Índice de Capítulo

    Lá fora, em meio à solidão, a noite estava gelada. Nem mesmo a fogueira ardente conseguia dissipar o frio do ar.

    Dentro da tenda, porém, fazia muito mais calor, o bastante para deixar qualquer um sonolento.

    Leylin esperou alguns minutos e viu a silhueta de Ivy estremecer enquanto ela entrava devagar na tenda.

    Era evidente que estava muito nervosa. Apertava com força a barra da saia, expondo os tornozelos pálidos.

    O medo estava gravado em seus belos olhos.

    Mas era como se alguém lhe controlasse o corpo enquanto avançava em direção a Leylin, passo a passo.

    “Não se preocupe! É muito simples coletar uma amostra, e isso não vai lhe fazer mal algum!” disse Leylin, tentando acalmá-la.

    “Por favor, levante a manga!”

    Ao ouvir as palavras de Leylin, Ivy hesitou por um instante. Depois, levantou a manga, revelando uma parte do braço branco como jade.

    “Vai doer um pouco, mas não tenha medo!”

    Leylin tirou de trás de si uma enorme agulha e falou com gentileza para consolar a garotinha.

    Infelizmente, a menina começou a tremer ainda mais.

    Segurando o braço dela com uma mão, Leylin cravou a agulha na veia exposta.

    O rosto de Ivy se contraiu quando a agulha perfurou a veia; parecia prestes a chorar, mas, mesmo assim, se obrigou a suportar.

    Depois de tirar sangue suficiente de Ivy, Leylin mandou a garotinha de volta para a própria tenda.

    “Por que parece que eu acabei de maltratar uma garotinha?”

    Leylin esfregou o queixo enquanto olhava para a agulha na mão.

    De qualquer forma, era perturbador receber de uma garotinha um olhar que dizia: “você me maltratou”.

    “Chip de I.A., inicie o experimento e prepare o microscópio…”

    Após alguns segundos de atordoamento, Leylin voltou a si, e a expressão se tornou solene. As mãos delgadas se moveram com perícia, como borboletas pairando e dançando entre flores.

    Na manhã seguinte, Leylin viu um líquido rosado no tubo vulcanizado, e sua expressão ficou indecifrável.

    “Chip de I.A., escaneie!” Uma luz azul brilhou nos olhos de Leylin e incidiu sobre o tubo de ensaio.

    Beep! Detectado traço de linhagem de criatura ancestral na gota de sangue; Falcão Noturno Pala; incapaz de purificar ainda mais!

    O Chip de I.A. encerrou o relatório, e o rosto de Leylin escureceu.

    Ivy realmente carregava um traço de linhagem ancestral. Uma pena que a herança da linhagem do Falcão Noturno Pala terminasse nela. Esses vestígios já tinham se tornado tênues ao extremo, e só se podia extrair um pouco de aura do sangue dela, mas isso tinha pouca utilidade.

    “Com essa densidade, mesmo que Ivy tivesse todo o sangue drenado, ou lhe tirassem um pouco de sangue de tempos em tempos, ainda não bastaria para purificar sequer uma única gota de linhagem ancestral pura.”

    No entanto, Leylin não sentiu grande decepção, nem nada parecido.

    Não era como se fosse ter sucesso em cada experimento. Mas, se nem tentasse, não haveria chance alguma de êxito.

    Tinha aprendido essa lição na vida anterior.

    “Além disso, essa linhagem, que carrega um traço da aura da criatura ancestral, somada a alguns fragmentos de Artefato Mágico quebrado que obtive no plano secreto, pode ajudar na modificação do Pingente da Estrela Cadente…”

    Uma ideia surgiu na mente de Leylin.

    O Pingente da Estrela Cadente era apenas um Artefato Mágico de baixo grau, útil nos tempos em que ainda era um acólito. Mas, para Leylin agora, o valor já era bem limitado.

