Tulipán sorri e começa a cantar:

    — Sabe quanto dói essa visão? Quanto dói ver o seu próprio fim? — Marionetes são criadas e avançam. — E assim é a vida… e, mesmo que seja, não posso aceitar ser assim. — Tulipán segura o microfone com força.

    — Cuidem da minha retaguarda, preciso chegar até o Bauvalier! — Pionla mexe a mão, fazendo a grande tesoura se fechar, mas um alfinete a impede antes que se feche completamente.

    Vendo isso, Pionla avança, cortando as fitas e panos que agora agiam como facas afiadas.

    — Eu não posso aceitar o que vi! Mesmo que isso me torne má, o meu destino não pode ser assim! Minha vida… eu me esforcei tanto para chegar ao topo, para honrar essas Stars que hoje não estão aqui! — Estacas de giz de alfaiate surgem no chão de tecido, enquanto Tulipán sobe cada vez mais, e o caminho de pano a segue.

    Pionla desvia dos gizes e corta um que surge à sua frente.

    — Vai ter que se esforçar mais se quiser me acertar! — Ela guia a tesoura, cortando marionetes que surgem para atacá-la.

    As outras meninas estavam conseguindo aguentar os golpes e, sempre que possível, se aproximavam mais de Pionla enquanto revidavam.

    — E mesmo que eu não tenha ideia de como mudar… talvez… o que eu precise é apenas moldar… fazer algo com esse poder… poder me dar um final feliz… talvez… talvez… — Ela olha para Bauvalier e sorri, criando agulhas e panos que começam a costurar uma roupa. — Talvez, com essa magia… talvez com esse poder… talvez eu realmente possa mudar o sentimento de alguém… o que eu preciso é apenas querer e tentar!

    Ela canta cada vez mais alto, criando ondas de som que Pionla defende usando a própria tesoura.

    — Locista, consegue me mandar mais pra frente? — Roseta pergunta, enquanto decapita outro manequim.

    — Posso tentar, mas isso vai te deixar desprotegida! — Locista abre uma janela à frente dela, bloqueando o golpe de uma marionete.

    — Eu sei disso, mas a Pionla não consegue se aproximar tão rápido, e pelo jeito a Tulipán vai fazer algo muito ruim. — Roseta segura a rapieira com mais força. — E isso pode acabar dando sequelas ao Bauvalier maiores do que ocorreu com a Ré… não sabemos até onde ela pode ir.

    — Você tá certa! — Ela abre uma janela à frente de Roseta.

    Roseta entra na janela, já preparando sua técnica, mas Tulipán percebe o portal e cria várias agulhas para perfurá-la.

    — Ah, mas não vai mesmo! — Pionla aproveita a distração e cria uma câmera gigante com um flash cegante que alcança Tulipán, mesmo de longe. — Diga “X”!

    — Ei, pare com isso! — Mesmo com o véu cobrindo os olhos, aquilo ainda a afeta.

    — Esse é o bom de ter duas superfãs suas: elas sabem exatamente o que você não gosta! Então… um sorriso para as câmeras, queridinha! — Ela cria mais câmeras, distraindo Tulipán e enfraquecendo as agulhas, permitindo que Roseta as quebre com sua rapieira e avance com sua técnica.

    — Não vou permitir, você pode anotar. — Ela lança uma sinfonia que prende a Pionla, depois fixa os olhos em Roseta, que se movia de um lado para o outro tentando pegar aquele alfinete. — Agora você… já vou cuidar de te eliminar.

    Com uma nota baixa, cantada, ela cria um escudo enquanto alfinetes tentam acertar a Roseta.

    Ré e Locista ainda cuidavam das marionetes quando viram aquilo.

    — E agora, o que a gente faz? A Roseta, uma hora ou outra, vai se cansar… e já está difícil de eu usar meus poderes. — Locista cria um raio de luz que atinge uma marionete atrás de Ré.

    — Eu tenho uma ideia, mas preciso chegar mais perto da Pionla. — Ré dá um chute em outro manequim.

    — Tá… bom… — Locista abre mais uma janela, mas cai no chão; suas cores somem, e ela desmaia.

    Ré avança e pega o selo de proteção.

    — Vamos ver se isso vai dar certo… vamos ver se, ao inventar, eu consigo soar mística… — Ela respira fundo e segura firme. — Peço à lua vermelha, à sua filha que toca o fim dessas vidas… me conceda a graça de quebrar essa melodia que não é sagrada, esculpida pelo ouro… que me dê a força de sua orquestra e permita a liberdade da minha rainha… peço seu apelo, ó musicista!

