Índice de Capítulo

    O segundo round começou de forma atípica.

    Não houve o estalo seco de ossos quebrando, nem o brilho imediato de explosões de Sen. Não houve o caos descontrolado do início do confronto. O que preenchia a arena era um tipo de pressão diferente: a expectativa.

    Ryuji Arata estava estático, mas sua mente trabalhava a mil por hora.

    Ao redor, o campo de batalha era um cemitério de destroços. As cicatrizes do primeiro round serviam como um lembrete amargo. O silêncio entre os quatro integrantes do time era denso, quase sólido, pesando mais do que a própria gravidade da arena.

    Afastado de todos, Kaede Shizuma permanecia como uma ilha de fúria. Ele estava de braços cruzados, isolado por escolha e por orgulho. Sua aura vermelha não fluía; ela escapava em espasmos instáveis, chiando ao redor de seu corpo como um animal selvagem encurralado em uma jaula pequena demais, pronto para morder qualquer mão que se aproximasse.

    Do lado oposto, a cena era outra.

    Ryuji, Naki e Tsubasa estavam próximos. Pela primeira vez desde que pisaram naquela arena, eles não eram apenas indivíduos fortes lutando no mesmo espaço. Eles eram uma unidade real.

    Tsubasa Hayashi mantinha a cabeça erguida, os olhos varrendo o terreno com precisão cirúrgica. Ele calculava distâncias entre os destroços, analisava os ângulos de ataque e processava cada milímetro de possibilidade. Ao seu lado, Naki Senrou ignorava todo o resto, mantendo o foco absoluto na figura de San Ryoshi.

    — O coração do time deles é o Karaku — a voz de Tsubasa saiu baixa, mas cortante como sua lâmina.

    Ryuji assentiu, sem desviar o olhar. — A Meta-Visão dele está controlando tudo. O ritmo, o tempo, as trocas… é ele quem dita a luta.

    — Sem ele prevendo nossas ações — continuou Tsubasa, sua análise fria preenchendo o ar —, San Ryoshi perde o suporte constante. Sander perde as aberturas que ele cria. E Renji… bom, Renji já foi neutralizado uma vez.

    O silêncio retornou por um breve segundo. Ryuji fechou os olhos. Por trás das pálpebras, ele organizava as peças. Construindo a jogada. No momento em que os abriu, a dúvida tinha desaparecido.

    — Então não vamos focar no San primeiro — Ryuji declarou, e os dois aliados inclinaram a cabeça para ouvi-lo. — A gente vai matar os olhos do time deles.

    Tsubasa sorriu de canto, entendendo o xeque-mate. — Karaku.

    O plano nasceu ali, rápido e impiedoso. Naki criaria a pressão frontal, usando suas chamas para erguer uma barreira térmica e visual, limitando o alcance da percepção de Karaku. Tsubasa exploraria os pontos cegos, alternando o ritmo e a velocidade para confundir os sentidos.

    E Ryuji seria o golpe final. Um ataque direto, impulsionado por tudo o que ele tinha, rápido demais para qualquer reação humana.

    Era o plano perfeito. Ou, pelo menos, era o que eles acreditavam.

    Do outro lado da arena, Karaku Sabito não se moveu. Ele permanecia calmo, a arma pendendo relaxada ao lado do corpo, observando o trio com uma paciência irritante.

    Então, o fenômeno aconteceu.

    A Meta-Visão de Karaku foi ativada. No mundo dele, as cores desbotaram e o tempo se tornou uma sucessão de quadros lentos. Linhas de trajetória surgiram no chão. Vetores de intenção brotaram dos corpos de Ryuji e seus aliados. Ele viu o futuro antes dele ser escrito.

    Vi Naki avançando. Vi Tsubasa sumindo pela lateral. Vi Ryuji surgindo exatamente onde o ponto morto de sua visão deveria estar. Ele viu cada frame do plano.

    Um leve sorriso, desprovido de qualquer emoção, surgiu em seu rosto. — Entendi.

    San Ryoshi, imóvel como uma estátua de gelo, percebeu a mudança. — Já viu?

    Karaku respondeu em um sussurro: — O futuro inteiro.

    O round explodiu.

    Naki Senrou foi o primeiro. Suas chamas ciano rugiram, expandindo-se violentamente e cobrindo o campo com uma cortina de calor absurda. O ar começou a tremer, distorcendo a luz e bloqueando a visão de qualquer um que estivesse à frente.

    No rastro do calor, Tsubasa desapareceu. Um movimento limpo, silencioso, usando a fumaça e as sombras dos destroços para se infiltrar nos pontos cegos da arena.

