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Capítulo 199 — Mais um Contratempo
Os telespectadores, mais entusiasmados do que nunca, alternavam os olhos entre os telões e as copas das árvores na arena, tentando localizar os príncipes de Lyberion. O boato de que eles haviam provocado a Besta Mítica para uma
perseguição suicida já corria pelas arquibancadas.
Sue, a locutora, mantinha o fervor da multidão no ápice. Sua voz, amplificada por magia, ecoava em cada canto do estádio:
— A THUNDERBLADE DERROTOU A CRIANÇA DAS SETE SOMBRAS! — anunciou ela, eufórica. —
Redgar caiu! Enquanto isso, o restante dos desafiados fechou o cerco contra o grupo de Marco e Isaac! Mas atenção: o pelotão de Tály já se movimenta pela floresta. Parece que ela percebeu que seus companheiros estão em maus lençóis!
Sue percorreu a arena com o olhar do alto de seu palanque flutuante, localizando o rastro de destruição deixado pelos irmãos.
— E para aqueles que querem saber o destino dos príncipes, esta é para vocês!
Ela fez uma pausa dramática, sentindo o silêncio ansioso de milhares de pessoas antes de explodir:
— Eles estão fugindo da Pantera-Chicote! Atraíram a fera com suas manas e a estão
conduzindo direto para a zona de combate da ThunderBlade e dos outros desafiados! Esperem… será que eles pretendem usar a Besta Mítica como uma arma na batalha?!
A conclusão de Sue gerou um rebuliço imediato. Nos telões, a imagem captada mostrava as árvores sendo derrubadas como palitos pela Pantera enquanto Cassian e Helick saltavam entre os destroços.
— O quê?! Isso é impossível! — alguns telespectadores debocharam. — Durante toda a
história da humanidade, apenas a linhagem dos Silva conseguiu domar Bestas Míticas. Ninguém mais tem esse dom!
— A não ser Helisyx — uma voz calma e profunda soou em meio a plateia.
O homem que falara estava sentado em um lugar que, curiosamente, permanecera vazio
durante toda a corrida, como se ninguém ousasse se aproximar. Usava um sobretudo que cobria todo o corpo e um capuz que ocultava o rosto; uma máscara subia do pescoço até a altura do nariz, deixando visíveis apenas seus olhos heterocromáticos.
Um negro como o vácuo, o outro branco como a luz pura.
— Não me diga que está comparando dois pirralhos com o maior gênio da história da humanidade só porque são príncipes daquele país de covardes abençoados com magia! — Um homem esbravejou, cambaleando com um coquetel na mão, a voz arrastada pelo excesso de álcool servido durante o evento.
O homem encapuzado não se moveu. Seus olhos heterocromáticos permaneceram fixos no telão, ignorando a provocação barulhenta ao seu lado.
— Os próximos acontecimentos nos dirão se eles são apenas moleques… ou guerreiros capazes de mudar o rumo da humanidade — concluiu Blando.
Sua voz era calma, mas carregava uma autoridade tão sinistra que o bêbado pareceu
sobressaltar-se, o calor do álcool morrendo instantaneamente diante daquela presença. Um silêncio desconfortável se espalhou pelas cadeiras vizinhas, como se o ar ao redor de Blando tivesse se tornado pesado demais para respirar.
— Vamos apenas assistir — finalizou o Traficante de Verdades, cruzando os braços sob o sobretudo.
Então o conforto das arquibancadas e a voz eufórica de Sue desapareceram, substituídos pelo som grosseiro de madeira sendo arrebentada e o sibilar de chicotes orgânicos cortando o ar, folhas raízes e tudo o que
encontrava em sua frente.
Os irmãos seguiam velozmente saltando de galhos e galhos e a urgência aumentava conforme eles sentiam a movimentação das mansas na arena.
— Red… — Helick deixou escapar quando sentiu a mana do soldado oscilar e cair drasticamente rápido.
— Você também sentiu, Helys? — Cassian falou ficando lado a lado enquanto saltavam. — Estranho, não senti mana confrontando ele, mas pude sentir como se ele estivesse lutando.
— Um ARGENTEC provavelmente. — Cassian respondeu. — Mas o que mais me preocupa no momento é a quantidade de manas que estão diante de Marco e Isaac. Eles estão encurralados. Temos que nos apressar!
Helick assentiu, mas uma oscilação abrupta de mana na direção deles o fez olhar rapidamente para frente.
— O que?!… — Cassian grunhiu quando rajadas de cortes invisíveis correram em sua direção.
Seu reflexo combinado com suas habilidades sensoriais corroboram para ele reagir a tempo e o impacto o jogou para trás, o derrubando dos galhos e caindo na direção do chão.
— Cass! — Helick gritou olhando para onde o irmão havia caído
e saltou para baixo.
Cassian atingiu o chão rolando, dissipando a energia da queda para amortecer o impacto. Helick pousou logo em seguida, em posição de guarda, os olhos varrendo a penumbra.
— Você está bem?
— Tudo certo… — Cassian levantou-se, limpando o rastro de terra no rosto. — Me defendi a tempo.
Helick começou a puxar o irmão para cima, mas o movimento foi interrompido abruptamente. O ar entre eles pareceu congelar. Helick sentiu
o braço de Cassian tencionar, e seus próprios olhos se arregalaram.
Lentamente, como se estivesse surgindo da própria neblina de poeira e folhas que assentava
ao redor deles, a figura de um homem se materializou. Ele não caminhou até ali;
ele simplesmente apareceu, ocupando o espaço exato entre os dois irmãos, em pé,
bloqueando a visão que um tinha do outro.
A espada pálida de Ross estava posicionada de tal forma que a lâmina ameaçava o pescoço de ambos simultaneamente. Os irmãos congelaram, reconhecendo a face do homem de aparência madura; seus cabelos escuros, que caíam até a altura dos ombros, agitavam-se com o deslocamento de ar provocado pela perseguição.
— Você… é o mesmo que atacou Lyberion meses atrás! — Helick rugiu, a voz carregada de uma fúria contida.
Ao fundo, o som das árvores sendo estilhaçadas e os rugidos da fera tornavam-se ensurdecedores, elevando a tensão ao limite. Os irmãos sentiam que qualquer movimento em falso resultaria em um corte fatal antes mesmo que pudessem tocar o chão.
— Qual o seu nome mesmo? — Cassian perguntou, a voz apressada pelo som da destruição às suas costas. — Sei que deve estar querendo uma revanche, mas temos um
problemão vindo logo atrás. Agora não é hora para vinganças pessoais ou qualquer coisa do tipo!
Ross, vestindo uma armadura vermelha de design leve e funcional, fitou-os com um
olhar gélido ao responder:
— O nome é Ross.
Cassian processou a informação por um breve segundo. O nome ressoou em sua mente.
— Ross…? Rossander? — Cassian estreitou os olhos. — Rhyssara pediu para que eu
o desafiasse… é por isso que está aqui? Por causa daquele desafio na corrida?
O soldado o olhou de relance, a lâmina permanecendo imóvel e letal.
— Um dos motivos, de fato, é esse. O outro… — Ross fez uma pausa dramática enquanto o solo tremia sob o peso da Pantera-Chicote — …é ver do que você é capaz de fazer de verdade. Quero provar se você é digno do que carrega.
Helick percebeu imediatamente o peso nas entrelinhas daquelas palavras. Um calafrio
percorreu sua espinha. De algum jeito, Ross sabia das joias-mapa.

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