Argh… — um gemido de dor escapou de minha boca quando me sentei na beira da maca. Cada músculo do meu corpo parecia gritar, como se fossem incapazes de esquecer o duelo.

    Apertei a fronha com o pensamento. Felizmente, ao olhar para o lado, vi que estava sozinho. Havia pedido que Lya saísse primeiro para que eu pudesse me trocar em paz. Obviamente, depois de tudo o que viu, ela não queria ir embora.

    Seu rosto ranhento quando me abraçou forte ainda era bem vívido. Mas como não poderia me trocar na presença de uma mulher, tive que expulsá-la com alguns empurrões.

    Dei um passo para fora da maca, e meu pé descalço tocou o chão terroso.

    Devido às conversas bem preocupantes que enfrentei logo após acordar, quase me esqueci que esse lugar era só uma tenda improvisada. Ao menos parecia haver o básico.

    Olhando para trás, tinha a maca com um colchão duro e pinicante. Encostado num pilar, um espelho sujo. E uma muda de roupa  — que duvido ser do meu tamanho — dobrada em cima de uma cadeira junto de um par de sapatos.

    No entanto, uma coisa estava faltando: a minha espada.

    Era uma arma meio… bem, bastante vagabunda. A lâmina era quase cega e a empunhadura áspera demais. Mas ainda era algo que esteve comigo nos últimos anos. Precisava encontrá-la logo!

    Além disso, foi algo que Aurora me deu de presente.

    Torcendo para que a espada estivesse segura, peguei o punhado de roupas e os calçados e arrastei meus pés em direção ao espelho. A terra levemente úmida fazia cócegas, mas a sensação se perdeu quando notei as roupas que vestia.

    Não eram as que usava antes ou durante o duelo.

    Geralmente, eu utilizava roupas confortáveis e bonitas, mas isso… essas roupas que estavam no meu corpo eram completamente diferentes! Era uma calça bege sem graça e uma camiseta desbotada.

    E isso também significava que alguém viu minhas cicatrizes… Alguém havia visto a marca em meu peito esquerdo.

    Droga, quem poderia ter sido? Talvez Irene? Não, ele… ela era muito reservada. Dúvido que tocaria o corpo de alguém sem permissão. Lya muito menos. E nem preciso considerar o Johan. Então, só me sobra…

    Kaedra.

    — Ela não é, tipo, a pior pessoa que poderia ver isso? 

    Senti como se meu mundo estivesse desabando. Até mesmo me segurei no pilar do espelho apenas para ficar de pé. 

    — Não, Kaedra não tem, nem de perto, a aparência de uma cuidadora. Vamos pensar que algum enfermeiro cuidou de mim. É, deve ter sido isso que aconteceu.

    Esperando estar certo, troquei rapidamente de roupa. Para minha sorte, as que foram deixadas para mim caíram perfeitamente no meu corpo — além de serem bem bonitas.

    Uma blusa grossa de pelo de urso negro, acolchoado com o que parecia ser algodão, e uma camiseta branca confortável. Mesmo as calças eram boas, largas o bastante para me mover com liberdade.

    Fiz uma nota mental para agradecer a pessoa responsável por conseguir isso para mim. Então, depois de vestir o par de sapatos, finalmente estava pronto para sair.

    Conforme me aproximei do velho pano que substituía uma porta, murmúrios chegaram ao meu ouvido. Eram baixos, quase inexistentes, mas estavam lá.

    Não era como a gritaria do público durante o duelo, nem o som desorientador do festival. Na verdade, assemelhava-se bastante ao som de Veldoren antes de tudo isso.

    Quando minha mão finalmente puxou o pano, foi-me revelado o mundo exterior. Imediatamente fui atingido por uma porção de raios de sol, quase me cegando, mas logo me recuperei.

    A tenda se encontrava bem ao lado de onde antes estava a arena improvisada, ou seja, na praça da cidade. Mas, por algum motivo, quase todas aquelas pessoas haviam ido embora, deixando apenas uma ali.

    — Arthur! — Lya pulou em minha direção.

    Argh… — apesar da minha força de vontade, fui incapaz de segurar outro gemido de dor. Para minha sorte, ela parecia não ter percebido.

    Pelo contrário, durante seu abraço apertado, afundou o rosto no meu novo casaco.

    — É bom te ver também, Lya. Embora só tenham se passado alguns minutos.

    Quando olhei para o céu, pude notar que deveria fazer algumas horas desde que desmaiei. Considerando que Aurora e eu nos encontramos de manhã, devia ser próximo do meio-dia agora. Com isso, tive uma ideia.

    — Ei, Lya, quer almoçar comigo?

    — Sim! Sim! — Ela pulou de alegria com a sugestão, soltando-me.

    E, como se fosse natural, Lya tomou a liderança para si. Um sorriso floresceu em meu rosto de maneira tão natural que não pude o controlar. 

    Era como se ela já tivesse esse plano em mente, não?

    Soltando uma pequena risada, acompanhei-a pelas ruas animadas de Veldoren. Diferente da impressão anterior que tive, aos poucos as gargalhadas e berros voltaram a aparecer.

