Dói. A dor permeia a alma. Cada músculo lateja no próprio ritmo. A última lembrança é de alívio, soube que salvou quem mais lhe importava. Mas quer a ver. Precisa saber se ela está bem. Quer sentir o coração se perder nas próprias batidas. Apreciar sua beleza. Precisa acordar. Precisa deixar a luz chegar a vista. 

    As pálpebras, pesadas como portões de aço, finalmente se abrem. 

    Dor. 

    Esse simples gesto o fez ranger os dentes. Ralas lágrima turvam sua vista por segundos antes de conseguir observar o entorno. Não está deitado sobre a areia. Está dentro de uma casa. Mal consegue movimentar o pescoço. O teto de palha seca lhe é familiar, assim como vento frio sobre o peito. Há muitos ruídos ao longe, abafados pelo cansaço.

    Dor. 

    Se segura para não gritar. Cada espasmo enrijece mais o corpo. Sente frio. O Sol já não ilumina o céu. Não está sozinho. Sim, um anjo está ao seu lado. Força os lábios a se abrirem e chamarem o tal anjo, mas nada sai. Seria um pesadelo se tal presença não acalentasse a alma.

    Dor.

    Ao seu lado Séfora sorri. Os olhos brancos enfeitiçam Moshe, assim como cada dia antes desse. Cegos para o lado material do mundo, porém abertos para o espírito. Seus cabelos estão amarrados, o que o decepciona. Como gostaria de vê-los soltos ao vento. A pele tão delicada, como gostaria de a proteger do Sol. Sob a luz da Lua ela fica ainda mais bela. A chamaria de deusa se não lhe fosse ensinado que é uma blasfêmia. Honestamente, pouco se importa agora com quem governa os céus. Seu tesouro está na terra. Está ao seu lado.

    Dor.

    O frio que sente no peito é um pano molhado. Séfora está lavando seu corpo. Moshe evita o pensamento de quanto tempo está desacordado e quantas vezes ela cuidou dele. Quer se concentrar somente em seu rosto onde há o mais belo sorriso. De seus lábios, uma leve cantiga escapa. O ritmo o faz lembrar de sua mãe, da época em que ele e Ozymandias corriam pelos corredores do palácio. De quando saiam escondidos para verem os festivais noturnos.

    Dor.

    Seus lábios se abrem. Os pulmões se inflam. Sente o peito rasgar quando o ar saí. O gosto metálico volta a impregnar a boca. Tentou cantar, porém o grunhido de dor se sobressaiu.  A risada do próprio fracasso logo se juntou a sinfonia.

    — Moshe? — ela tateia seu rosto após o escutar rir. — Moshe…

    Dói.

    Como dói.

    — Eu vou cha… — o corpo esguio da Euqone logo é envolvido pelo braço esquerdo do ivrit. 

    Os músculos rígidos rasgam as próprias fibras. Ele ignora a dor ou a lógica. Ter o corpo dela pressionando contra o seu é tudo que precisa. Sentir o coração dela e saber que está viva e ao seu lado, é a única coisa que deseja.

    Renegou esse egoísmo por tempo demais. Durante todos esses meses somente desejou que alguém o abraçasse. Sabe o quão patético são esses pensamentos, entretanto isso nunca importou. Desejou ser desejado. Implorou para não ficar só. Mas se acovardou quando pensou em se agarrar a esse egoísmo. Temeu a ferir, como fez a tantos outros. Tentou fugir. Nunca mais fará algo assim. Deve muito mais do que a vida para essas pessoas. Não consegue colocar em palavras o quanto devo para os eqones, para Yitro e é claro para Séfora. Sem eles, teria enlouquecido em poucos dias. Teria morrido no deserto como tantos outros.

    — Senti sua falta — o suspiro dela quebrou o silêncio.

    O rosto branco como algodão agora ganha tons rosados. Os olhos leves como nuvens deixam pequenas gotas de alívio escaparem. Moshe permanece imóvel por conta da dor, queria a abraçar mais forte. Queria dizer palavras de apoio em seu ouvido. Está em seu limite, qualquer esforço além disso e irá desmaiar.

    — Pensei que você… — ela o abraçou mais forte — fiquei com medo…

    Relaxou.

    O alívio percorreu o corpo como um antídoto. A rigidez deu lugar a fraqueza. A dor agora não passa de uma lembrança ruim. Sim, a voz dela é como a de um anjo. Como o último ato egoísta da noite, Moshe desejou a ter somente para ele.

    Moshe acordou no dia seguinte ainda abraçado com Séfora. Não se envergonhou. A muito tempo seus pesadelos não eram ofuscados por. Isso é graças a quem dorme tão profundamente ao seu lado.

    — Eu te a… — contém a declaração, precisa falar com Yitro antes. 

    Contém também o beijo. A deseja, porém não irá a desonrar. A tocar de maneira tão casual seria uma grande injúria para os anciões. Dormir, como estão fazendo, seria inimaginável.

    São as leis divinas e devem ser seguidas.

    O Sol castiga fora da casa. É difícil saber se acabou de amanhecer ou é fim do dia, o astro rei sempre se mantém no ápice. Apesar do calor, pode escutar risadas do lado de fora. As crianças são as únicas a não assimilar o mal que as envolveu, os benefícios da ignorância. 

    — Moshe… — seu anjo acordou.

    O rosto paládio ganhou tons rosados, mas ela não se afastou. Na realidade se aproximou. Encolheu-se, querendo ainda mais o calor de Moshe. Ele se limitou a contemplar. 

    Proteja-a...

    A palavra foi sussurrada dentro de si. Timidamente. A compaixão perdida na escuridão. A luz que Moshe carrega não está só no abismo. Moshe somente sentiu uma súbita melhora no corpo. O ar em seus pulmões é fresco. O sangue em suas veias é limpo. 

    — Vamos andar um pouco? — sugere. — Quero ver o céu. Agarrar o Sol.

    Agora ela se afasta. As sobrancelhas se juntam e os lábios formam um bico. Ele se limita a observa-la, tentando não estressa-la. As mãos dela deslizam sobre a mesa procurando desesperadamente por algo que convença Moshe a permanecer em repouso.

    — Seus ferimentos, preciso de mais tempo — finalmente falou ao sentir as ervas sobre a mesa. — Não podemos arriscar antes da sua total recuperação.

    Se lembra de qual erva utilizar pela forma das folhas, Matí a ajudou muito nisso. Ela ensinou como as preparar e os horários de dar cada erva. 

    — Todos estão cumprindo corretamente todas as tarefas — ela estica a mão buscando o Sol. — Caso for isso que o preocupa, não tivemos perdas. 

    O calor da estrela celeste não tarda em aquecer a sua mão. Após alguns dias conseguiu mensurar o passar do tempo apenas esticando a mão na direção da janela.Mas céus, por quanto tempo adormeceu? A altura do Sol indica que passam da metade do dia. Precisa preparar os remédios. Será que deve dar todos de uma vez? Deve começar pelos atrasados ou seguir o cronograma? 

    — Séfora — ele a chama. 

    Será que deve procurar Matí? Mas ela deve estar ocupada.  Tem que ser virar sozinha. Ser útil. Como todos. Sim, vai ser útil. 

    — Séfora! — o ivrit a segura antes da queda.

    A vasilha com os remédios se estilhaça no chão. A euqone, com os pés trançados tenta se desvincular. Talvez ainda possa usar os remédios. As mãos tateiam o ar buscando o chão. Precisa limpar a bagunça. E se Moshe se sujou. Ou pior, se ele se machucou. Em sua mente, implorou aos céus um pouco de visão. Apenas um pouco para não ser inútil. Somente o necessário para merecer o calor do homem ao seu lado. 

    — O Sol está maravilhoso — Moshe gentilmente a colocou frente a si e deslizou os dedos pelo seu cabelo. — Eu quero sentir as areias nós pés e o vento no rosto. Quero experimentar contigo cada sensação.

    É luz. Independente do quanto as rachaduras negras tentam a cobrir não conseguem apegar a luz. Aos céus clamou para ter toda a visão, abdicaria do próprio dom para conseguir ver o sorriso que só existe na ponta de seus dedos.

    — Certo…

    “Eu te amo”

    A luz refletiu o brilho dourado. Séfora que sentir ciúmes, mas como competir com seres tão energéticos. Moshe levanta areia a cada passada, as crianças correm atrás dele. 

    — Vejo que os remédios agiram rapidamente — Matí avisou sua chegada a Séfora.

    A euqone se limitou a concordar com a cabeça. Evitou pensar na última noite, a vergonha a enlouqueceria. Concentrou-se nas pequenas almas puras circulando a luz dourada. Todas elas carregam algo impuro. 

    Sagol

    Os pequenos seres carregam o rastro púrpuro do verme.  Ada e Adira, suas irmãs, irão tratar deles. Elas são gêmeas que compartilham o dom de purificar as almas de males menores. Não conseguem enxergar o mundo espiritual como Séfora, entretanto Ada cura o que vem do espírito para o corpo e Aida do corpo para o espírito.

    Séfora, por ordem de Yitro, cuidará somente de Moshe. Ele é o que tem a alma mais fragmentada. Os espíritos afetam seu corpo de formas que a própria euqone considerava impossíveis. Conseguir reprimi-las é desgastante ao seu corpo. No entanto ela sempre sente o vigor voltando ao tocar o rosto de Moshe. Ao sentir seu sorriso.

    Sorriso esse que se esforça para manter.  Um mal estar o aflige. Não é culpa das crianças. Como seria? Elas sorriem e brincam com ele. Sim o problema é esse, é ser ele. Moshe sente culpa. Os rostos dessa crianças não estão somente cadavéricos, estão machucados. Esferas roxas, dentes a menos, ossos quebrados, tudo culpa sua. Essas crianças não deveriam estar assim. Se fosse mais habilidoso. Mais forte. Talvez conseguisse derrotar Sagol sem ferir ninguém.

    — Será um ótimo pai — a frase surpreende mais do que a figura que a falou.

    Aftí logo foi envolvido por um abraço de seu senhor, não, de seu amigo. As crianças copiam o gesto, o antigo servo ignora o calor e o suor salgado escorrendo para o olho. 

    — Está resplandecente — Moshe o elogia.

    — Apenas perco para ti, meu príncipe — os olhos de ambos repousam em suas amadas que conversavam.

    Séfora pouco fala, na maioria das vezes apenas acena positivamente ou negativamente com a cabeça. Matí aceita de bom grado o fardo de sustentar toda a conversa.

    — O amor, né? — Aftí envolve os ombros do amigo e o guia para longe o suficiente das crianças. — Surge como um sussurro e muda o curso da sua vida.

    — Vem sempre acompanhando uma pessoa querida — continua a cantiga. — Te faz ficar febril. 

    — Faz seu coração doer. 

    — Mas olhar o sorriso gentil ganha-se mais um motivo para viver .

    Os dois riram. Erraram a letra e a melodia. Não importa. São agora dois homens alegres. Aftí ri como se nada ocorresse nos últimos meses. Seu corpo foi aberto e fechado mais vezes que pode lembrar. Ainateb fez o possível para tentar fechar as cicatrizes, seu dom de cura se mostrou ineficaz. Ela é a única na família até o dom afeta exclusivamente o corpo e não a alma.

     Moshe…

    Nosso…

    Príncipe...

    Aftí continuou tagarelando, mas Moshe não conseguiu desviar os olhos de sua amada. Sente um arrepio na espinha. Quer abraça-la. Mas ela está muito longe.

    Longe…

    Distante…

    Mate…

    Liberte-se

    Estar a alguns metros dela faz a escuridão rastejar para fora de seu esconderijo. Elas tornaram-se cada vez mais agressivas com ela. Moshe sabe que elas têm medo. Temem que Séfora o liberte do fardo que é carregar tantas almas.

    Fuja…

    Retorne…

    Otige...

    Por mais tentador que seja usar os dons dados por essas vozes, terá que recusar qualquer ajuda futura. Sua alma se impregna cada vez mais com essa escuridão. Séfora vem dia e noite tentando extrair elas, sem sucesso.

    — … e os seus ferimentos — a voz de Aftí volta a ser mais forte que o abismo.

    Desnorteado, Moshe somente retira a parte de cima do Manto. Espalhadas pelo corpo a machas brancas. Os ferimentos que as vozes tocaram. Só perdem para as cicatrizes do próprio Aftí, mas ele não desejou ser possuído por tal entidade. 

    — Como está Aharon? — o ivrit subitamente pergunta.

    — Recusou o tratamento da Ainateb, afinal não estava ferido — o rosto se contorce com a memória. — Somente grandes cicatrizes. 

    — Entendi — Moshe se culpa pelos ferimentos de Aharon.  

    Não deveriam ter se separado. Deveriam ter permanecido juntos. Droga. Por quê é tão fraco?

    O rio carmesim. 

    Não consegue esquecer esse dia. Talvez se fosse mais veloz poderia ter salvo ambos da fúria de Adraug. Ele poderia sorrir muito mais com quem ama aqui. 

    Livre-se…

    Da…

    Culpa...

    Algo sussurrou dentro de si. A voz não é uma áspera desarmonia, é uma bela orquestra. O som limpo, sem a presença do ódio constantemente regurgitado junto as palavras. 

    — Moshe? — de repente uma grande luz surge. 

    É Séfora afastando toda a escuridão com sua beleza.

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