Sardenha, Nação dos Três Ventos.
    (Antiga Itália.)

    10/05/2016
    09:32 AM
    Clima: Nublado

    O céu parecia mais baixo sobre a Rodovia SS 291, na Sardenha. Naquela manhã de maio, a Nação dos Três Ventos — como a antiga Itália passara a ser chamada por alguns — não correspondia à sua fama de refúgio ensolarado. Nuvens densas e opacas cobriam completamente o sol, filtrando a luz e deixando o ambiente com um tom frio e apagado. O asfalto úmido refletia essa luminosidade difusa de forma irregular, enquanto o vento soprava em rajadas intermitentes, trazendo o cheiro salgado do Mediterrâneo misturado aos gases dos escapamentos dos inúmeros veículos presos no engarrafamento.

    No interior da cabine do motorhome, o ambiente parecia isolado do ritmo externo. O veículo, robusto e adaptado tanto para transporte quanto para funcionar como uma cozinha profissional itinerante, mantinha um cheiro constante de ervas secas, café já preparado há horas e o leve odor metálico de utensílios utilizados com frequência. Bruno e Emma Rossi ocupavam os bancos dianteiros, representando estados opostos naquele momento de paralisação.

    Bruno, de estatura média e pele parda, mantinha um corte militar que destacava a estrutura firme de seu rosto e seus cabelos escuros. Ele permanecia completamente alheio ao que acontecia do lado de fora, mergulhado em um sono profundo. No banco do passageiro, seu corpo estava relaxado, a cabeça inclinada para o lado e as mãos entrelaçadas sobre o colo, evidenciando o cansaço acumulado.

    Ao volante, Emma Rossi demonstrava o oposto. Seu corpo permanecia tenso, com movimentos contidos que denunciavam sua impaciência. Seus olhos percorriam o cenário à frente de forma constante, enquanto seus dedos tamborilavam no volante em um ritmo irregular. No compartimento de carga, atrás deles, o som ocasional de utensílios se chocando reforçava a sensação de tempo perdido e a pressão sobre o trabalho que ainda precisava ser entregue.

    De repente, o ambiente mudou. Um som mecânico grave atravessou as nuvens, rompendo o padrão constante do lugar. Um helicóptero de ataque surgiu em baixa altitude, seu corpo cinza se misturando ao céu nublado. O deslocamento de ar causado pelas hélices fez com que árvores ao longo da estrada se inclinassem, enquanto, dentro do veículo, a vibração era sentida com clareza. O líquido no copo sobre o console tremia de forma visível.

    — Será que é um teste militar? — indagou a si mesma em um sussurro, a voz quase abafada pelo som das turbinas. Ela acompanhou o trajeto da aeronave com o olhar até que desaparecesse no horizonte. Um leve arrepio percorreu sua espinha, antecipando algo que ainda não conseguia definir.

    Enquanto isso, Bruno permanecia imerso em seu sonho. Em sua mente, não havia estrada nem trânsito, apenas um espaço amplo e indefinido, onde ele se via suspenso sem referência de direção. A ausência de limites criava uma sensação estranha, mas ao mesmo tempo havia uma calma incomum naquele ambiente.

    Essa sensação foi interrompida de forma brusca. Uma presença passou a ser percebida, trazendo consigo a sensação clara de estar sendo observado. O espaço ao redor parecia mais denso, dificultando qualquer movimento. Uma mão formada por uma luz intensa tocou seu ombro, e uma voz começou a se manifestar diretamente em sua mente, emitindo palavras incompreensíveis, mas carregadas de urgência. Ao tentar reagir, tudo foi tomado por uma claridade absoluta, encerrando o sonho de forma repentina.

    — Hmm? — Bruno abriu os olhos de forma repentina. Sua visão ainda estava desfocada, tentando se ajustar ao interior da cabine. O ar quente e carregado preencheu seus pulmões, trazendo-o de volta à realidade de forma abrupta.

    Ele moveu o pescoço lentamente, ouvindo os estalos das articulações, e então olhou ao redor com atenção. Seus sentidos ainda estavam alterados, como se tentassem identificar uma ameaça. Seus olhos se fixaram em Emma, e ele permaneceu encarando-a por alguns segundos, ainda processando o que havia acontecido.

    — O quê? — Emma reagiu ao olhar do irmão com estranhamento, mantendo as mãos no volante. — Por que está me olhando assim?

    — Não é nada, só… tive um sonho esquisito — explicou ele, ainda com a voz carregada de sono. Ele se espreguiçou e voltou sua atenção para a estrada. — Um sonho muito real.

    — Ué, que sonho? — Emma perguntou, permitindo-se um breve desvio de atenção. Ela cruzou os braços, demonstrando interesse. — Deixe-me adivinhar: você era um chef famoso ou estava ganhando na loteria?

    — Não sei… não era nada disso. Era um lugar esquisito, sem chão nem teto. E tinha um cara lá, ou algo que parecia um cara. Ele era… pura luz. Parecia que ele estava me dizendo alguma merda importante, algo que eu precisava saber, e aí eu acordei bem na hora. — Bruno tentou organizar a lembrança, mas a sensação ainda era mais forte do que os detalhes.

    Emma soltou um suspiro curto e voltou a atenção ao retrovisor. — Olha, Bruno, você está estressado. O trabalho na cozinha tem sido pesado, estamos dirigindo há horas e você ainda está possesso por ter perdido o celular na última parada de conveniência. O cérebro faz essas coisas quando quer desligar. É só um sonho, nada mais.

    — É, eu sei lá… talvez você tenha razão. — Bruno abriu a janela levemente, permitindo a entrada de ar externo. — Só sei que essa porra me deixou meio perturbado. É como se eu não devesse estar aqui.

    — E quem não é perturbado hoje em dia? — Emma respondeu, voltando sua atenção para o trânsito. — Olhe para isso! Estamos no meio do nada, no dia de maior movimento para as entregas, e esses idiotas decidem parar tudo. O mundo está desabando e nós estamos aqui, parados como estátuas. Isso sim é uma perturbação de verdade, caralho!

    — Tá, tá… eu entendi o recado. Só tenta não descontar no carro, ele não tem culpa da logística da ilha — respondeu Bruno, tentando manter a calma. Ele fechou os olhos por um instante, mas a lembrança do sonho o fez despertar novamente.

    Foi então que o cenário começou a mudar. No horizonte, entre os veículos parados, figuras começaram a se formar. Soldados equipados com armamento completo avançavam entre os carros, abordando motoristas e coletando documentos. Seus movimentos eram coordenados, e a presença deles alterou imediatamente o clima do local.

    — Ei, Emma… olha lá. O que você acha que está rolando? — Bruno indicou a movimentação à frente, agora completamente desperto.

    Emma estreitou os olhos, tentando identificar melhor a situação. — Eu não sei, mas não parece ser um bloqueio de rotina. Quando você estava apagado, aquele helicóptero que passou… era um helicóptero de combate, Bruno. Não um de resgate. Eu acho que está acontecendo algo muito maior do que um simples acidente na pista.

    — Algo maior tipo o quê? — Bruno recuou levemente, observando o comportamento das pessoas ao redor, que demonstravam sinais claros de medo.

    Antes que Emma pudesse responder, um dos soldados se destacou e começou a caminhar em direção ao motorhome. Sua postura era firme, com a mão posicionada próxima ao armamento, indicando preparo para qualquer reação.

    Emma respirou fundo, tentando manter o controle, enquanto Bruno ajustava sua postura no banco. A tensão dentro do veículo aumentava conforme o soldado se aproximava, deixando claro que aquele momento marcaria o início de algo maior.

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