Capítulo 0203: Sem palavras
O Salão Hawk era humilde. Grande o bastante para abrigar, talvez, meia centena; paredes grossas e uma lareira próxima ao trono na extremidade oposta do salão — entre o trono e a ponta da longa mesa.
Nada que Siegfried já não tivesse visto. Exceto por uma coisa…
Estava andando pelo salão cheio de pessoas, quando deu de cara com uma garotinha de nove anos, cabelos loiros e olhos verdes. E sentiu o sangue gelar ao reconhecê-la.
— Mira?
— Sieg?
Mas não era seguro conversar em público, por isso Siegfried se virou para deixar o salão e ela o seguiu discretamente até o lado de fora, bem longe de ouvidos curiosos. Tão logo estavam sozinhos, questionou Mirabel:
— O que você tá fazendo aqui?
Ao invés de responder, ela o abraçou por um momento. Um abraço forte. E não foi preciso mais do que isso para entender que a garota havia passado por muita coisa. Abraçou-a de volta até que se acalmasse e então voltou a perguntar o que houve, desta vez um pouco mais gentilmente.
— A gente fugiu — explicou Mirabel. — Faz alguns meses. Depois que o conde morreu, a minha tia assumiu o Salão dos Poucos. Ela não tava bem. Nunca vi ela tão irritada. Expulsou a Elly e um monte de guardas. Disse que não confiava neles. Deixou que os homens do Barão Dalton protegessem o salão. A Dara ficou com medo. Disse que precisava fugir, então a gente ajudou ela.
— Peraí! O quê? — Siegfried sentiu o coração pulsar mais rápido. Tão rápido que parecia prestes a explodir. — Como assim? A Dara… A sua irmã tá aqui!?
— É, eu e o Sam trouxemos ela.
— Quê!?
— É — Mirabel sorriu orgulhosa. — Eu e ele fizemos como você ensinou. Protegemos ela e trouxemos até aqui. Quero dizer, a Elenor também ajudou. Ela mandou a Letya com a gente pra mostrar o caminho, mas fomos nós dois que protegemos elas.
Siegfried não tinha palavras.
O que aconteceu nesse último ano?
Pediu que Mirabel o levasse até Dara e foi o que ela fez. Dara e Mirabel dormiam em um pequeno alojamento próprio (aparentemente dividido com a tia delas, Ingrith Hawk; a nora da Baronesa Hawk). Mirabel se certificou de que não havia ninguém por perto e então o levou para dentro do alojamento.
Dara estava sentada na cama, tricotando um lenço ou algo do tipo, quando viu a irmã se aproximar com Siegfried ao seu lado e de repente congelou. Surpresa. Alegria. Medo. O rapaz também sentia tudo isso.
— Oi — foi só o que Siegfried conseguiu dizer.
Dara chorou e avançou. Siegfried pegou ela em seus braços e ficaram assim por horas… Ou um piscar de olhos. Era difícil dizer. Mas quando finalmente se afastaram um pouco, Siegfried a beijou e as palavras saíram sem pensar:
— Eu te amo.
Ela sorriu e disse o mesmo, limpando as lágrimas. Mas não se soltaram. Continuaram nos braços um do outro até que Mirabel e Letya (que o rapaz não havia notado até então) chamaram a sua atenção.
Se acalmaram, sentaram na cama e então vieram as explicações.
— Eu não tive escolha — disse Dara. — A condessa… Sem o conde pra controlá-la, ela enlouqueceu. Disse coisas terríveis. E o Barão Dalton… Tinha dito que eu precisava me casar com esse tal de Draco Whitefield, mas alguns meses depois o Barão Kessel enviou uma carta dizendo que o Barão Whitefield havia sido assassinado. Eu achei que o noivado havia terminado. E o Barão Dalton também. Ele começou a me cortejar. Me dar presentes. Dizer… Coisas. E quando eu contei pra minha tia. Quando eu falei de nós dois. Ela enlouqueceu. Disse que preferia me ver casada com um porco do que com você.
“Isso parece algo que ela diria.”
— S-Siegfried. Eu… E-eu preciso te contar uma coisa.
— O que foi?
— Tem um motivo pra minha tia ter ficado tão irritada. E pro Barão Dalton ter sido tão insistente. E-eles sabiam. Sobre nós dois, eu quero dizer.
Siegfried se manteve em silêncio, enquanto Dara respirava fundo e reunia toda a sua coragem para dizer:
— Siegfried. Nós temos uma filha.