    Ela coloca o selo, agora brilhando em vermelho, nas notas que prendiam Pionla.

    — Bingo… acho que agora te entendi, selinho. Você e eu vamos ser uma ótima dupla.

    Agora, com Pionla livre novamente, ela lança a própria tesoura. O impacto, junto com um golpe de Roseta, quebra o escudo, permitindo que Roseta rasgue aquela roupa amaldiçoada e pegue o alfinete.

    — O que houve…?

    As roupas de Tulipán voltam ao normal, mas—

    — Consegui! — Roseta prende o alfinete na própria roupa, mas, como ocorreu com Opala, Tulipán libera uma energia que a faz desmaiar. Pionla, já fraca por ter sido presa, também desmaia.

    Todo o chão que sustentava as meninas desaparece, deixando-as em queda livre.

    Todas estavam desmaiadas, exceto Ré, que pensa rápido. Ela vê Tulipán ainda um pouco acordada… e o microfone caindo também.

    — É agora ou nunca! — Ela se esforça para chegar mais perto, mas era muito difícil. — Só mais um pouquinho…

    Ela olha para baixo e vê o chão cada vez mais próximo.

    — Por favor… só… um pouquinho…

    Percebendo que não vai conseguir alcançar, ela dá um chute na direção de Tulipán.

    — CANTA!

    O microfone atinge Tulipán em cheio, fazendo-a despertar. Ao ver a situação e ouvir o grito de Ré, ela entende o que precisa fazer.

    Com toda a força em seus pulmões, começa a cantar:

    — PEÇO UM MILAGRE! ALGO QUE ALEGRE, QUE CONFORTE, QUE NOS TORNE CADA DIA MAIS FORTES! E HOJE NÃO SERÁ O DIA QUE ESSAS ESTRELAS VÃO APAGAR!

    Sua voz ecoa, e uma aura surge, transformando as notas em uma partitura que gira ao redor de todas, desacelerando a queda até tocarem o chão.

    A pérola no microfone trinca, e Tulipán desmaia no chão gramado.

    Ré olha ao redor.

    Todo mundo está desacordado… menos ela.

    — Pelo menos ainda estou de pé… — Sim, ela desmaiou após dizer isso.

    Todos acordam no hospital da cidade. Os cidadãos viram aquelas pessoas desacordadas e as levaram imediatamente para lá.

    — O que…? — Pionla se levanta da cama e vê que todos estão em uma salinha, comendo comidas sem gosto, enquanto um médico verificava se precisavam de algo.

    O médico vê Pionla acordando, confusa, e explica a situação.

    — Agradeça a todos por mim, porque eu preciso resolver uns assuntos com a madame Star.

    O médico sai, e Pionla fecha a porta atrás de si, usando sua magia para trancar.

    — Agora, que tal começar a se explicar?

    Tulipán, até o momento, estava em silêncio, envergonhada de tudo que fez.

    — Eu realmente sinto muito… não foi de propósito… mas, se estivessem na minha situação, também… — Ela diz baixinho. — Mas mesmo a minha situação não justifica as minhas ações.

    — Comece a contar do início. — Roseta diz, mexendo naquela comida que parecia um pudim… ou algo que deveria ser um pudim.

    — Tudo bem… começou assim:

    Era mais um dia em que Tulipán estava em seu quarto, triste.

    — Ficará assim para sempre, estrelinha? — Ballet diz, sentando-se na janela.

    — Quem é você? Como entrou aqui? Eu vou chamar a segurança! — Tulipán diz, nervosa.

    — Não vim te fazer mal… vim te dar um aviso, queridinha. — Ela se aproxima e pega a pérola, colocando-a na mão de Tulipán.

    No exato momento em que a pérola tocou sua mão, Tulipán ficou parada por meia hora. Mas, em sua mente, ela viu milhões de finais ruins de sua vida, que aconteceriam em pouco tempo.

    Quando despertou, começou a chorar.

    — O que é isso…? O que você me mostrou? O que era aquilo? — Ela segura a cabeça, em desespero.

    — Foram visões dos seus finais… e deve ter percebido que nenhum deles é agradável. — Ela diz, tranquila. — Mas eu vim aqui mostrar um final que pode ser do seu agrado.

