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    Geist, tamashii, anima, soul, alma. Tudo que é vivo possui uma alma. As plantas com suas raízes, as bactérias tão pequenas, as aves no céu, as lagartas rastejando no chão, todas tem um espírito.

    É aquilo que os move, uma espécie de motor. Sim. Tudo que é vivo realiza movimento, ainda que você seja incapaz de vê-lo. Estrelas nascem, morrem e brilham. Planetas giram em torno do Sol. Meteoros, asteróides e cometas viajam pelo espaço.

    Até mesmo o universo, em sua imensidão, está em constante movimento. O que o move, e que também move os mortais, não seria outra coisa senão a alma. O primeiro motor, diria um certo homem.

    O primeiro motor imóvel. Aquilo que move sem ser movido. Ele impulsiona tudo e todos, concretizando todas as potencialidades que os seres possuem dentro de si mesmos. Alguns diriam que é Deus, outros que é o cosmo, motor, geist, tamashii… 

    As coisas são o que podem ser, e isso também vale para os seres humanos. Assim como os planetas, as estrelas, as plantas e os animais, eles também lutam para serem o que podem ser.  A eterna busca pelas possibilidades, a perseguição da sombra. 

    O que os diferencia, no entanto, é a infelicidade de poder duvidar disso.

    Os planetas não têm preguiça de orbitar. As plantas não hesitam em crescer. As estrelas não pensam duas vezes antes de explodir. Os meteoros, bem como os asteroides e cometas, voam sem fazer juízo de valor sobre o vôo.

    Aos humanos foi dada a benção ou maldição, a depender do ponto de vista, de olhar para tudo, inclusive para a própria existência e perguntar se faz sentido. Não, pior que isso: indagar se vale a pena. Afinal, de que adianta o sentido, se ele não vale a pena?

    A habilidade de sentir é o que forma a consciência de si e do universo, que, por sua vez, transforma a capacidade de sentir. Raiva, alegria, tristeza, nojo, desespero, esperança, dor e prazer dão corpo e significado ao mundo. Só é possível agradecer por algo, ou reclamar dele, se você ao menos puder sentir e pensar sobre ele. 

    Alguns são felizes no que fazem, outros querem acabar com tudo, com a vida, só em pensar em ter de fazê-lo outra vez no dia seguinte. É a condição humana em sua expressão máxima. O ser humano é o único a possuir o direito, dever ou pena de pensar e de sofrer por isso.

    Imagine se as plantas resolvessem não crescer, não realizar fotossíntese? E se as vacas interrompessem a produção de leite? As abelhas, com o mel? E se a Terra, de repente, decidisse parar de girar em torno do próprio eixo? E a Lua, em torno da Terra? E a Terra, em torno do Sol? E o sol, se quisesse parar de brilhar?

    Seriam desastres, não seriam? Óbvio. 

    Eles não podem pensar. Se pensassem, poderiam gostar ou detestar o que fazem. Como não pensam, são o que são. Não sofrem com o que são, sequer sabe o que “quem” deveria ser. Eles apenas são.

    Os humanos não apenas podem pensar sobre quem são, o que fazem ou o que deveriam fazer, como também podem se alegrar ou entristecer com tudo. Eles podem. Veja, as plantas não se importam se você cair e ralar o joelho.

    A Terra vai continuar girando, mesmo se um humano parar de trabalhar. A lua vai continuar orbitando, mesmo se você morrer. Nenhum deles vai parar. Até o sol seguirá brilhando, pois o que acontece com a humanidade não lhe diz respeito.

    As empresas podem quebrar, os hospitais podem ruir, o trânsito pode ficar vazio. Os atletas podem parar de correr, de saltar, de jogar, de lutar. Os estudantes podem largar os livros, jogar fora as canetas. Os problemas humanos são isso.

    Problema deles.

    Não há responsabilidade cósmica nenhuma reservada a eles. 

    E é justamente isso que traz o sofrimento.

    — — — 

    Uma frase veio na mente dele.

    — No código dos guerreiros, não há rendição. Seu corpo pode dizer chega, mas o seu espírito grita “nunca”. É assim que nós somos.

    Quem disse aquilo? Não sabia. Importava saber? Não. 

    — NUNCA!

    Ele continuava subindo. A lama dançava entre os dedos, e ele podia sentir a sola dos pés arrastando pedrinhas pontiagudas. Se pudesse ver, saberia que sangrava. Mas ele precisava seguir.

    Unome subia a montanha, que a essa altura parecia não ter fim. Seu corpo protestava, pedia greve, mas ele seguiu se arrastando. Coisas diversas giravam em sua mente. Frases e versos. Seria música?

    Aquilo fazia o coração queimar.

    — Isso é… 

    Estava quente. Não fervendo… era morno. Uma certeza misturada com vontade, queimando suave em seu peito. 

    — Vai ficar tudo bem.

    Desde que ele seguisse.

    — Eu vou conseguir.

    Desde que não parasse, chegaria onde queria. Ele cerrou os punhos e firmou os pés, ignorando todas as dores. Elas eram a prova de que estava vivo, não de que devia se jogar e desistir.

    E, bem, quando não se tem noção do tempo,  meia hora e mil anos não fazem diferença. Seu corpo, mente e espírito só pensavam em uma única coisa: chegar ao topo. Que se danasse todo o restante.

    Um pé depois do outro, um pé depois do outro. Movimento constante. Não pare, não pare. Apenas siga. Apenas ande porque, em algum momento… 

    — Isso é… 

    Luz.

    Uma bolinha de luz, tão diminuta quanto estrela no céu, mas era. Definitivamente era luz. Aquilo quase o deixou feliz, uma quase-satisfação ameaçou aparecer, mas ele logo a chutou para longe. Não se contentaria com pouco.

    Um pé depois do outro, um pé depois do outro. Unome seguia. Um pé depois do outro, um pé depois do outro. A bolinha virou uma bola. A bola virou um disco. O disco virou uma porta, depois uma parede… 

    Em seguida, o céu inteiro.

    Seus olhos arderam. Arderam como o inferno. Era tanta, mas tanta luz, que quase quis voltar a pisar as pedrinhas pontiagudas da lama. Quase, porque a visão foi estabilizando. Demorou um pouco para discernir os contornos.

    Estava frio. Frio como se tivesse entrado em um quarto gelado, depois de um longo banho. E de fato era um quarto… 

    Estava nos braços de uma mulher loira, rosto cansado, com um pano amarrado nos cabelos.

    — Ele é lindo, senhorita. E não chora. 

    — P-Posso vê-lo?

    A segunda voz chamou sua atenção. Era uma mulher de pele morena e cabelos negros, de rosto pequeno e muito bonito. 

    — Como é bonito… 

    Ele foi passado para as mãos dela, e ele rapidamente sentiu um calor imenso.

    — Meu filho… 

    Ele não fazia a menor ideia de que lugar era esse, ou o que estava acontecendo, mas de uma coisa ele sabia:

    “Mamãe.”

    Aquela mulher era sua mãe.

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