CAPÍTULO 28 - GAIOLA
A igreja por dentro era simples, bancos de madeira escura em fileiras ordenadas, paredes de pedra sem pintura, janelas estreitas que deixavam entrar pouca luz.
O homem que veio ao encontro deles pelo corredor central tinha a mesma altura de Oliver, vestia uma simples túnica branca e tinha uma longa barba grisalha, era um anão.
“Tio Durven.” Oliver deu um passo à frente. Com tempo suficiente morando em Corval, ele havia cruzado com a maioria das pessoas pelo menos uma vez. “Esses aventureiros gostariam de realizar um enterro. Seria possível um sacerdote acompanhar a cerimônia?”
“Esse homem não era uma boa pessoa,” Sylvia acrescentou diretamente. “Mas nos acompanhou por um mês. Merece pelo menos um enterro digno.”
Durven considerou isso por um momento.
“Podemos fazer agora mesmo.” Ele acenou com a cabeça. “Me deem um momento para os preparativos.”
Sylvia e Lucian seguiram o sacerdote. Lilian ficou.
Oliver havia notado isso desde o começo do caminho até a igreja, Lucian era o personagem mais silencioso que havia encontrado em muito tempo.
“Você sabe alguma outra magia além do relâmpago?” Lilian perguntou, assim que os outros estavam longe o suficiente.
Oliver a olhou por um momento antes de responder.
“Tia Lilian, me desculpe ser direto, mas por qual motivo você está tão interessada em mim?”
Ela arregalou os olhos. Claramente não era a resposta que esperava de uma criança de 7 anos.
“Eu não posso só estar genuinamente interessada numa pessoa talentosa?”
“Pode.” Oliver encolheu um ombro. “Mas eu sinto que deve haver um motivo mais específico por trás disso.”
Lilian ficou em silêncio por um segundo. Depois olhou para o altar, e quando voltou o olhar para Oliver havia decidido alguma coisa.
“Você me pegou.” Ela disse isso sem constrangimento. “Eu tenho um objetivo de longo prazo, e para realizá-lo vou precisar de pessoas em quem possa confiar. Não quero contratar lealdade, quero construí-la. Por isso me aproximo de pessoas com potencial cedo, antes que o mundo já tenha moldado o que elas vão se tornar, quero levar você comigo! Vou te arranjar um professor e te tornar um mago completo!”
Oliver processou isso.
Era honesto. Mais honesto do que ele esperava, na verdade.
“Eu aprecio a sinceridade,” disse. “Mas já tenho um mestre. O que tenho hoje é graças a ele, e não pretendo abandonar esse compromisso pela primeira proposta que aparecer.”
Lilian o olhou com uma expressão que ficou entre a surpresa e algo próximo de respeito.
“Não tem problema.” Ela disse isso de verdade. “Se um dia mudar de ideia, pode me encontrar na torre de magia em Eldravin. Embora eu não esperasse uma resposta tão decisiva de uma criança.”
Lilian ficou quieta por um momento. Depois abriu a mochila.
“Ainda assim, você merece algo pelo caminho até aqui.” Ela tirou um pergaminho enrolado e o estendeu para Oliver. “Considere um presente.”
Oliver pegou e olhou para o conteúdo. Era um pergaminho de magia, não teoria, mas instrução prática: o cântico, os gestos, o ritmo. Uma magia completa e pronta para ser aprendida.
“Isso é valioso.” Oliver não abaixou o pergaminho. “Não posso receber algo assim de graça.”
“Você ainda precisa me mostrar o vilarejo. Não é de graça.” Lilian sorriu.
Oliver considerou isso.
“Não há muita coisa para ver aqui. Você vai se decepcionar.”
“Tudo bem assim.”
Ele guardou o pergaminho.
…
O enterro foi simples.