    O Chip de I.A. havia sido encarregado de pesquisar as possibilidades de aprimorar o Pingente da Estrela Cadente, e agora isso parecia ter dado alguns frutos.

    Contudo, Leylin era um Bruxo agora. Se conseguisse acrescentar um pouco do poder das linhagens aos outros ingredientes necessários para o aprimoramento, o resultado certamente teria um potencial ainda maior!

    “Chip de I.A., estabeleça esta missão como uma subtarefa: calcule a possibilidade de adicionar a linhagem de Ivy ao Pingente da Estrela Cadente!”

    Beep! Missão estabelecida; classificada em uma subpasta sob a missão de aprimorar o Pingente da Estrela Cadente!

    O Chip de I.A. respondeu prontamente.

    Embora não tivesse conseguido purificar a linhagem ancestral, tinha obtido um ingrediente que podia complementar o aprimoramento do Pingente da Estrela Cadente. Por isso, Leylin sentiu que tinha tirado grande proveito daquilo, e o humor também melhorou.

    Na manhã seguinte, ele até cumprimentou Ivy durante o café da manhã, algo que raramente fazia. Isso deixou a garotinha confusa e desconcertada. Ao ver a cena, Leylin riu por dentro.

    Depois do café da manhã, Leylin levou a garotinha e seguiu viagem.

    Ao parar numa cidade, ele até comprou uma carruagem, pondo fim ao sofrimento da menina, que tinha precisado caminhar o tempo todo.

    A razão para isso não foi bondade. Era porque a garotinha lhe fornecia sangue todos os dias, e, embora Leylin preparasse algumas poções para repor o sangue, o estado mental dela não parecia bom, e o rosto estava tão pálido quanto o de um cadáver.

    Depois de comprar a carruagem, a vida de Leylin se tornou ainda mais tranquila. Viajava enquanto o sol estava alto e, à noite, continuava a extrair a essência da linhagem do Falcão Noturno Pala para aprimorar o Pingente da Estrela Cadente.

    “Pico da Alvorada! Nesse ritmo, devemos conseguir chegar ao Grande Cânion Margaret amanhã!”

    “…”

    Ivy olhou para o marco diante de si e abraçou os joelhos em silêncio.

    Mantinha as pálpebras baixas; não dava para saber se era por medo do que o futuro lhe reservava ou por confusão.

    ‘Os ingredientes reunidos já são suficientes. Vou aprimorar o Pingente da Estrela Cadente esta noite!’ pensou Leylin.

    Naturalmente, ele controlou o ritmo da viagem, então conseguiu obter sangue suficiente pouco antes de chegarem ao Grande Cânion Margaret no dia seguinte.

    No meio da noite.

    Os arredores estavam escuros e serenos, e, de vez em quando, ouviam-se sons de insetos e uivos de lobos.

    Ivy dormia profundamente na tenda ao lado da carruagem.

    Mesmo imersa no sono, as pálpebras tremiam sem parar, como se tivesse um pesadelo.

    Ao vê-la assim, Leylin soltou um suspiro de alívio e voltou para a carruagem.

    “Chip de I.A., simule o início do experimento!”

    Leylin lançou um Feitiço de Iluminação e clareou o interior da carruagem.

    No centro, várias caixas de madeira repousavam sobre uma plataforma plana, onde também havia alguns aparatos.

    No meio de tudo havia uma cruz cinza-prateada, com vários fragmentos de joias sobre ela.

    Essa era a forma original do Pingente da Estrela Cadente. Desde que se tornou um Bruxo de rank 1, ele raramente o usava.

    A defesa física e mágica do Pingente da Estrela Cadente só valia até 20 graus. Já qualquer feitiço de rank 1 lançado por um Mago oficial excedia esse limite.

    Por isso, Leylin pensava em maneiras de elevar as capacidades do Pingente da Estrela Cadente, na esperança de torná-lo útil novamente.

    Simulação do experimento concluída; taxa de sucesso estimada em 87,9%.

