Capítulo 17 — Toca do Guaxinim
— Uau! Esse lugar é tão bonito! — exclamou Lya, ao meu lado, enquanto observava o lugar que Edgar havia recomendado.
Mesmo que ela exagerasse naturalmente de vez em quando, não pude deixar de acenar a cabeça em concordância dessa vez. À nossa frente, havia um restaurante com uma enorme estátua de guaxinim ao lado.
Grande o suficiente para acomodar várias famílias, o edifício tinha o brilho de algo novo. Além da estátua, havia também um chamativo telhado vermelho como chapéu e paredes de madeira branca polida.
Como Edgar não havia nos dito onde ficava, fui obrigado a sair perguntando por aí. Mas quando se possui algo tão exótico à vista de todos, não é difícil achar.
Enquanto estava perdido em admiração, a porta principal do estabelecimento foi aberta quando um casal saiu. No mesmo instante, fui abalado pelo poderoso cheiro de tempero, fazendo minha barriga roncar de fome.
A agarrei com força, desviando o olhar de uma Lya risonha ao meu lado. Mas a visão das expressões relaxadas daqueles que saíram do restaurante era um carimbo impresso na minha cabeça.
Eu realmente estou tão faminto assim? Embora não tenha comido muito hoje, ontem eu havia extrapolado com certeza.
Mas o ronco continuou, então agarrei o pulso de Lya e a levei comigo até lá. Quando chegamos na sala de entrada, no entanto, paramos.
— Arthur… você já foi em algum restaurante assim?
— Não, na verdade…
Simplesmente não tínhamos ideia do que fazer!
Embora houvesse um caminho livre até as mesas, havia, também, uma enorme fila de pessoas perto do que parecia ser uma recepção.
Já visitei algumas cidades próximas junto da senhorita Aurora, principalmente para realizar missões da guilda, então tinha o costume de comer fora. Mas essa experiência limitava-se apenas a pousadas e bares, não a lugares tão formais!
Com o rosto queimando de vergonha, esperei quieto pela nossa vez de sermos atendidos. Felizmente, a fila andou rápido.
Uma mulher jovem, não mais velha que eu e Lya, nos explicou brevemente sobre como funcionava, mantendo um sorriso no rosto a cada pergunta estranha que fazíamos.
Obrigado! Muito obrigado mesmo!
No fim, por ser um restaurante exclusivo do festival, era necessário fazer uma reserva antecipadamente. Senti minhas costas gelarem com a notícia.
Nunca esperei que fosse necessário marcar uma hora para comer, mas como era considerado normal, não havia muito o que pudéssemos fazer.
— Bem — cocei a nuca ao dizer —, acho que devemos ir a outro lugar então?
Embora minha voz fosse carregada de incerteza, Lya acenou em concordância, seu rosto tão vermelho quanto o meu. E, sem ao menos esperar mais, nos viramos em direção a saída.
Foi quando a mulher na recepção nos disse algo.
— Com licença! Mas ainda há uma mesa disponível. Se quiserem, podem reservar ela agora mesmo.
Rapidamente me aproximei e apertei sua mão em agradecimento. Depois de pagar pela mesa, eu e Lya fomos em direção a ela.
Já livre da preocupação de encontrar outro lugar para comer, me foi dada a oportunidade de observar com maior cuidado meus arredores.
O cheiro de pimenta se prendeu nas minhas narinas, despertando ainda mais o apetite. As conversas animadas das pessoas no restaurante também serviram para temperar a sensação de conforto.
Os olhos de Lya percorreram animadamente o interior quente, mas agradável. Quase como se fosse algo contagioso, os sorrisos alheios trouxeram alegria ao rosto dela, dissipando a vergonha anterior.
Não importa como eu pensasse, trazê-la aqui foi a melhor escolha.
Vendo que permaneceria distraída com seus arredores, a levei pelo restaurante até nossa mesa. Talvez fosse por conta dos pratos fumegantes, mas sua pele estava quente.
Nosso lugar era relativamente simples, com apenas duas cadeiras, um pano de mesa limpo e alguns utensílios, mas era algo que não se via por essas bandas.
— O que fazemos agora, Arthur? — Lya me perguntou.
Era minha primeira vez num lugar tão bem cuidado como esse, e parecia ser o mesmo para ela. Contudo, apesar de não ter certeza do que deveria fazer, estava tudo bem.
Contanto que Lya estivesse comigo, tudo daria certo.
Pensando assim, comecei a espiar a reação dela. Foi quando ouvi algo ao meu lado.
— Hahaha! Finalmente, depois de tanto trabalho, uma folga!
— Nem me diga… Se eu tivesse que ficar um dia há mais naquela carruagem, teria me atirado às margens de algum rio.
— Hahahaha! Só é uma pena que tenhamos que continuar com as armaduras…
Era impossível não notar as vozes. Não havia nada particularmente destoante no tom delas, no entanto, visto a enorme quantidade de famílias por aqui. Mas o que me atraiu foram as suas palavras.