    Ryuji esperou o milésimo de segundo exato. O timing onde a confusão seria máxima.

    Ele avançou. O sangue ao redor de seu corpo explodiu em propulsão, transformando-o em uma bala humana que cortava a arena, rasgando o ar em direção ao peito de Karaku.

    Tudo estava indo conforme o planejado. A estratégia estava funcionando.

    Até que Karaku ergueu a arma.

    Sem pressa. Sem susto. Sem a menor hesitação.

    O cano da arma não apontou para Ryuji, que voava em sua direção. Nem para Tsubasa, que surgia na lateral. Karaku mirou o vazio. Mirou onde a cortina de chamas era mais densa.

    Ele mirou em Naki.

    Os olhos de Ryuji se arregalaram no meio do salto. O pavor gelou seu sangue.

    — NÃO!

    Karaku apertou o gatilho.

    No instante em que o tiro ocorreu, a realidade pareceu protestar. O espaço à frente do cano simplesmente quebrou. Não houve apenas um estrondo; houve uma distorção. Rachaduras negras, finas como teias de aranha, surgiram no ar como se o próprio céu fosse feito de vidro estilhaçado. A pressão atmosférica explodiu para todos os lados antes mesmo da bala cruzar a distância.

    Então, o impacto sonoro atingiu a arena. Um rugido monstruoso que fez o chão tremer sob os pés de todos. Uma onda de choque invisível rasgou o solo, criando uma cratera linear que acompanhava o trajeto do disparo.

    Tsubasa travou no meio do passo. Ryuji sentiu o corpo gelar. Aquele tiro não era algo que se pudesse desviar. Era uma sentença.

    Naki virou o rosto para o lado, mas o movimento era lento demais comparado à morte que vinha em sua direção. O disparo atravessou a cortina de chamas como se o fogo fosse feito de papel.

    O impacto foi seco, brutal, absoluto.

    O projétil atingiu o centro do peito de Naki. O corpo dele dobrou instantaneamente, o peito colapsando para dentro enquanto uma rajada de sangue e energia explodia por suas costas, manchando o ar.

    O chão abaixo de Naki cedeu. Suas chamas ciano falharam, apagando-se em um segundo de agonia. Ele foi lançado para trás com uma força desumana, quicando violentamente pelo solo rochoso por dezenas de metros até parar, imóvel, entre os destroços.

    Silêncio. Um silêncio pesado e irreal que sufocava os gritos.

    Ryuji parou o avanço, os pés arrastando no chão. Suas mãos tremiam. O plano inteiro… toda a estratégia e o trabalho em equipe… tinham sido pulverizados por um único tiro.

    Karaku baixou a arma lentamente. Uma fumaça rala e azulada saía do cano quente. Seus olhos ainda brilhavam com a luz fria da Meta-Visão.

    — Eu avisei — Karaku falou, sua voz cortando o que restava da esperança de Ryuji.

    Ele inclinou levemente a cabeça, focando seu olhar calculista diretamente no protagonista.

    — Eu já vi vocês perderem.

    O campo ainda vibrava levemente com o eco do impacto. Naquele momento, Ryuji entendeu a verdade cruel. Eles não estavam enfrentando apenas força bruta ou velocidade.

    Estavam lutando contra um homem que já vivia no amanhã.

    O campo ainda tremia.

    O eco do disparo de Karaku não havia desaparecido por completo, mas já era sufocado pelo som pesado da fumaça subindo do peito de Naki. O silêncio que se seguiu não era de paz; era o silêncio de um desastre em andamento.

    Ryuji Arata permanecia parado. Estático.

    Os olhos dele estavam fixos no corpo caído do companheiro. Naki tentava puxar o ar, mas os pulmões falhavam, e o sangue que escorria pelo peito dele parecia drenar também a esperança do time. Por um milésimo de segundo, as chamas ciano brilharam fracas na pele de Naki, tentando uma última resistência, apenas para se apagarem de vez sob o peso do dano.

    Do outro lado da arena, Karaku Sabito mantinha a arma abaixada. A expressão era a de um matemático que acaba de resolver uma equação simples. Ao lado dele, Sander Shimo soltou um riso curto, ajustando a postura.

    — Heh… — Sander murmurou, o olhar brilhando. — Isso foi pesado até para mim.

    Então, o centro do mundo mudou.

    San Ryoshi deu um único passo à frente.

    A pressão atmosférica na arena despencou. O campo inteiro pareceu afundar alguns centímetros, como se a própria estrutura da realidade estivesse se curvando sob o peso daquela presença.

    Ryuji, lentamente, ergueu a cabeça.

    Os olhos dele tinham mudado. Não havia a fúria explosiva de antes, nem o descontrole que costumava marcar seus picos de poder. Havia apenas um silêncio. Um silêncio perigoso, gélido e absoluto.

    Tsubasa percebeu a mudança no instante em que o ar ao redor de Ryuji começou a estalar. — …Ryuji.

    Ryuji não respondeu. Ele começou a andar.

    Não era um avanço impulsivo; era uma marcha direta, lenta e inevitável na direção de Karaku.

    Sander se moveu primeiro, raios negros explodindo ao redor de seu corpo enquanto ele cortava a distância. — Opa. Você não vai chegar nele tão fácil—

    Ryuji desapareceu.

    Sander arregalou os olhos, mas já era tarde. A imagem residual de Ryuji ainda estava no lugar original quando o corpo real já havia surgido à frente do adversário.

    O soco veio como um trovão.

    IMPACTO.

    Sander foi lançado violentamente pelo campo, atravessando uma estrutura de concreto inteira antes de colidir contra o chão com um baque que fez o estádio tremer.

    Karaku estreitou os olhos, a Meta-Visão trabalhando ao máximo. — Aumento repentino de pressão muscular…

    — Não — interrompeu San Ryoshi, observando Ryuji avançar com um interesse renovado. — Ele apenas parou de se conter.

    O sangue ao redor de Ryuji começou a vibrar violentamente. Não era mais uma defesa fluida; era uma massa agressiva, instável e mortal que parecia querer devorar o próprio ar.

    Karaku ergueu a arma novamente. As linhas do futuro surgiram diante de seus olhos. Possibilidades de movimento. Vetores de ataque. Fluxos de intenção.

    Mas, pela primeira vez, as linhas começaram a falhar. Elas piscavam, se dividiam em milhares de caminhos contraditórios e desapareciam.

    Karaku franziu o cenho, o suor frio escorrendo pela têmpora. — …O quê?

    As possibilidades de Ryuji estavam se multiplicando rápido demais para serem processadas. Os movimentos eram imprevisíveis, caóticos, movidos por uma violência que não seguia lógica alguma.

    Karaku disparou.

    Um tiro. Dois. Cinco.

    Ryuji inclinou o corpo para desviar do primeiro. O segundo atravessou o sangue residual que flutuava ao seu redor. O terceiro quase o atingiu, mas ele continuou avançando. Sem diminuir o passo. Sem hesitar por um segundo.

    Karaku recuou meio passo. Foi um movimento instintivo de defesa, algo que ele raramente precisava fazer. — …Ele está quebrando o padrão.

    Tsubasa, observando de longe com os olhos atentos, entendeu a gravidade da situação. — Não… Ele está forçando o próprio corpo além do limite físico.

    Ryuji finalmente chegou.

    Karaku, em um último ato de reflexo, colou a mira da arma direto no rosto do protagonista.

    Disparo.

    Ryuji inclinou a cabeça por meros centímetros, sentindo o calor do projétil rasgar o ar ao lado de sua orelha. Antes que Karaku pudesse recarregar, a mão de Ryuji fechou-se sobre o cano da arma.

    Silêncio.

    Karaku arregalou os olhos. Ryuji o encarava de perto, a face banhada pelas sombras da própria aura. A voz saiu baixa, carregada de um peso que parecia vir das profundezas da arena.

    — Você viu o futuro… — Ryuji murmurou.

    O sangue subiu pelo braço dele, moldando-se em espinhos e lâminas de um vermelho escuro e denso. Violência pura concentrada em um punho.

    — …então vê isso.

    Ryuji ergueu o braço para o golpe final.

    Mas, antes que o impacto descesse, uma presença surgiu. Atrás dele. Instantânea como um pensamento.

    San Ryoshi.

    A mão de San segurou o braço de Ryuji no meio do movimento. Sem esforço aparente. Sem explosão de energia. Apenas um bloqueio absoluto que travou o mundo ao redor deles.

    O campo inteiro congelou.

    Ryuji tentou puxar o braço, mas, pela primeira vez, o membro não se moveu um milímetro. A surpresa real finalmente brilhou nos olhos de Arata.

    San Ryoshi o encarava calmamente, com a serenidade de quem observava uma tempestade dentro de um abrigo seguro.

    — Chegou perto demais — disse San Ryoshi.

    A aura de San subiu. Não era luz, não era fogo; era um peso denso e absurdo, como uma calamidade antiga despertando de um sono milenar.

    — Agora… — os olhos de San Ryoshi brilharam com uma intensidade incontestável. — …é minha vez.

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