E o rapaz sentiu o chão desaparecer sob os seus pés. Por sorte, estava sentado. Tentou perguntar algo, mas as palavras não saíram, então Dara continuou (as mãos trêmulas):
— Eu descobri um pouco depois que você partiu pra guerra. A minha tia estava muito ocupada com a própria gravidez pra prestar atenção na minha, mas descobriu. Bem! Eu acho que todos descobriram depois de um tempo, né? — E forçou um sorriso. — Quero dizer, foi meio difícil esconder depois que a minha barriga começou a ficar um pouco grande demais. Ninguém falou nada no começo, mas a minha tia descobriu.
A expressão de Dara ficou séria de repente.
— Ela disse que ia se livrar do bebê.
— …
— A princípio, ela tentou me acalmar. Disse que ia enviá-lo até algum templo. Prometeu que seria bem tratado; que estaria seguro. E minha mãe ficou do lado dela. Disseram que era o meu dever. Que eu tinha que pensar na minha família. Na minha reputação. E-eu não sabia o que fazer. Eu só… Sinto muito.
— Você não tem nada pelo que se desculpar!
— Depois que eu soube da morte do Barão Whitefield, eu tentei conversar com elas. Eu pensei… Eu pensei que nos deixariam ficar juntos. Mas a condessa surtou. Ela jurou que mataria o bebê se eu voltasse a mencionar você. E disse… Coisas. Ela tava furiosa. Não tive escolha. Se eu ficasse… Não sabia mais o que fazer. Então lembrei da Brynna e pedi pra Mira e o Sam conversarem com ela. Me ajudarem a escapar. E a Elenor aceitou. Ela arranjou uma condução pra gente. Achei que a minha tia fosse nos procurar no norte, então fomos pro sul, até Cidade Pequena. Pegamos um navio e, de lá, velejamos até o Condado de Embers. A Letya ajudou a gente no resto do caminho. Ela pôs a gente numa caravana mercante e conseguimos chegar até aqui em segurança. Não teríamos conseguido sem ela.
Siegfried deu uma boa olhada em Letya. Não tinha mais de sete anos e, da última vez que se falaram, havia ameaçado a sua irmã mais velha. Agradeceu a ela e disse que teria uma dívida eterna com a garota — Letya escutou, mas não lhe dirigiu a palavra.
E a parte mais difícil veio logo em seguida.
Dara perguntou a Siegfried o que ele havia feito nesse último ano. Devia mentir e sabia disso, mas era com a mãe de sua filha com quem estava falando e isso não lhe pareceu certo. Contou a verdade.
Falou sobre seu duelo com Eradan e a morte do Conde Gaelor. Falou sobre o acordo que o Barão Kessel fez com o Barão Whitefield e como haviam tomado o Castelo Silvergraft. Falou sobre os assassinos que a casa Essel enviou e sobre Gwen (que teria-o matado se não fosse pela Ethel). Contou a ela sobre a morte do Barão Whitefield e como tomou o Salão Branco; da dificuldade de mantê-lo e do que havia feito ao Barão Lawgard e seu filho. Contou sobre a Baronesa Whitefield e disse que agora era um cavaleiro (e os olhos de Dara pareceram brilhar de entusiasmo nessa parte).
Revelou a missão que o Barão Kessel havia lhe dado e sobre a morte de Ethel e Dalkon Lawgard, que o acompanharam. Contou-lhe tudo. Mesmo sobre o Castelo dos Ossos. E Eroth. Contou o inferno que foi para tomar o castelo e o motivo de estar seguindo ao lado de Brandon Donoghan.
— Eu ainda tenho uma missão.
Dara pareceu assustada ao ouvir isso, mas manteve a compostura.
Siegfried também não escondeu a vergonha do que havia feito. Contou sobre o que Anna havia lhe feito e, mais tarde, o que fez com a Lavina no Salão Branco. Revelou que estava casado com Eva e explicou o motivo por trás disso também.
Como era de se esperar, havia tristeza nela sempre que mencionava uma garota. Além disso, ela insistiu que lhe contasse tudo que pudesse sobre elas — saber que Lavina era apenas uma escrava e Eva, uma criança, foi o bastante para acalmá-la… Um pouco. Não estava feliz com o que havia feito, mas ainda assim aceitou bastante bem:
— Eu já imaginava que algo assim pudesse acontecer. Toda garota sabe o que os rapazes fazem quando vão pra guerra. Não é sua culpa. Você não sabia.
Essas palavras só fizeram Siegfried se sentir ainda pior. E após alguns minutos de silêncio carrancudo, Dara deixou a raiva de lado. Mas ainda restava a Siegfried uma dúvida:
— Cadê a nossa filha?

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