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    “Mei, sua mãe está viva”.

    A frase ecoava na mente de Wen Qishu Mei, e se repetia sem parar.

    Era impossível para ela se concentrar totalmente na luta contra Hua Yuling Liuxian. A espada parecia pesar em sua mão, e os ataques eram cada vez mais difíceis de acompanhar.

    A iniciativa pertencia inteiramente a Liuxian. Era ele quem ditava o ritmo do combate, pressionando-a com uma sucessão de socos rápidos e precisos. Ainda assim, Mei conseguia aparar cada investida, embora com um esforço crescente, todavia, não conseguia encontrar uma chance de contra-atacar.

    Enquanto Mei confiava em uma técnica de espada, Liuxian lutava com uma arte marcial voltada ao fortalecimento dos punhos e à concentração do Qi nas mãos. Essa diferença lhe concedia uma pequena vantagem: o alcance superior de sua lâmina. Se Liuxian ainda não havia rompido sua defesa, era unicamente porque precisava atravessar a distância imposta pela espada.

    Distraiu-se por um instante, e deixou-se olhar para o cadáver caído de seu tio.

    Aquele pequeno momento de deslize, quase foi fatal. Mei jogou o corpo para o lado por puro instinto, e o punho direito de Liuxian colidiu contra a parede da cela.

    O adversário demonstrava uma imensa ferocidade, uma demonstração de vigor não compatível com o esperado.

    Ela era Wen Qishu Mei, uma verdadeira prodígio, na última camada do Primeiro Reino. Seu oponente, Hua Yuling Liuxian, um cultivador da décima nona camada do Primeiro Reino, era filho de Hua Yuling Fengran, o segundo no comando da seita dos Hua Yuling, irmão do patriarca Hua Yuling Kai. 

    Apesar de estar uma camada abaixo de Mei, Liuxian parecia estar acima dela, sua força, sua velocidade e sua determinação de vencer eram impressionantes.

    Ele recuperou-se do golpe contra a parede em um instante, e emendou um segundo ataque em sequência rápida. Um soco de esquerda na altura do estômago.

    Mei arregalou os olhos, genuinamente surpresa. Girou a espada em um amplo arco defensivo para interceptar o golpe, contudo, mesmo ao bloqueá-lo, foi empurrada para trás pela violência do impacto. 

    Respirou fundo, sua confiança estava abalada. Algo estava errado, ela não sabia exatamente o quê, mas com certeza havia algum truque. Algum tesouro oculto. Liuxian exibia a força de um ancião da seita. Sem sombra de dúvida, era o adversário mais poderoso que Mei já enfrentara fora de um treinamento.

    Não fazia sentido lógico. Aquilo era impossível.

    Se era verdade, um talento daquela magnitude não deveria permanecer oculto. Se Hua Yuling Liuxian possuía um potencial tão extraordinário, por que vivia à sombra de Renyan? Não havia lógica. O verdadeiro herdeiro da seita deveria ser ele, e não permanecer escondido da vista de todos.

    “Sua mãe está viva…”

    As últimas palavras de Jiahao voltaram a surgir em sua mente atribulada.

    Por um instante, sentiu-se traída. Abalada. Durante toda a vida acreditara que sua mãe estava morta. No entanto, aquele já não era o momento para se entregar à dor. Tinha que transformar toda aquela emoção negativa em determinação.

    Se sua mãe realmente estava viva, ela a encontraria.

    Finalmente realizaria o sonho que a acompanhava desde a infância: vê-la com os próprios olhos.

    Posicionou a espada à frente do corpo e deixou o Qi percorrer cada meridiano de seu corpo. Sua respiração não era mais de ondas de uma tempestade, mas como as águas serenas de um lago.

    O brilho emitido pela lâmina se intensificou, até se tornar uma densa camada amarelada que cobria todo o fio.

    — Não me faça perder tempo, ainda quero voltar para a batalha principal… — disse Liuxian em puro desdém.

    Ele deu um passo à frente e, como um relâmpago, surgiu diante de Mei, pronto para desferir um golpe fatal contra seu coração.

    Mei não se moveu. Permaneceu completamente imóvel.

    O ataque de Liuxian parecia inevitável.

    Contudo, ela não cairia novamente naquele mesmo truque.

    No instante em que o punho atravessou seu peito, Mei girou o corpo e desferiu um corte horizontal para a direita.

    Enquanto a figura à sua frente dissolvia-se como vapor, a ponta de sua lâmina encontrou o verdadeiro Liuxian. Colidiu violentamente contra o punho revestido de Qi.

    A defesa rápida de Liuxian forçou Mei a saltar para trás, para ganhar distância, e pensar em uma nova forma de encontrar outra abertura.

    — Nós temos pouco tempo… — Lefkó sussurrou para ela. — Vão disparar o Segundo Sol.

    Wen Qishu Mei olhou para baixo. Por um instante, havia se esquecido de Lefkó. A serpente branca estava tão leve que parecia não pesar em seu pescoço.

    Ela nem teve tempo para pensar muito sobre isso. Liuxian avançou novamente em alta velocidade, com a palma da mão aberta. Uma gigantesca mão translúcida, de coloração amarelada, materializou-se diante dele e disparou contra Mei. Sem muitas opções para escapar, ela revestiu o próprio corpo com Qi e ergueu um escudo para se proteger do ataque.

    Por um instante, acreditou que aquilo seria suficiente. Não era.

    Sua proteção foi rompida, e se fragmentou como cacos de vidro.

    Apesar de Hua Yuling Liuxian estar uma camada abaixo dela, seu ataque foi poderoso o bastante para quebrar a defesa de Mei.

    Ela foi empurrada para trás pela força do impacto e precisou fincar a espada no chão para evitar ser arremessada ainda mais longe.

    Levou a mão ao bolso e segurou o objeto com firmeza, preparando-se para revelar aquele tesouro. Se Liuxian possuía um tesouro oculto, ela também faria uso do seu. 

    Era uma pequena pérola esbranquiçada, pouco maior que uma bola de gude. Mei a ergueu diante dos olhos e concentrou todo o seu Qi no objeto. A luz irradiou-se pelo cômodo, tornando-se tão intensa que seria capaz de cegar qualquer desavisado.  

    Liuxian não reagiu. Permaneceu de frente para ela, com a expressão séria. Observava a adversária pacientemente, estudando cada um de seus movimentos enquanto aguardava o momento ideal para atacar.

    Mei perdeu o controle do próprio corpo. A pérola flutuava logo acima de sua mão, girava cada vez mais rápido, sua coloração passava do branco para um azul profundo enquanto a forte luz que emanava diminuía com o tempo. Ela não conseguia se mover. Uma dor excruciante irradiava do pé até a cabeça, e suas veias brilhavam à medida que seu corpo absorvia quantidades cada vez maiores de Qi da pérola.

    Ela gemeu de dor, tão alto que Liuxian se assustou por um instante. Logo, porém, um sorriso de satisfação surgiu em seu rosto.

    Incapaz de se mover ou sequer esboçar qualquer reação, Mei estava completamente desprotegida. Apesar disso, Liuxian aproximou-se com cautela. Os olhos dela expressavam puro terror, e sua confiança estava completamente abalada.

    A pérola não se parecia em nada com um verdadeiro tesouro, se apresentava muito mais como uma armadilha maldosa. Embora inundasse os meridianos de Mei com o mais puro Qi, toda aquela pressão exercida sobre seu corpo a transformava em uma estátua. Do que adiantava absorver todo aquele poder se ela estava completamente imóvel? Sem falar da dor que penetrava sua alma como mil agulhas juntas.

    Se pudesse falar, estaria amaldiçoando da primeira à última geração da pessoa que lhe entregara aquele tesouro. Todos aqueles em quem confiara durante toda a vida estavam mortos e, agora, a última pessoa que parecia demonstrar compaixão também a havia traído.

    Então, o golpe final de Liuxian veio.

    Diretamente em seu coração, o mesmo golpe usado em seu tio.

    A gosma negra envolta pela mão de Liuxian, pronta para destruir seu coração e abrir um buraco em seu peito.

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