Capitulo 11: Rei púrpuro
O Sol não necessita mais do que minutos para expulsar o vento gélido da noite. As quinze horas de Sol se iniciaram com o astro rei no pináculo de sua força. Moshe transpira, exausto, cada fibra de seu corpo pulsa. A regeneração proporcionada pelas vozes é profunda, a cada segundo se sente mais disposto. Está ileso. Cada corte foi regenerado. Cada gota de sangue foi reposta. Porém foi ao extremo que seu físico pode aguentar. Mal consegue mover o corpo. Mas acabou, Sagol ficou sem fantoches.
— É contigo Aftí — suspira aliviando o peso nos ombros.
As mãos estão ensanguentadas, abusou da própria força. No chão há homens, idosos, mulheres, crianças, todos foram espancados até desmaiarem. Alguns terão sequelas. É sua culpa. Não se controlou. Não controlou o próprio instinto e agora essas pessoas sofrerão. A sede de sangue que é abissal. A mente se nublando. O corpo segue o instinto.
Destrua…
Mate…
Despedace…
Mate...
Sem as vozes seria um feito impossível. Teria morrido nos primeiros segundos da emboscada. O preço a se pagar é o desejo de morte. Se perdesse o foco por alguns poucos segundos, teria matado um inocente. A praga correu pelo sangue até o coração. Nunca mais deve abusar desse sentimento.
Nossa força…
É…
Sua...
— Cara aberração, — outro fantoche simulando a voz rouca de Sagol surge —, há uma visita interessante. Uma pena, pois estava começando a aproveitar nosso embate.
O homem de olhos roxos se senta na areia. Vê um pequeno grupo moribundo surgir. Há mais? Por quanto tempo tem que lutar? Derrubou quantos? Dezenas? Talvez uma centena? Não tem mais forças. Não há como fazer mais nada.
— Diz como eu não pudesse lutar até a Lua surgir no céu — precisa blefar, ganhar tempo. — Vou libertar um por um antes que…
De repente silhuetas cruzam a sua vista. Estão distantes. Demora até se tornarem reconhecíveis. Há um grupo de pessoas se movendo para esta vila. Cinco, não, oito pessoas.
Não. Não. Não.
— O que foi príncipe, os reconhece? — a voz rouca parece distante. — Estava eu teorizando como sobreviveu tanto tempo no deserto, acho que a resposta veio até mim.
As pernas, sim, elas sempre se movimentam antes do pensamento. O corpo de Moshe se enrijece a cada passo. Respirar dói como se areia preenchesse seus pulmões a cada segundo.
Cai.
A areia está quente. Não, não é a areia. Sangue. Ambos os antebraços sangram. Os ferimentos logo se fecharão. Tem que se levantar. Droga. Tem que continuar correndo. Precisa protegê-los.
Precisa proteger ela
Precisa de Séfora
Não pode deixar aqueles desgraçados tocarem nela. Não. Precisa alcançá-los.
Precisa mata-los...
Algo faz um assobio no ar. Algo escarlate. Um dos controlados por Sagol cai. Então outro objeto cruza o céu. Mais um sob controle de Sagol cai.
Seu…
Moshe compreende. Olha para os próprios braços. O sangue flui para fora se moldando como uma flecha. Foi ele que as controlou. Sim, foi sua sede de sangue guiando cada disparo.
Poder...
Há mais três homens de Sagol. Balançam suas facas debilmente. Talvez Yitro consiga lidar com eles. Não. Não pode arriscar. Prometeu que nenhum deles iria se ferir.
Mate-os...
Se nada fizer, Sagol matará os Euqone que o acolheram. Essa escolha é impensável. Imaginar o sangue maculando os cabelos brancos de Séfora o apavora. Quer gritar. Precisa os alertar. Quer externar seu pavor.
Mate-os…
Aharon estava certo. Fugir é a pior escolha. Seu peito tem certeza disso. Ama Séfora e quer que ela o ame. Quer que ela viva. Sabe que se quiser impedir os fantoches terá de usar força. As flechas. O próprio sangue.
A carne é…
Temporária...
Não. Não. Não precisa matá-los, somente os imobilizar. Séfora não o perdoaria se matasse alguém. Ela choraria. Sim. Quer vê-la sorrir. Então precisa de mais sangue. O corpo se enrijeceu, não tem como cortar alguma parte. Que se dane. Os caninos pressionam a língua. Há sangue suficiente para o matar sufocado. Perfeito.
Seis flechas vermelhas rasgam o céu. Os três homens caem.
Aftí finalmente conseguiu. Precisou revistar casa por casa para finalmente chegar a correta. Não teve problemas, não há nada o protegendo. Não restou ninguém. O reino construído sobre cadáveres caiu. Seu rei púrpuro se foi também.
