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    Após a aparente vitória, Hua Yuling Kai não se moveu, permaneceu parado, diante da destruição da batalha. O olhar perdido e sem esperança.

    A névoa havia recuado parcialmente, revelando apenas a silhueta distante de um navio ancorado ao longe.

    — Eles ainda estão lá… — murmurou Kai, os olhos fixos no horizonte.

    Ao lado dele, Fengran cruzou os braços e manteve uma expressão séria.

    — Irmão… quer que avancemos? Podemos reunir os discípulos restantes e tentar um contra-ataque.

    — Não. — A resposta foi direta, Kai sentia que era uma armadilha, e ele não podia perder mais homens.

    Antes que Fengran pudesse pensar, passos apressados ecoaram atrás deles.

    — Patriarca! Ancião Fengran!

    Um discípulo corria entre os destroços espalhados pelo chão, tropeçava nas pedras e pedaços de madeira destruídos. Seu rosto estava pálido e coberto de suor.

    Fengran se virou imediatamente.

    — O que aconteceu?

    Seu coração se apertou.

    Após o desaparecimento de Renyan e a partida de Xiuying para o Mar do Dragão, seu filho havia se tornado o sucessor natural da seita.

    — Seu filho… o jovem mestre Liuxian… ele foi para a torre… Wen Qishu Mei… ela está aqui!

    Fengran ficou sem palavras. Temeu pelo seu filho, sabia que Wen Qishu Mei era mais poderosa do que eles pensavam.

    — Bastardos! — Kai rugiu em fúria. — Era tudo uma distração. Eles querem resgatar o traidor Jiahao!

    Como se tivesse respondido às palavras de Kai, o mar se agitou violentamente.

    Uma enorme onda ergueu-se diante da ilha, tão alta quanto as muralhas que protegiam a seita.

    A massa de água colidiu contra as paredes com um estrondo ensurdecedor, e espalhou espuma e névoa em todas as direções.

    No centro do impacto, uma pequena nuvem negra surgiu diante deles.

    A forma espectral começou a se formar, negra, mas um tanto transparente. Aos poucos, começou a assumir uma aparência mais humana.

    — Muito bem… — falei, ao sentir meu corpo físico novamente. — Onde está Jiahao?

    Uma pergunta retórica. Eu já sabia onde Mei e Lefkó estavam: na torre do lado oposto da ilha. Todavia, se realmente queria aproveitar aquele singelo momento, deveria fazê-lo com um pouco mais de estilo. 

    Houve um instante de silêncio. Fengran e Kai deram um passo confiante à frente, quase ao mesmo tempo, os rostos sérios e carregados por um abatimento evidente. 

    — Resolveu aparecer e mostrar sua verdadeira natureza? — disse Hua Yuling Kai, já preparado para a batalha, com um fluxo constante de Qi circulando pelos meridianos.

    — Nunca a escondi. Sou tão humano quanto todos vocês… — Minha forma humana se materializou por completo, e eu os encarei enquanto gesticulava teatralmente com as mãos. — Todavia, estou sem tempo para explicações, então podemos ir direto à parte que realmente interessa.

    — Só me interessa a sua morte. — A resposta dele veio mais rápido do que eu esperava.

    Arregalei os olhos diante do ódio estampado no rosto de Kai. Eu esperava algo mais contido: orgulho ferido, arrogância digna do patriarca e governante da cidade. Entretanto, não havia orgulho algum. Apenas um ódio bestial, misturado a um rancor quase primitivo, semelhante ao que Mei demonstrara no porto. 

    — Que isso? Tenha calma. — Levantei as mãos para cima, em tom de deboche com a ameaça dele.

    Kai e Fengran trocaram um rápido olhar e avançaram juntos contra mim. Não precisaram trocar palavras, apenas confirmar visualmente o pensamento um do outro. 

    Meu tempo de reação foi curto demais. Quando percebi o ataque, as duas mãos brilhantes já estavam prestes a atravessar meu estômago. Se não fosse a névoa negra da carta do Louco, que puxou meu corpo para trás no último instante, minhas pernas jamais conseguiriam me fazer desviar. 

    Eles eram muito mais rápidos do que os demais, seus golpes eram mais cuidadosos, com quase nenhuma abertura para um contra-ataque seguro.

    Cobri meu corpo com a névoa, e me transformei na minha própria marionete. Era mais fácil deixar a carta decidir por mim, confiar nela, e obter os reflexos instantâneos, sem necessidade de pensar.