    Ela estala os dedos, e a pérola brilha. Um final feliz aparece, onde Bauvalier e Tulipán estavam bem… e ela continuava viva.

    — Mas esse é o Bauvalier, nosso rei! Como eu seria capaz de algo assim? — Ela diz, em desespero. — Isso significa que sofrerei para sempre?

    — Não se preocupe… porque posso te mostrar uma solução onde isso acontece. — Ela sorri.

    — Mas…

    — Ou você pode sofrer um daqueles finais horríveis. Qual você prefere? Ser enforcada viva com as próprias cordas vocais… ou aquela em que usam você para—

    — Certo! Eu aceito! — Tulipán interrompe, desesperada. — Desde que eu fuja daquele destino…

    Ela nem percebe que já estava nas mãos daquela dama de vermelho.

    Tulipán termina de contar o que Ballet mostrou e disse, enquanto ainda estavam em Ort Jouet.

    — E, a cada segundo desde que aceitei aquela pérola, eu sentia que ficava mais descontrolada… eu sei que isso não justifica, mas espero que entendam. — Tulipán diz, com o olhar baixo.

    Todos olham para ela com certa pena, cada um à sua maneira.

    — Ballet se mostra pior a cada momento… mas, sobre você, Tulipán, vou te considerar inocente. — Pionla se vira para o irmão, buscando confirmação.

    — Devo concordar… mesmo ainda não te perdoando pelo sequestro, por ter tentado me beijar e também por ter tentado nos matar. — Bauvalier olha para Tulipán.

    — Agradeço a clemência… e fico feliz que, mesmo com tudo que fiz, vocês ainda estejam bem. — Ela suspira. — Mas, depois de passar por tudo isso, não posso mais ficar escondida, fingindo que o mundo não se importa comigo, mesmo que meu fim já esteja escrito.

    — Não sé preocupe, ela muito provavelmente mentiu sobre seus finais… não acho que Ballet tenha poder de ver o futuro, principalmente tantos finais assim. Se nem tia Orfelha viu tanto sobre o nosso futuro, imagina ela, que nem é uma deusa. — Pionla se aproxima tranquilamente do irmão. — Mas, pelo menos, conseguimos o artefato.

    Roseta percebe que o artefato sumiu junto com sua rapieira.

    — Onde foi parar…?

    Ela iria terminar a frase, mas uma enfermeira bate na porta, perguntando se querem mais comida.

    Pionla destranca a porta, deixando-a entrar.

    — Agradecemos, mas não. Entretanto, tem uma coisa: vocês pegaram os nossos pertences? — Bauvalier pergunta, sério.

    — Sim, senhor. Nós guardamos, mas, se quiser, podemos trazer. — Ela responde, tranquila.

    — Sim, traga. É rápido. — O olhar dele se suaviza um pouco, e ele se vira para Roseta. — Foi muito corajosa ter ido na linha de frente. — Ele toca a palma da mão dela.

    — Agradeço o elogio… mas tenho certeza de que faria o mesmo por mim. — Ela sorri levemente.

    Ré e Pionla se entreolham e riem.

    — Vamos parar com toda essa breguice. — Pionla acena com a mão, brincalhona.

    A mulher volta, devolvendo a rapieira de Roseta. Pionla se aproxima e pega o alfinete antes que ela o entregue a Roseta. A enfermeira sai logo em seguida, deixando-os a sós novamente.

    — Vou ficar com isso, com licença. — Pionla pega a carta dourada e encosta no alfinete, fazendo-o brilhar. Sartor aparece com um sorriso.

    — Finalmente! Achei que não ia ter tempo de falar com vocês! — Ele se aproxima e dá um abraço forte nos gêmeos.

    — Tio… Sartor… muito apertado… — Pionla diz, ofegante.

    — Menos forte… tio… — Bauvalier tenta se soltar, claramente incomodado.

    O deus costureiro se afasta com um risinho.

    — Compreendo, sinto muito pela minha euforia. Mas tenho algo que vocês gostariam de saber.

    — O que seria? — Bauvalier pergunta, agora interessado.

    — Aquela linguaruda deixou escapar que essa pérola, que estava com a Tulipán, conseguia aumentar o que ela sentia… mas eu tenho quase certeza de que há algo a mais por trás disso. — Ele se encosta na parede, cruzando os braços.

    — Pode ser mesmo… e esse “a mais” pode ser uma amplificação. Isso explicaria como eles estão mais fortes que o normal. Mesmo com poderes divinos, não é comum tanta força assim. — Roseta sugere.

    — Mas a Ballet conseguiria fazer isso? — Ré pergunta, se aproximando um pouco.

    — Ela é mais antiga que eu e meu irmão, então não é impossível que tenha descoberto algo do tipo. — Pionla olha para os outros, levemente preocupada. — E agora que sabemos o efeito dessa pedra, dá para ter uma visão melhor da situação.

    — Será que ela não está aproveitando o poder da nossa avó? Usar essa praga como captador de poder seria bem a cara dela. — Bauvalier anda pela sala. — Lembro que Opala tinha uma pedra junto com ela… então não é a primeira vez que Ballet está testando isso.

    — Então nosso desafio não são só pessoas com poder de deuses… mas também uma amplificação desses poderes. A gente tá muito ferrado. — Ré coloca a mão no rosto, indignada.

    — Não fale assim, Ré. Lembre-se: já passamos por duas, o que são mais algumas? — Pionla passa a mão na cabeça dela. — Além disso, só falta o artefato do tio Red… e depois o pedaço da tesoura da minha mãe. Logo, tudo isso acabará.

    — É… você tá certa… mas eu ainda tô morta de cansaço, então… — Ela se afasta, se deita em uma das camas do hospital e dorme.

    — A gente tira ela daí depois… mas talvez a pergunta mais importante seja: onde está o próximo artefato? — Bauvalier questiona o tio.

    — Onde mais seria? Óbvio que na Cidade de Cartas… mais especificamente, abaixo da fonte na fronteira dos quatro Ás. Mas, se quiserem, fiquem com a charada. — Ele entrega um papelzinho. — Acho que já é hora de ir, até um próximo momento.

    Ele desaparece em um brilho dourado.

    Pionla pega o papel e começa a ler:

    “Estou na terra onde os aces se encontram em seu centro, e com suas ambições criaram um império.”

    — Partiremos amanhã. — Bauvalier olha para Ré, dormindo. — Mas vamos logo achar um lugar para descansar…

    Ele é interrompido por Locista, que tinha estado apenas escutando.

    — Com licença, senhor Bauvalier… eu meio que preciso ir para casa… — Locista diz, desanimada. — Eu prometi para ela.

    — Certo. Amanhã pediremos para a guarda de Ort Jouet te levar para casa. Mas hoje você estará sob nosso olhar, escutou, garota? — Bauvalier diz, decidido.

    — Tudo bem, senhor. — Ela dá um sorriso leve, feliz por poder ficar perto de pessoas tão especiais.

    — Já que está tudo resolvido, vamos logo achar um hotel para ficar. — Pionla olha para trás, encarando Tulipán. — Se quiser organizar uma festa de despedida, seria legal.

    — Sério… vocês gostariam? — Os olhos dela se abrem, animados.

    — Seria revigorante. — Bauvalier diz, brincando.

    — Vai ser ótimo, eu juro! — Tulipán se levanta da cama do hospital e sai correndo da sala, animada.

    — Acho que é hora de ir. — Pionla pega Ré nos braços.

    Eles encontram um hotel pequeno, mas confortável. Pionla coloca Ré na cama e vai conversar com o irmão no corredor.

    — Finalmente pude ter um tempo para falar com você. — Pionla se aproxima e dá um abraço em seu irmão. — Desculpa… desculpa por não te proteger…

    — Pionla… — Ele retribui o abraço. — Não seja assim, você não teve culpa. — Ele se afasta um pouco.

    — Eu sei… eu estava com medo. Mesmo sendo imortais, o medo da perda parece tão real… — Ela sorri de leve. — Juro, nunca mais vou deixar isso acontecer. Mas acho melhor te deixar descansar. — Ela se vira para voltar ao quarto. — Até amanhã, Bauvalier.

    Bauvalier fecha a expressão novamente e vai ao quarto, fechando a porta atrás de si e trancando por garantia.

    Seu olhar recai sobre um papel na cama. Ele o pega e lê:

    “Vejo que não responde às minhas tentativas de comunicação, mas pouco me importa, desde que o plano prossiga. Entretanto, espero que o caso não mude por motivos de emoção.”

    Ele cria um isqueiro com a mão e queima o papel por completo.

    — Não se preocupe com isso…

    Ele se deita e lembra daquele aviso de sua tia Orfelha: “Não será mais tu… tu.”

    Mas não era hora de pensar nisso… e sim de descansar.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota