Índice de Capítulo

    O silêncio que se seguiu à intervenção de San Ryoshi foi mais aterrorizante do que qualquer explosão. A mão dele, fechada sobre o braço de Ryuji Arata, não parecia um bloqueio físico; parecia uma âncora prendendo a própria existência de Ryuji ao chão.

    Ao redor de San, a aura ciano escuro começou a pulsar. Não era uma luz vibrante como a de Naki ou elétrica como a de Ryuji. Era densa. Profunda. Carregada de um peso que fazia os pulmões arderem, como se o oceano inteiro estivesse se preparando para engolir a arena.

    Os olhos de San encontraram os de Ryuji. Sem ódio. Sem pressa. Apenas a frieza de quem observa um fato consumado.

    — Agora… — a voz dele desceu como uma explosão, vibrando nos ossos de todos os presentes. — …é minha vez.

    O movimento não teve aviso. Não houve o tensionamento de músculos, nem o som de pés buscando impulso. San simplesmente…

    Lançou.

    IMPACTO.

    O braço de San se moveu em uma velocidade que desafiava a física. Ryuji foi arremessado pelo campo como um míssil balístico. O corpo dele cortou o ar com um assobio estridente antes de atingir a primeira estrutura de concreto.

    O chão explodiu em sequência. O ar colapsou sob a trajetória do corpo de Ryuji, enquanto crateras surgiam uma após a outra, marcando o caminho da destruição.

    Tsubasa arregalou os olhos, a voz falhando na garganta. — Ryuji—!

    Mas a execução estava longe de terminar. Antes mesmo que o corpo de Ryuji parasse de ser lançado, San Ryoshi desapareceu. Foi uma questão de milésimos. Um piscar de olhos, e ele já estava lá.

    No ponto exato onde a trajetória de Ryuji terminaria.

    Ryuji ainda estava no ar, girando sem equilíbrio, sem controle, a visão turva pelo choque inicial. No instante em que percebeu a silhueta de San esperando por ele, seus olhos se arregalaram. O topo absoluto já havia chegado antes dele. Estava parado, em um silêncio absoluto, apenas esperando a gravidade entregar sua presa.

    San girou o corpo com uma elegância letal. A aura explodiu — um ciano escuro misturado com tons de preto, como energia apodrecida comprimida ao extremo, exalando uma pressão que fazia a realidade ao redor tremer.

    E então… o chute veio.

    IMPACTO.

    O pé de San atingiu o abdômen de Ryuji com a força de um terremoto. Mas o dano real não estava no choque físico. No instante do contato, o Sen de San se manifestou de forma monstruosa.

    Espinhos surgiram. Centenas deles.

    Ciano escuro e negros, eles explodiram pelo corpo de Ryuji de dentro para fora, como raízes assassinas crescendo através da carne. Os espinhos perfuraram os braços, as pernas, o peito e as costas em uma coreografia de violência pura. Sangue explodiu no ar, transformando-se em uma névoa vermelha sob a luz da arena.

    O corpo de Ryuji travou. Os pulmões pararam. O choque foi tão grande que ele nem conseguiu gritar.

    Então, veio o dreno. Ele sentiu o próprio Sen sendo devorado, puxado com uma fome brutal por aqueles espinhos, como se sua energia vital estivesse sendo sugada por parasitas.

    — …GHK—!!

    Ryuji cuspiu sangue. O sangue que ele mantinha sob controle ao seu redor começou a perder a forma, desfazendo-se em gotas inúteis que caíam no chão como chuva.

    San permaneceu estático após o golpe, observando Ryuji ser mantido no ar apenas pela pressão dos espinhos que o atravessavam.

    Tsubasa deu um passo à frente, o instinto gritando para intervir, mas parou. O corpo não obedeceu. Ele percebeu, com um pavor crescente, que aquilo não era uma troca de golpes entre rivais. Era uma execução pública.

