Capítulo 21
O palmo direito de Eleonor elevou-se de forma sutil, quase delicada, enquanto seus dedos indicador e médio permaneciam eretos em um movimento preciso de cortar o ar para a direita, como se estivesse deslizando a própria estrutura daquela memória para além do que era visível. A ação não era apenas simbólica; refletia diretamente no cenário ao redor, fazendo com que a imagem da família Rossi começasse a se desfazer em fragmentos luminosos, perdendo forma pouco a pouco até ser completamente consumida.
De repente, Eleonor já não estava mais diante daquela lembrança.
O ambiente ao seu redor havia mudado por completo.
Ela agora se encontrava em um espaço aparentemente infinito, tomado por uma coloração branca intensa e brilhante que se estendia em todas as direções sem qualquer limite visível, como uma sala paralela construída dentro da própria psique de Bruno. Não havia céu, chão ou horizonte claramente definidos — apenas aquela vastidão silenciosa e uniforme, onde o próprio conceito de distância parecia distorcido, era um lugar sem presença física real.
— Não consigo achar nada relevante… — murmurou Eleonor, mantendo o olhar atento enquanto as memórias de Bruno continuavam passando diante dela de forma linear e contínua, como um vídeo antigo reproduzido em uma fita cassete, avançando sem interrupções através de diferentes fases de sua vida. As cenas surgiam uma após a outra naquele espaço branco infinito, conectadas por uma progressão natural que revelava pequenos fragmentos do cotidiano, conversas simples, momentos familiares, rotinas escolares e experiências comuns que, até então, não apresentavam qualquer elemento capaz de justificar o que Bruno havia se tornado.
A Casa das Memórias de Eleonor era uma Arte Esotérica capaz de separar a mente de qualquer alvo alcançado dentro de uma área de até quinze metros, criando uma ruptura temporária entre consciência e realidade física, permitindo que ela acessasse diretamente a psique daqueles que tocava. Dentro desse estado, Eleonor recebia liberdade total para atravessar as memórias do indivíduo, presenciando sua história de forma linear e profunda, desde acontecimentos superficiais até experiências que moldaram sua essência, como se percorresse toda a trajetória daquela pessoa por dentro da própria mente dela.
Eleonor avançava de memória em memória através das diversas vivências de Bruno, atravessando anos inteiros de sua trajetória enquanto as cenas se desenrolavam diante dela naquele vazio branco da Casa das Memórias, chegando gradualmente até os acontecimentos mais recentes, próximos da data presente. Ainda assim, conforme aprofundava sua análise, uma conclusão começava a se consolidar de forma cada vez mais desconfortável: não havia nada extraordinário ali.
Bruno não havia sido moldado como uma arma, nem criado dentro de algum contexto absurdo que explicasse naturalmente o nascimento de um safira. Sua vida era composta majoritariamente por experiências comuns, perdas humanas, frustrações normais e dificuldades que, embora dolorosas, ainda pertenciam à realidade ordinária de milhares de pessoas, tudo indicava que Bruno estava ali por mero acaso do destino.
Como se algo adormecido dentro dele simplesmente tivesse escolhido despertar naquele momento específico, sem linhagem aparente, sem preparação e sem qualquer aviso prévio, transformando um homem comum em uma anomalia capaz de alterar completamente o rumo daquela guerra, e Eleonor sabia disso momentos antes de presenciar seu renascimento.
Do lado de fora daquele jogo mental, o campo de batalha havia se transformado em um cenário tomado por movimentação constante, onde o silêncio pesado que antes dominava a rodovia fora substituído por uma operação em larga escala. Helicópteros táticos sobrevoavam a região em altitudes diferentes, suas hélices cortando o ar enquanto mantinham vigilância sobre o epicentro da destruição, ao mesmo tempo em que aeronaves da imprensa circulavam mais afastadas, registrando imagens daquele desastre que já começava a se espalhar pelos noticiários.
No solo, o perímetro era dividido entre diferentes forças. Policiais organizavam barreiras improvisadas e afastavam civis curiosos que tentavam se aproximar da área isolada, enquanto equipes médicas atravessavam os destroços em busca de sobreviventes entre ferragens e crateras abertas no asfalto. Bombeiros trabalhavam em múltiplos focos simultaneamente, combatendo incêndios menores e removendo estruturas instáveis que ameaçavam desabar de vez sobre os veículos destruídos.
Sirenes ecoavam de diferentes pontos da rodovia, rádios chiavam sem parar e ordens eram gritadas por cima do som dos motores e das hélices, criando uma sensação constante de urgência. E, no centro de toda aquela operação, permaneciam Bruno e Eleonor, completamente imóveis em meio aos destroços, cercados por soldados e blindados que mantinham distância segura, como se todos ali soubessem, mesmo sem compreender totalmente, que qualquer interferência errada poderia transformar aquela calmaria momentânea em outra catástrofe.
Muito distante da Rodovia SS 291, em uma região isolada da costa italiana onde o céu permanecia limpo apesar do caos espalhado pelo restante do país, um comboio aéreo militar avançava pelos céus em formação rígida, cortando as nuvens com o peso e o ruído constante de suas hélices. Dentro da aeronave principal, o ambiente era tomado por tensão operacional; soldados armados permaneciam sentados lado a lado, presos aos bancos metálicos enquanto acompanhavam relatórios em tempo real através de telas improvisadas e transmissões fragmentadas vindas da Sardenha.
No centro daquele espaço estava Rache, um homem de presença esmagadora mesmo em silêncio, vestindo um longo casaco escuro parcialmente aberto sobre o uniforme tático, enquanto observava as imagens da rodovia destruída projetadas em um monitor preso à parede da aeronave. Seus olhos não demonstravam choque diante da devastação, apenas cálculo, como alguém acostumado a tratar tragédias como variáveis estratégicas.
Ao lado oposto da cabine, Rarenzzy mantinha os braços cruzados, a postura rígida enquanto escutava os relatórios transmitidos pela frequência militar. Diferente de Rache, sua expressão carregava irritação visível, principalmente ao ouvir pela terceira vez consecutiva a confirmação do nascimento de um safira.
— Então não era o Rover. — murmurou Rarenzzy, desviando o olhar para a tela onde o feixe azul ainda aparecia registrado em múltiplos ângulos de satélite. — Um civil comum desperta bem no meio de uma operação francesa… que timing desgraçado.
Um dos operadores virou-se rapidamente para os dois ao receber uma atualização diretamente da central de inteligência.
— Senhor, a Cigana utilizou a Casa das Memórias no alvo e o campo de batalha entrou em contenção parcial. A imprensa já isolou parte da rodovia e o vazamento das imagens é inevitável.
Rache soltou um suspiro baixo pelo nariz, mantendo o olhar fixo nas imagens enquanto apoiava dois dedos contra o próprio maxilar.
— Então já era. — disse de forma seca. — O mundo inteiro vai saber que outro safira nasceu.
Por alguns segundos, apenas o som das hélices preencheu a cabine.
Então Rarenzzy voltou a falar.
— O problema não é só isso. — Sua voz saiu mais pesada agora. — O problema é o lugar onde ele nasceu.
Ele apontou para o monitor.
— Um civil italiano desperta um poder dessa magnitude durante um ataque francês em uma rota militar estratégica… isso não vai ser tratado como coincidência. Vai virar argumento político.

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