Carruagem, hein? Eles poderiam ser…
E, confirmando minhas suspeitas, encontrei um grupo de soldados da Caravana Comercial de Trown descansando quando me virei.
O brasão cravado em suas armaduras de placas, formado principalmente por duas espadas se cruzando, foi a prova necessária.
A ausência dos capacetes habituais deles revelou expressões de divertimento em seus rostos. Embora houvesse uma distinção clara de idade, todos pareciam próximos.
Meu olhar caiu por um breve momento nos muitos pratos dispostos sobre a mesa, como sopas e massas que só havia ouvido falar. Mas existia algo que me chamou mais a atenção.
Escorado na quina da mesa, um sujeito encapuzado estava jogado na cadeira, sua cabeça frouxamente caída para baixo. Se não fosse pelos ombros que subiam e desciam de maneira sútil, pensaria que ele estivesse morto.
— Outro encapuzado? — deixei que meus pensamentos escapassem pela minha boca sem querer.
— Hum? — Lya, que em algum momento passou a me observar, seguiu meu olhar.
Apesar da possível reação dela ao ver alguém da caravana, não pude me dar ao luxo de desviar o foco da conversa dos soldados. Afinal, eles começaram a discutir algo importante.
— Então — um homem, de barba grisalha e olhos afiados que pareciam gritar “fique longe”, falou de repente —, o que vão fazer amanhã?
— Não sei vocês, mas amanhã quero explorar um pouco do festival! — um garoto jovem gritou.
Alguns dos que estavam sentados na mesa concordaram silenciosamente com a exclamação dele, mas também houve aqueles que discordassem.
— Tsk, esses jovens… Amanhã não devo sair do meu quarto. Lembrem-se: depois do festival, vamos ter mais trabalho até Brumere. E ainda mais trabalho lá!
As expressões, antes alegres, se fecharam imediatamente. A conversa calorosa não podia ser encontrada, não importava onde procurasse.
— Droga, por que temos que ir para aquele lugar? É uma tragédia!
— Ouvi dizer que ataques das tribos dos Homem-Fera ao redor da cidade aumentaram recentemente… Ir para lá não é, basicamente, uma sentença de morte?
Homem-Fera? Que eu saiba, o reino deles não possui uma boa relação com o Império Celeste, a qual pertenço. Era impressionante que existissem tribos deles por aqui.
Mas, ainda assim, ataques? Curioso, tentei aproximar meus ouvidos um pouco mais, inclinando-me na cadeira. Se vamos até lá, não é correto juntar o máximo de informações?
Talvez Aurora até me elogiasse.
Distraído em meus pensamentos, quase não percebi quando o homem encapuzado finalmente ergueu sua cabeça. Um murmúrio cansado escapou de sua boca enquanto se mexia de um lado para o outro.
— Eu gostaria de poder descansar amanhã. Infelizmente, não será possível devido ao show de fogos de artifício — ele falou com a voz suave.
— Ah, senhor Luke! O senhor ficará responsável pelos fogos, não é? Sim, só alguém como você seria capaz disso!
Bastou que o encapuzado, Luke, falasse, que a energia voltou aos rostos abatidos dos homens ao redor.
— Com você aqui, mesmo que aquelas feras nos ataquem, não temos com o que nos preocupar.
E, aparentemente, ele também era alguém de confiança. Mais curioso do que antes, tentei me aproximar outra vez, mas fui descuidado demais.
Um rangido desconfortável aos ouvidos escapou da cadeira quando raspou no piso de madeira, atraindo o olhar das pessoas próximas. E, claro, isso incluía os soldados da caravana.
— Precisa de ajuda? — Luke perguntou tranquilamente.
Eu realmente havia estragado tudo, não é? Droga! Deveria ter comido em paz com Lya.
— Ah, sinto muito… É que… — Tentei encontrar alguma forma de escapar daquela situação comprometedora — fiquei fascinado ao encontrar com cavaleiros, sabe? Sempre foi meu sonho virar um.
Sorri da maneira mais natural que pude, mesmo que meus lábios estivessem meio travados pelo nervosismo. Felizmente pareceu ser suficiente.
No mesmo instante em que ouviram minhas palavras, os soldados da caravana gargalharam como se ouvissem música.
— Hahaha! Veja só, talvez a nova geração não esteja perdida.
Logo a atenção deles se desviou de mim, retornando a debater sobre seus desejos do que fazer na folga. No entanto não foram todos que o fizeram. Quieto, Luke continuou a me encarar.
Era difícil dizer ao certo quando havia um capuz em frente ao seu rosto, mas depois de um caso semelhante recentemente, me tornei mais hábil para notar esse tipo de coisa.
— Espera, ele está olhando para você? — Lya perguntou ao meu lado, sua voz levemente trêmula. — Acho melhor sairmos daqui, Arthur, não quero que outra briga comece.