    Karaku observava em silêncio, a Meta-Visão ativa, mas seus olhos mostravam que nem mesmo ele precisava de previsão para saber o resultado daquilo. Sander, ao seu lado, soltou um assobio baixo, o rosto pálido.

    — Caralho… — Sander murmurou, a voz trêmula. — Isso foi desumano.

    O corpo de Ryuji finalmente caiu. O impacto contra o chão foi brutal, um baque surdo de ossos contra pedra. Os espinhos se desfizeram em partículas escuras logo em seguida, desaparecendo no ar como se nunca tivessem existido.

    Mas o estrago foi absoluto.

    Ryuji estava envolto em seu próprio sangue. Perfurações marcavam seu corpo inteiro. E o pior: sua aura estava falhando. Ela piscava, instável, morrendo como uma chama que enfrenta um furacão.

    San Ryoshi começou a caminhar. Passos calmos. Pesados. O topo absoluto avançando sem a menor pressa, pois sabia que o destino já estava selado.

    Ryuji tentou levantar. O braço direito tremeu e falhou. Ele forçou o esquerdo. O corpo inteiro protestava, mas ele conseguiu erguer metade do tronco, apoiando-se nos restos de suas forças.

    Os olhos de Arata, mesmo sob o peso da drenagem e da dor, ainda queimavam. Destruído, esmagado, drenado… mas ainda acesos.

    San parou na frente dele, projetando sua sombra sobre o jovem caído. Ele olhou de cima, o rosto inexpressivo.

    — Você evoluiu rápido demais — disse San Ryoshi. A aura dele vibrou levemente, como um aviso final. — Mas ainda não alcançou esse nível.

    Ryuji respirou pesado, o som de sua garganta era um raleio de sangue. Ele limpou o canto da boca com a mão trêmula e, para a surpresa de San, ele sorriu. Foi um sorriso pequeno, quebrado, manchado de vermelho, mas era real.

    — …Então eu só preciso… — ele forçou o corpo a subir mais um centímetro, o olhar vermelho brilhando com uma teimosia que desafiava a própria morte. — …evoluir mais.

    O silêncio voltou a reinar.

    E então, pela primeira vez desde que o torneio começou, San Ryoshi sorriu de verdade. Foi um gesto mínimo, genuíno. O sorriso de alguém que, após muito tempo, finalmente encontrou algo que valia a pena destruir.

    O campo permanecia mergulhado em um silêncio sepulcral.

    Ryuji Arata estava de pé, o corpo sendo o único ruído naquela arena devastada. O sangue escorria de forma constante, desenhando poças escuras no solo rachado, enquanto sua respiração falhava em intervalos irregulares, como um motor quebrado tentando se manter ligado.

    Sua aura oscilava. Fraca. Quase invisível.

    Ao longe, Tsubasa Hayashi observava a cena com os punhos cerrados até os nós dos dedos ficarem brancos. Ele não conseguia se mover. Não era apenas o cansaço; era a compreensão lógica de que, se cruzasse aquela linha agora, seu destino seria o mesmo.

    San Ryoshi continuava parado diante de Ryuji. Calmo. Absoluto. Ele tinha a postura de uma montanha observando alguém tentar impedir um deslizamento com as mãos nuas: uma mistura de indiferença e inevitabilidade.

    Ryuji forçou o braço a subir. A mão tremia de forma violenta, os nervos gritando contra o esforço, mas, em um último ato de vontade, ele ativou.

    Sen Reverso.

    Uma energia de natureza oposta surgiu, profunda e fria. Linhas vermelhas de luz começaram a percorrer as perfurações em seu corpo, forçando os tecidos a se reconstruírem. O processo era lento, visivelmente doloroso, mas estava funcionando.

    Karaku percebeu a mudança técnica primeiro. — Ele está usando regeneração forçada.

    Sander franziu o cenho, o tom de deboche sumindo. — Depois de um impacto daqueles?