    Avistei as barracas de brinquedos que frequentei com Lya na noite passada, bem como alguns rostos familiares. Fossem só conhecidos ou Dolores e seus filhos, ainda eram familiares. E junto deles, o delicioso cheiro de comida também ressurgiu.

    O que Lya gostaria de comer? Conhecendo seu gosto por doces, talvez preferisse algo mais refrescante. Já eu, queria algo com bastante calorias!

    E Aurora…

    Pelo seu modo prático de viver, talvez uma sopa?

    Não, isso não possui a menor relevância agora.

    Balançando a cabeça, olhei de volta para frente — embora nunca tenha, realmente, parado de fazer isso. Foi quando encontrei o topo de uma cabeça de cabelo castanho.

    — Hum? — Surpreso, olhei para baixo, e ali estava um recém conhecido. — Edgar?

    — Oi, oi, Arthurzinho~.

    — Arthur… zinho? — repeti.

    Olhando para o sorriso desconcertantemente puro do rapaz, não pude deixar de ficar em silêncio. Não por grosseria, mas por não ter ideia de onde vinha tamanha intimidade.

    Se não estou louco, ontem foi a primeira vez que nos encontramos!

    Desviei o olhar dele. E, ao nosso lado, encontrei Lya o fitando perigosamente, como se Edgar fosse um inimigo mortal.

    — Olá para você também, Lya. Como é bom te ver.

    — O mesmo.

    Ambos trocaram uma breve saudação, mesmo que sem a menor cortesia. Sério, parecia que eram capazes de pular um no pescoço do outro a qualquer momento.

    Rapidamente, decidi intervir.

    — Então, Edgar, o que faz aqui?

    — Ah, sim! Lembra-se que vocês trabalharam comigo ontem?

    — É mesmo! Aconteceu algumas coisas e me esqueci completamente, hahaha.

    Talvez “algumas” fosse um eufemismo. Desde ontem à tarde, tudo tem sido bem agitado, desde a chegada de Kaedra até o duelo de hoje.

    Felizmente, Edgar parecia completamente alheio a esse último evento.

    — Tudo bem, também tenho enfrentado alguns empecilhos. Bem, mas agora as coisas estão mais calmas. Por isso, vim trazer a recompensa de vocês!

    O olhar intimidante de Lya finalmente mudou para um de pura alegria quando desceram até as mãos do jovem rapaz. E quando fiz o mesmo, encontrei uma enorme sacola com ele.

    Mesmo lacrada, o cheiro doce que emanava dela não poderia mentir: ali devia ter muitos picolés.

    — Nossa, isso é muito… — tentei dizer, impressionado, mas Lya me interrompeu no mesmo instante.

    — Muito obrigada, Edgar! Muito mesmo!

    Suas mãos decolaram em alta velocidade em direção ao carregamento de doces. E o jovem rapaz, embora tenha reagido ao ataque repentino, foi incapaz de guardar a sacola apenas para si.

    — Ei!

    Sem dar ouvidos para ele, Lya correu para trás de mim.

    — Sinto muito por isso. Prometo que ela normalmente não é assim.

    — Não, não, tudo bem…

    Edgar ajeitou suas roupas bagunçadas pelo puxão repentino, antes de olhar para mim outra vez.

    — Bom, já que estou aqui, queria saber se você tem algum plano para hoje?

    Planos? Acho que seria incorreto usar essa palavra, visto que não havia nada concreto. No entanto, definitivamente estaria ocupado.

    — Eu e Lya vamos almoçar em algum lugar, apesar de ainda não termos decidido qual.

    Como um balão murchando, a expressão de Edgar esvaziou-se num instante. De sua boca, alguns murmúrios sem sentido escaparam.

    Algo como “não deveria ser isso”? Sinceramente, ele falou tão baixo que foi difícil entender direito. Mas, como se fosse mágica, seu rosto se abriu em mais um sorriso.

    — Bom, se for esse o caso, tenho um excelentíssimo lugar para recomendar! Já ouviu falar no restaurante Toca do Guaxinim?

    Toca do Guaxinim? É um nome bem diferente, para não dizer outra coisa. Mas, estranhamente, parecia bem convidativo. 

    — Vou indo agora, Arthurzinho~! Tchau! E até mais para você também, Lya.

    Tão repentinamente como surgiu, Edgar desapareceu. Olha que nem é uma hipérbole. Ele sumiu mesmo.

    Olhei ao redor em busca dele, mas não encontrei um rastro sequer. Então deixei isso de lado e me concentrei em Lya. Mas quando voltei minha atenção para ela, suas mãos estavam prestes a cair naquela armadilha doce.

    — Não, Lya! A gente vai almoçar agora!

    — Espera, Arthur, só um pouco! Ainda nem tive a chance de comer! — Ela lutou para manter a posse da sacola, mas consegui tirar dela depois de alguns instantes.

    Toca do Guaxinim, hein? Não custa nada explorar esse restaurante exótico. Assim, andei em direção ao… Espera um pouco…

    Edgar não me contou onde o restaurante ficava.

    Apoie-me

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (1 votos)

    Nota