— Seu maldito — regurgita uma ofensa na direção do verme de olhos roxos.
Sagol continua uma criatura patética e de fisionomia grotesca. Um ser desprezível e inumano. Fede. A banheira, a qual reside, guarda um líquido vermelho. A parte atrás de seu crânio foi cortada. Traição? Talvez. Suicídio? Quem sabe. Talvez Moshe o fez chegar em seu limite.
— Elas… elas… — uma voz fraca vem da escuridão.
— Aharon… — a visão aprimorada de Aftí reconhece a face. — Pelos céus…
As mãos estendidas sobre a cabeça por correntes. A perna direita presa com uma ao chão. O rosto demonstra o desapego a vida. Olhos dourados tão opacos. Sua perna esquerda foi amputada e três dedos da mão direita foram arrancados, os ferimentos estão fechados. Vai sobreviver.
— Elas serraram a… a cabeça e… — sua língua se embola, a mente oscila entre a realidade e a alucinação — e… e…
A boca está seca. A perda de sangue não foi completamente reposta pelas vozes. A mente começa a definhar. Quer falar sobre as servas. Precisa dizer que ambas serraram o crânio de Sagol e saíram deserto adentro. Necessita alertar que o maldito de olhos púrpuros vive. Suas servas não perderam a coloração roxa em nenhum momento. Ele agora vaga sem direção. Talvez tenham uma chance de vencer se forem rápidos.
— Aharon… — mas há algo o impedindo.
Rehlum o espera na porta, o chama. Mal recorda de sua doce voz. Mentira. Lembra-se perfeitamente de cada som que ela emitia, os pesadelos não o deixam esquecer. Não pode esquecer o corpo dela sangrando como um animal no chão. Não pode esquecer o grito de desespero. Não pode esquecer as lágrimas.
— Aharon…
Não pode a seguir. Não consegue a seguir. As correntes não permitem. A morte não o levará até ela. A praga o afasta da luz.
As vozes não o deixam ir
Elas nunca falam. O deixam nesse maldito silêncio. Permanece preso nas próprias alucinações. Sua alma está condenada a reviver tudo. De novo e de novo. Rehlum sempre o chamará e ele nunca conseguirá responder.
— Vamos sair daqui — Aftí o solta das correntes.
A chave estava a plena vista. Sagol não se interessou em fazer jogos ou não teve tempo. O servo passa o braço direito sobre o ombro e começa a carregar o ivrit aleijado. Cospe sobre o cadáver de quem tanto causou dor.
Vitória. Sim, venceram. Porém o sentimento é um vazio. Ainda sente aquele maldito par de olhos violeta atrás de si. Talvez o verme ainda espreite na escuridão.
Seja como for, precisa voltar a Matí. Precisa abraçá-la. Beija-la. Simplesmente tê-la para si.
— Não terá tanta sorte da próxima vez, príncipe — o último fantoche de Sagol permanece estático. — Terei controle sobre seu dom regenerativo. Dá próxima vez atingirei seu coração.
Ele está perto. Poderia atacar o ivrit indefeso no chão. Seria uma perda de tempo. Moshe é uma aberração sob controle, ninguém sabe o que ocorreria caso esse controle lhe fosse tirado. Sagol prefere conduzir esse teste em um momento mais propício.
— Aproveite e viva — ele observa a lâmina, hesitante. — Estarei no meu ápice da próxima vez.
A dor invade as sinapses de Sagol. Pela primeira vez experimenta a dor por completo. Sentiu ela se espalhar. Ela oscila entre a melhora e a piora. Experenciou o corpo falhando e aceitando o fardo do fim. Sentiu a morte. Ainda odeia a sensação, porém precisa a contemplar.
Moshe nada conseguiu expressar. Só lhe foi permitido obervar as Silhuetas correndo em sua direção. Tudo ficará bem agora. Finalmente compreendeu onde pertence, onde seu coração pertence.
Moshe desmaia contente.o. Moshe é uma aberração sob controle, ninguém sabe o que ocorreria caso esse controle lhe fosse tirado. Sagol prefere conduzir esse teste em um momento mais propício.
— Aproveite e viva — ele observa a lâmina, hesitante. — Estarei no meu ápice da próxima vez.
A dor invade as sinapses de Sagol. Pela primeira vez experimenta a dor por completo. Sentiu ela se espalhar. Ela oscila entre a melhora e a piora. Experenciou o corpo falhando e aceitando o fardo do fim. Sentiu a morte. Ainda odeia a sensação, porém precisa a contemplar.
Moshe nada conseguiu expressar. Só lhe foi permitido observar as Silhuetas correndo em sua direção. Tudo ficará bem agora. Finalmente compreendeu onde pertence, onde seu coração pertence.
Moshe desmaia contente.

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