    San Ryoshi não disse nada, apenas observou o esforço de Ryuji. Então, a aura dele mudou. Os espinhos ciano escuros voltaram a surgir ao redor de seu braço, mas dessa vez eles não se espalharam.

    Eles se comprimiram. A energia foi refinada e moldada até tomar a forma de uma lança longa e grotesca, feita daquela mesma substância que drenava a vida de quem tocava.

    O ar ao redor da arma distorceu, como se o espaço não suportasse a densidade daquele Sen.

    Ryuji ergueu os olhos. Ele percebeu a intenção de San. Tarde demais.

    San desapareceu. Um piscar de olhos foi o tempo que a realidade levou para se ajustar.

    PERFURAÇÃO.

    A lança atravessou o peito de Ryuji com uma precisão gélida. O impacto seco ressoou pela arena, fazendo o corpo de Ryuji  travar instantaneamente. O sangue explodiu pelas costas, e a regeneração que ele tanto lutou para manter falhou no mesmo segundo.

    A aura de Ryuji apagou quase por completo.

    Silêncio absoluto.

    No vácuo da consciência de Ryuji, a voz do Sistema ecoou, fria e mecânica.

    [HP DO JOGADOR EM ESTADO CRÍTICO.]
    [PERCENTUAL RESTANTE: 5%]
    [PERCENTUAL RESTANTE: 5%]

    O mundo ao redor perdeu a cor. O som desapareceu, transformando o campo em um ruído distante e sem sentido. Só existia a dor — uma constante que preenchia cada fibra de seu ser.

    Ryuji cuspiu o gosto metálico da derrota, o corpo tremendo sem controle. Em meio ao vazio, um pensamento surgiu, pequeno, mas desesperadamente firme.

    …Eu não posso morrer.

    Sua mão afundou lentamente no próprio sangue espalhado pelo chão.

    Os dedos falhavam, mas fecharam-se em um punho.

    …Ainda não.

    San removeu a lança devagar. Sem pressa, sem sadismo, apenas finalizando um movimento. O corpo de Ryuji caiu no chão como um receptáculo vazio. Sander observava agora em silêncio… até ele tinha perdido o sorriso. Karaku mantinha a Meta-Visão ativa, analisando os sinais vitais que desapareciam, mas não pronunciou uma palavra.

    San Ryoshi apenas virou de costas. Não havia necessidade de confirmar o óbvio.

    — Acabou — a voz de San ecoou, calma, pela extensão da arena. — Essa é a diferença entre alcançar o topo… e desafiá-lo cedo demais.

    Ele começou a se afastar. Passos lentos e pesados, decretando o fim da batalha.

    Atrás dele, Ryuji permanecia imóvel sobre o solo manchado. A consciência estava no limite da escuridão, mas algo pulsou.

    Fraco.

    Lá no fundo.

    Sen Reverso.

    As linhas vermelhas reapareceram, instáveis, quebrando e falhando, mas insistindo em sua tarefa. Ryuji forçava o processo mesmo sem ter forças, mesmo com o cérebro em agonia.

    Ele forçava.

    As feridas começaram a fechar. O sangramento estancou. A respiração, embora rasa, estabilizou o suficiente. Só o suficiente.

    Mas o preço foi cobrado instantaneamente. A visão de Ryuji falhou por completo. O som sumiu de novo. O sistema nervoso começou a desligar para preservar o que restava.

    Tsubasa arregalou os olhos ao perceber o corpo de Ryuji relaxar de forma anormal.

    — Ryuji…?

    Ryuji tentou responder, mas a voz não encontrou o caminho. Seus olhos perderam o foco lentamente enquanto o Sen Reverso finalmente cessava. As feridas estavam fechadas, o corpo estava tecnicamente vivo, mas a exaustão era absoluta.

    Ryuji Arata desmaiou.

    O silêncio que se seguiu foi o mais pesado de todo o torneio. Naquele momento, todos na arena entenderam: ele tinha sobrevivido por um milagre de vontade, mas esteve a um único batimento cardíaco da morte.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota