CAPÍTULO 29 - VISÃO DA ALMA
“Está tudo bem.” Oliver disse isso com uma expressão neutra. “Só me senti um pouco tonto de repente.”
Lilian o olhou por um segundo a mais do que o necessário. Depois assentiu e não insistiu.
Ninguém insistiu.
Oliver caminhou à frente dos três aventureiros guiando-os pelos pontos principais de Corval. Mostrou o armazém do Otto, o mercado da praça central, o grande estabelecimento ainda sendo construído na rua principal. Como havia prometido, não havia muito.
“Minha dívida está paga.” Oliver parou no ponto de onde conseguia ver a saída principal da cidade e fez a reverência que Eliandris havia insistido que ele aprendesse. “Obrigado por me acompanharem.”
“Obrigada por nos guiar.” Sylvia respondeu com formalidade.
“Caso mude de ideia, sabe onde me encontrar.” Lilian disse isso com uma leve risada.
“Obrigado.”
A voz era de Lucian. Oliver virou o rosto, genuinamente surpreso, eram as primeiras palavras que o homem havia dito na sua presença. Lucian não acrescentou nada, apenas sustentou o contato visual por um momento antes de desviar.
Oliver sorriu e se despediu.
Observou os três pela rota que tomaram. Eldravin, provavelmente.
…
O beco estava vazio.
Nem Orson nem Caramelo. Apenas a parede onde o velho costumava encostar e o chão onde o cachorro costumava deitar.
“Velho maldito.” Disse em voz baixa, para ninguém. “Quando mais preciso falar com ele.”
Havia perguntas demais acumuladas. A gaiola. O espectro sendo sugado para dentro dela. A facilidade com que Orson havia resolvido algo que Oliver não conseguia sequer processar.
Havia algum tempo que Oliver suspeitava que Orson não era simplesmente um mendigo. E sua intuição aguçada, confirmava isso cada vez que ele se lembrava das perguntas objetivas do velho sobre magia.
Mendigos não fazem perguntas assim.
Ele seguiu caminho de volta para casa.
…
Eliandris estava dobrando roupa quando Oliver entrou.
Ela ergueu os olhos, avaliou o filho com um olhar rápido. Oliver puxou a cadeira da mesa e sentou.
“Mãe.” Ele esperou até ela olhar de novo. “Tem algo diferente acontecendo comigo desde o despertar. Consigo ver o formato das almas agora, não só as cores. E minha intuição ficou mais aguçada, é difícil de descrever com precisão, mas eu simplesmente sei coisas que antes precisaria observar por mais tempo para saber.”
Eliandris parou de dobrar.
“Você não me contou isso antes.”
“Aconteceu muita coisa nos últimos dias.”
Ela ficou em silêncio por um momento, a roupa ainda nas mãos, os olhos num ponto entre Oliver e a parede atrás dele.
“Normalmente esse nível de visão da alma só se desenvolve na fase adulta,” disse por fim. “Não esperava que você chegasse lá tão cedo. Nunca imaginei que o despertar pudesse desencadear isso.”
“Você consegue ver do mesmo jeito?”
“Sim. É assim que eu enxergo as almas há muito tempo.” Ela pousou a roupa e cruzou os braços, tentando organizar o que iria dizer. “Consigo identificar quando alguém mente, quando esconde intenções, quando representa perigo real. Não é infalível, e há situações em que falha, mas no dia a dia é muito útil.”
Oliver processou isso. Durante anos havia observado a mãe lendo pessoas com uma precisão que ele achava ser simplesmente experiência. Agora fazia sentido de outra forma.
“Existe um nível além disso? É possível desenvolver mais?”
Eliandris abriu a boca e sem seguida fechou, ela estava escolhendo cuidadosamente as palavras.
“Não sei, Oliver. Meu irmão mais velho também era um elfo da alma. Nossos pais foram considerados amaldiçoados por darem à luz dois filhos assim e foram proibidos de ter mais filhos.” Ela olhou para as mãos. “Fora ele, nunca conheci outro elfo da alma. Não tenho com quem comparar.”
Oliver ficou quieto por um momento.
Havia muitas coisas que ele não sabia sobre a família de sua mãe, ela desviava desses assuntos com uma consistência que ele havia aprendido a não questionar diretamente. Mas era a primeira vez que ela mencionava um irmão. Um tio que ele não sabia que existia.
“Por que meus avós eram considerados amaldiçoados? O que há de errado com elfos da alma?”
A expressão de Eliandris mudou.
“Isso você não precisa saber ainda.” O tom havia ficado firme. “Você é uma criança. O que precisa saber agora é que essa habilidade não deve ser mencionada para ninguém que já não saiba. Erina e Grim são confiáveis. Mais ninguém.”
Oliver conhecia esse ponto final. Não havia negociação depois dele.
Assentiu e não insistiu.
…
A peça do general bateu na mesa com um som seco.
“General na coluna do rei, e agora ele não pode fugir, Dominus.” Erina recolheu as peças com eficiência. “Jogo encerrado.”
Oliver olhou para o tabuleiro. Havia cometido pelo menos dois erros que conseguia identificar sem muito esforço, e provavelmente havia mais que não conseguia.
“Você fica uma semana inteira sem jogar, sai por aí brincando de mago,” Erina começou, reorganizando as peças com precisão, “e volta sem saber nem proteger o próprio rei.”
“Eu não estava brincando.” Oliver cruzou os braços. “E agora sou um mago de 1ºciclo. Poderia ao menos fingir um pouco de respeito.”
“Respeito?” A cauda de Erina chicoteou no ar. “Você nem sequer me agradeceu! Se eu não tivesse insistido com Archibald, você estaria aqui jogando Regnum sem saber que tinha dois corações.”
Oliver abriu a boca para responder com algo espirituoso, mas decidiu ficar quieto.
Erina não estava errada.
“Tia Erina.” Ele disse isso sem ironia. “Você tem razão. Se não fosse por você, eu não teria tido essa oportunidade. Eu sei disso e sou genuinamente grato.”
Erina parou de reorganizar as peças.
Olhou para ele com uma expressão de surpresa, ela não esperava tanta sinceridade vinda do garoto.
“Bom.” Disse, depois de um momento. E voltou às peças com uma pequena elevação no queixo tentando disfarçar sua felicidade.
Ela era horrível mascarando o fato de que estava feliz com o agradecimento, a alma brilhava num amarelo radiante.
“Eu nem precisava ser um elfo da alma pra saber o que ela está sentindo…” Oliver pensou, se divertindo com a situação.
“Mas não pense que ser um mago de 1º ciclo é grande coisa.” Ela posicionou o rei no centro do tabuleiro. “As pessoas só levam um mago a sério a partir do momento em que ele atinge o 3º ciclo.”
Oliver ergueu as sobrancelhas. “Como assim?”

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