    Pensava estar seguro… 

    Inatingível, invulnerável.

    Uma pressão monstruosa esmagou meu peito.

    Instintivamente ergui o braço.

    Uma explosão de Qi atingiu meu corpo.

    O impacto me lançou para trás como uma pedra arremessada por uma catapulta. Abri os braços, e me transformei completamente em névoa para evitar que o impacto quebrasse algum osso ou acertasse um órgão vital. 

    Quando me materializei novamente, senti o sangue na boca, misturado com o vômito.

    Eu já havia aprendido que o Qi dos cultivadores conseguia interagir com o meu corpo, mesmo no meu estado etéreo. Primeiro, a facada de Hai Zi, a luta contra o tigre e o cultivador adormecido no lago, e posteriormente o duelo com Hua Yuling Jin.

    Minha maior dúvida era como. Eu fui incapaz de ver o golpe, eles conseguiram me atingir sem que eu pudesse desviar ou revidar. Sem Lefkó ao meu lado, eu teria de obter todas aquelas respostas sozinhos.

    Numa situação mais confortável, eu simplesmente invocaria o poder da carta do dez de espadas, desintegraria os dois e o problema estava totalmente resolvido.

    — Você me parece tão fraco… — Kai flutuava, em cima de uma espada tão grande como um homem. — Mas não cairei nas suas armadilhas, estrangeiro. Você se arrependerá de ter atacado o prestigiado clã Hua Yuling, os senhores do porto de Tianhang.

    — Não me arrependo de nada. — Limpei o sangue que escorria da boca, e mantive o olhar fixo neles, sempre atento.

    — Que técnica demoníaca ele usa? — Fengran se aproximou do irmão, também em cima de uma espada voadora.

    — Não. — Kai balançou a cabeça. — Tais técnicas ainda usam Qi. Ele utiliza outra coisa.

    Eu sorri, satisfeito e debochado. Era bom encontrar um adversário como Hua Yuling Kai, um homem esperto. E até agora, um dos poucos que via além do óbvio.

    — Meus parabéns, gosto disso. E então, você quer saber a verdade? — Girei a mão, e me preparei para ativar as habilidades das cartas.

    Kai não me respondeu. Em vez disso, encarou o irmão ao seu lado, também em uma espada voadora.

    Hua Yuling Fengran se posicionou a frente, levantou dois dedos da mão esquerda e os colocou na frente de sua boca. Seu corpo se tornou luz, intensa e brilhante. Era como olhar para o sol.

    — Morra, estrangeiro… — disse para mim, ao ativar sua técnica de combate.

    — Morrer? Sinto muito, mas hoje não é um bom dia para morrer.

    Um relógio de bolso materializou-se em minha mão esquerda, enquanto um longo cabo de madeira surgia na direita, seguido pela lâmina curva de uma foice. 

    Então veio o som. 

    Do lado de fora, como se viesse do mar, além das muralhas.

    Primeiro, o trote pesado de cavalos. Depois, um relincho agudo que pareceu congelar todos os presentes no campo de batalha.

    A muralha da seita, erguida com pedra reforçada por fragmentos de ossos de bestas espirituais, resistente o suficiente para suportar os canhões do Dedregado, cedeu como se fosse feita de barro.

    Duas criaturas equinas atravessaram a fortificação, destruindo tudo em seu caminho.

    O primeiro cavalo era branco, tão branco que quase refletia as chamas do incêndio que se alastrava pela ilha. Já o segundo, este possuía uma pelagem negra como uma noite sem estrelas. Nuvens de vapor escapavam das narinas dos dois animais a cada respiração, enquanto avançavam sem diminuir a velocidade, e esmagavam pedras, destroços e cadáveres sob os cascos.

    Atrás deles seguia uma biga sem condutor. Sua estrutura era ornamentada com detalhes dourados e coroas de folhas de louro, que contrastavam com a atmosfera sombria daquela aparição. 

    — Contemplem… — anunciei, com um salto calculado para aterrizar na plataforma da biga em movimento.

    Hua Yuling Kai e Hua Yuling Fengran permaneceram em silêncio. Pela primeira vez desde o início da batalha, não avançaram. Observavam as criaturas com cautela, sem precipitação para um ataque imprudente. 

    Ergui a foice acima da cabeça.

    Com a outra mão, abri o relógio de bolso e observei os ponteiros girarem, cada vez mais rápidos.

    Então sorri.

    — A Louca Carruagem da Morte!

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