    Após um lampejo de luz azul, o Chip de I.A. devolveu uma série de dados a Leylin.

    Agora, o Chip de I.A. conseguia simular a maior parte do experimento e produzir a taxa de sucesso. Isso significava que, desde que Leylin seguisse os passos indicados pelo Chip de I.A., poderia alcançar exatamente a mesma taxa de sucesso prevista.

    As capacidades do Chip de I.A. mostravam que ele podia poupar a Leylin uma enorme quantidade de recursos, ao contrário daqueles magos que reuniam ingredientes com enorme esforço sem sequer saber a própria taxa de sucesso.

    Tanto que essa capacidade podia até ser usada durante um avanço.

    Se a taxa de sucesso do Chip de I.A. fosse baixa demais, Leylin podia desistir do avanço e acumular mais recursos antes de tentar romper a barreira. Isso era muito melhor do que os outros magos, que tentavam avançar no escuro e ainda sofriam a reação.

    “Primeiro de tudo, é preciso separar os ingredientes do Artefato Mágico!”

    Leylin olhou para os outros itens sobre a plataforma.

    Havia metade de uma adaga e um braço quebrado. Leylin tinha obtido esses espólios de guerra durante o banho de sangue no plano secreto. Embora algum tempo tivesse se passado, o braço ainda brilhava com uma luz prateada, ocultando por completo o fato de que era um braço humano de carne.

    “Esse Garra-Prateada Saurun realmente infundiu o Artefato Mágico ao próprio braço. Que sujeito louco!”

    Leylin pegou o braço prateado e o colocou dentro de um funil dourado, então acendeu chamas sob ele.

    Uma chama amarelo-dourada girava sem parar dentro do funil, deixando-o incandescente.

    Do braço continuou a irradiar um calor abrasador. Assim que percebeu a mudança, Leylin começou a deixar pingar sobre ele um fluido azul, gota a gota.

    O líquido azul caiu no braço e imediatamente ficou vermelho, espalhando-se por todo ele.

    A temperatura voltou a subir.

    Tomado pela alegria, Leylin colocou um béquer transparente sob o funil.

    Plic-ploc! Plic-ploc! Gotas de líquido prateado continuaram a cair.

    Muito rapidamente, esse líquido encheu metade do béquer.

    Com a mão direita, Leylin apanhou pó e joias com rapidez e lançou tudo dentro do béquer, enquanto a esquerda pegou um fio metálico e mexeu o recipiente.

    O pó e as joias se derreteram assim que entraram no béquer, e o líquido prateado começou a ficar turvo.

    Uns doze minutos depois, duas camadas bem distintas apareceram no béquer. Na parte de cima havia um líquido cor de carne e, no fundo, uma camada de cor prateada pura.


    Após algum tempo de trabalho, Leylin olhou para os vários ingredientes dispostos à frente com uma expressão alegre.

    A adaga e o braço prateado de antes tinham se transformado em dois blocos de metal preto e cinza, lustrosos.

    Quanto ao Pingente da Estrela Cadente, agora estava submerso em um béquer. O recipiente estava meio cheio de sangue rosado com aroma de orquídeas.

    “Keliesiding Guraweier Alongsuo….”

    Leylin entoou um encantamento enquanto fazia um corte no dedo, deixando cair uma gota de sangue vermelho-escuro no béquer.

    Pa!

    Assim que o sangue vermelho-escuro entrou no béquer, reagiu de imediato.

    Vapores rosados continuaram a subir, e o sangue começou a borbulhar.

    Fios de líquido vermelho subiam sem parar pelo Pingente da Estrela Cadente, transformando o cinza-prateado original em vermelho-escuro.

    Depois que o sangue no béquer evaporou por completo, o Pingente da Estrela Cadente se transformou em uma cruz vermelho-escura.

    “O próximo passo é modificar a inscrição das runas!”

    A expressão de Leylin se tornou extremamente solene. Esse era o passo mais crucial para aprimorar o Pingente da Estrela Cadente!

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