Hum, então foi por isso que ela pareceu apreensiva quando avistou os cavaleiros agora pouco. Queria descartar sua preocupação como algo sem sentido, mas não podia.
Não quando fiz o que fiz.
Enquanto me distraía com esses pensamentos, uma sombra se projetou sobre mim. De maneira que até mesmo seus companheiros não haviam percebido, Luke parou ao meu lado.
— Com licença? — falei sem pensar.
Sua aparição me assustou um pouco, principalmente pelo quando silencioso ele tinha se movido. De forma natural, minha mão buscou o cabo de minha espada, apenas para não encontrá-la.
É mesmo, eu havia perdido ela…
— Peço perdão ao interromper seu encontro, mas poderia conceder-me o privilégio de saber teu nome?
Seu modo rebuscado de falar causou arrepios, me deixando sem respostas.
Um modo de falar tão rebuscado… Agora que penso, as reações dos demais soldados pareceram muito extremas, não?
Era impossível enxergar a face do homem com clareza, então não podia confirmar isso por características físicas, mas… ele é um nobre.
Meus dedos, que antes procuravam pela minha espada, se perderam em direção a mesa. Os nós ficaram brancos conforme apertei o objeto.
Um nobre, alguém que, apenas por nascer numa boa família, é improvável que sofra de fome e conheça a miséria…
Embora meus pensamentos tenham corrido por um estranho vale de escuridão, logo retomei o meu eu habitual, soltando a mesa que agarrava.
Não era como se ele fosse tivesse culpa de ter nascido com mais sorte que os demais, não é?
Talvez tendo entendido meu silêncio como uma recusa de falar, Luke rapidamente quebrou o silêncio.
— Ao que parece, a tolice de não ter me apresentado pode ter ofendido-o — mesmo quando se desculpou, seu tom permaneceu sereno. E foi naquele momento em que seus dedos alcançaram o capuz sobre seu rosto. — Então, permita-me fazer isso corretamente.
Lentamente, o pano desceu até sua nuca. Do topo de sua cabeça, sedosos cabelos azuis se revelaram, caindo como cascata sobre os ombros. E quando a escuridão que cobria sua face se dissipou, um sorriso encantador surgiu.
— Chamo-me Luke Vitorion de Almeida, primogénito da baronesa Casa Vitorion. Atualmente, sirvo como mago de elite, contratado particularmente para ser um dos guarda-costas da Caravana Comercial de Trown. Além disso, também…
— Parou, parou, parou. Já entendi.
Esse cara… Como se lesse minha mente, fez tudo o que disse que não precisava fazer. Fora que é correto alguém da caravana ser tão boca aberta assim? Ainda assim, isso foi bom para mim.
Um mago de elite.
Se seres humanos fossem pedras com musgo, magos seriam quartzo refinado. E um mago de elite então? Uma estátua repousando nos corredores do palácio imperial.
Mas, independente do quão bela seja, caso bloqueie seu caminho, a estátua será apenas um obstáculo.
Me foquei na expressão de Luke, onde um sorriso quase puro pairava. Não parecia ter noção de como poderia estragar completamente os nossos planos. Para ele, era apenas um encontro casual.
Para ser sincero, só de imaginar já fico com dor de cabeça… mas seria ruim ficar em péssimos termos com ele. Por isso, estendi minha mão.
— Hum? — Ele inclinou a cabeça.
É mesmo, esse homem é um nobre. Não havia a mínima chance dele retribuir o aperto. É provável que se sinta ofendido, ou apenas ignore, como o tal do Johan.
Mas, diferente de minhas expectativas, Luke também estendeu a dele. Comprimentando-me firmemente, ele falou outra vez.
— É bom conhecer o senhor!
A força por trás de sua mão era insignificante, afinal era um mago, mas estava repleta de consideração.
E eu achando que todos os nobres eram arrogantes. Que erro da minha parte.
Mas, enquanto pensava sobre as diferenças das minhas expectativas em relação à realidade, notei que o aperto de Luke começou a fraquejar.
Então, quando olhei com mais atenção para ele, notei algo surpreendente.
— Ele… está dormindo?!
O homem à minha frente, um mago de elite da caravana e filho de uma casa nobre, estava dormindo bem no meio do restaurante.
— Senhor Luke!? Quando o senhor foi parar aí!? Bem que ele estava muito quieto…
— Nossa, ele dormiu de novo?
— Pelas Deusas, e ainda de pé!
Atraídos pela minha voz elevada, os soldados que antes conversam tranquilamente correram até Luke, segurando-o para que não caísse, e voltaram para sua mesa. Nem mesmo me deram um olhar.
— O que foi isso, Arthur? Aquele tal de Luke… ele está bem?
— Não faço ideia, mas finalmente foi embora! Agora, o que você quer comer, Lya?
Assim, meu encontro com os guardas da caravana finalmente chegou ao fim.

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