Do lado de fora da igreja, num canto sombreado do pequeno cemitério adjacente, o coveiro Tomakova, outro anão, havia preparado a cova antes mesmo de eles chegarem. Oliver nunca havia entendido completamente como Tomakova conseguia fazer isso tão rápido, mas havia desistido de investigar.
Durven começou a oração com a voz grave e cadenciada típica dos sacerdotes. Tomakova posicionou a urna de porcelana no centro da cova e começou a fechar.
Oliver ficou um passo atrás dos outros, observando.
Havia algo errado.
Desde o despertar, sua intuição havia se aprimorado. E agora ela estava dizendo que algo de errado estava prestes a acontecer.
Ele verificou os presentes. Durven orando, Tomakova enterrando, Sylvia com a cabeça levemente inclinada em respeito e com os olhos fechados, Lucian parado com os braços cruzados, Lilian com os olhos fechados.
Ninguém estava olhando para o túmulo da mesma forma que ele.
Porque ninguém estava vendo o que ele estava vendo.
Uma massa de energia surgiu devagar. Era negra e parecia fumaça. Ela saía diretamente da terra onde Groak havia sido enterrado.
A energia negra continuava emergindo, tomando volume, tomando proporção.
Oliver não se moveu, ficou paralizado observando aquele fenômeno antinatural.
A forma que a energia assumiu era reconhecível demais para ser confundida com qualquer outra coisa. A altura. A largura dos ombros. As presas.
A fumaça negra tomou a forma de Groak, o orc.
O espectro do orc olhou diretamente para Oliver e quando falou, a voz chegou diretamente dentro da cabeça de Oliver, distorcida e estridente, como metal sendo torcido.
“Moleque maldito. Vou te matar e depois vou atrás daquele mago.”
Oliver sentiu cada pelo do corpo se eriçar.
Havia uma diferença fundamental entre o orc vivo e o que estava à sua frente agora. O orc vivo era perigoso da forma que qualquer coisa muito forte e muito agressiva é perigosa, era físico, era mensurável, tinha limites que Oliver havia conseguido calcular. O que estava à sua frente agora não tinha limites que ele conseguisse calcular, não tinha corpo para ser ferido.
E ninguém mais estava vendo.
O espectro avançou.
Era rápido demais. Oliver ergueu o braço por reflexo e fechou os olhos.
O impacto não veio.
Ele abriu os olhos devagar.
O espectro estava parado no ar a menos de 3 passos dele, imobilizado com uma rigidez absoluta, como se o espaço ao redor dele tivesse solidificado. As formas que compunham a figura se retorciam contra alguma coisa que não era visível, tentando se libertar sem conseguir.
Oliver seguiu a linha que havia prendido o espectro até a origem.
O velho mendigo Orson estava encostado numa árvore a alguns passos de distância do cemitério, como se houvesse chegado ali por acaso e decidido descansar. Na mão, segurava uma gaiola pequena e simples. A porta estava aberta.
O velho apontou a gaiola para a fumaça negra e o espectro foi sugado para dentro de uma vez, como água descendo por um ralo, toda a massa de energia negra colapsou em direção à gaiola e desapareceu pela porta aberta.
Orson fechou a gaiola.
Olhou na direção de Oliver com um sorriso banguelo.
Depois virou as costas e foi embora pela rua, com o passo vagaroso de sempre, como se não tivesse acabado de fazer absolutamente nada.
Oliver ficou parado.
O suor frio que havia descido pela testa durante o avanço do espectro ainda estava lá. Suas mãos estavam levemente trêmulas, sua mente estava ocupada tentando processar o que havia acontecido.
Ninguém ao redor havia visto nada.
“Oliver.”
Ele levou um segundo para reconhecer a voz.
Lilian estava olhando para ele com uma expressão de preocupação genuína. Os outros também haviam percebido, Sylvia com o cenho levemente franzido, Lucian pela primeira vez desviando o olhar de um ponto fixo no horizonte para olhar diretamente para ele.
“Você está bem?” Lilian perguntou. “O que aconteceu?”

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