… mas é bom você ficar no estoque. Mesmo com essa roupa, você não fica indetectável para as autoridades, e eles estão loucos atrás de vocês — Hei diz, preocupada.

    — Valeu, sério, muito obrigada.

    Pionla é levada até o estoque, perto de algumas caixas no fundo.

    — Se você vir um cara com uma coroa na cabeça, uma mulher com uma rosa no rosto ou uma coelha com um vestido rasgado… são eles.

    — Acho que entendi. Vou avisar se vir qualquer coisa do tipo.

    Hei volta para a frente da loja, deixando Pionla sozinha com seus pensamentos.

    — E agora… o que você faria, mãe?

    Ela fecha os olhos, tentando lembrar de algo positivo.

    — Mamãe… mamãe…

    Era uma voz tão inocente, sem o peso que carrega hoje.

    — Pionla, aí está você. Eu e seu irmão estávamos te procurando.

    A voz… de alguém muito amada. De alguém que não está mais ali.

    — Tô com sono, mamãe…

    Pionla estica os bracinhos, e a mãe a pega no colo com carinho.

    — Tá bom, querida. Então é hora de dormir.

    Ela leva a pequena peão até a cama, onde Bauvalier já dormia na outra.

    — Quer ouvir uma história antes de dormir?

    — SIM!

    — Certo… era uma vez dois peões, um branco e outro preto.

    Os dois eram heróis muito poderosos, mas, infelizmente, um dia perderam. E com isso, se afastaram.

    Mas perceberam que, separados, eram mais fracos.

    Então uma rainha muito gentil juntou os dois novamente e deu a eles um grande poder.

    E, no final… eles venceram.

    — Essa história é sobre nós?

    — Talvez, querida.

    — Mas e se isso acontecer comigo e com o Bauvalier?

    — É só me chamar.

    — E se você não estiver aqui?

    — Então você vai encontrar a resposta no passado… onde eu já estive.

    — Não entendi… mas acho que não é para eu entender agora.

    — Exatamente. Mas não se preocupe… eu sempre estarei aqui, querida. Ao lado dos meus dois bebês. Boa noite, minha flor.

    Ela dá um beijo na testa dela.

    — Até amanhã, mamãe… eu te amo.

    Os olhos da pequena se fecham.

    Os de Pionla se abrem… cheios de lágrimas.

    — Mãe… eu queria você aqui… me dizendo como salvar seu reino… como arrumar toda essa bagunça que eu fiz…

    Ela segura a tesoura com força.

    — Desculpa, mãe… eu não sei como vou ser uma rainha como você foi… se eu nem consigo usar meus poderes nessa terra…

    Ela respira fundo, sozinha no estoque.

    — Não sei por que tudo está acontecendo assim… mas eu sei que você acreditava que eu e Bauvalier somos fortes o suficiente pra vencer qualquer coisa…

    Ela dá uma leve risada, cansada.

    — Ou talvez eu só esteja ficando maluca… sozinha numa loja… numa cidade onde estão caçando a gente… acho que prefiro acreditar na primeira opção… haha…

    O som da sua própria voz ecoa no peito.

    Sozinha… ela parece mais alto do que deveria.

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