Capítulo 8 Passado
Uma voz de preocupação e medo veio logo de cima dele.
— Ei, filho… acorda… acorda.
Billy sentiu o toque áspero de uma mão quente, a de uma mulher que já havia passado anos trabalhando duro.
— Vamos, amor, você tem que acordar… ACORDA LOGO!
Ela desferiu um tapa que fez um estalo alto, um barulho seco que ecoou pelo quarto inteiro.
Billy acordou no susto e levantou o tronco, sentindo-se cambaleante, como se toda a sua energia tivesse sido drenada de seu corpo.
— Amor, como você está se sentindo? O que aconteceu para ficar assim? E por que você está fedendo a sangue?
Percebendo que finalmente estava em casa, Billy olhou para sua mãe.
Viu-se deitado, com a camisa desbotada e aberta, o peito se movendo rápido enquanto respirava. Vendo o semblante dela ainda tomado pela preocupação, ele segurou sua mão.
Seus olhos se encheram de lágrimas novamente, revivendo tudo o que tinha acabado de passar.
— Mãe, perdão… desculpa… desculpa…
Ele ainda estava perdido no gosto do sangue, na sensação de sua mão contra o rosto do homem, no som dos ossos quebrando e das cartilagens sendo despedaçadas. Sentia o desespero do que poderia acontecer com sua família.
— Calma, filho…
Ela segurou o rosto dele, dando-lhe o afago que só uma mãe poderia dar.
Passou a mão pelos cabelos densos do filho, macios como lã de ovelha, e puxou sua cabeça contra o peito, pressionando-o num abraço apertado.
— Amor, eu preciso que você se acalme e me diga o que aconteceu para eu conseguir te ajudar, querido. Então, respire fundo e fale para mim…
Ele sentiu o bater do coração dela, e seu próprio coração começou a seguir o mesmo ritmo, acalmando-se aos poucos.
Sentando-se de frente para ela, Billy percebeu nos olhos da mãe o mesmo tipo de brilho que vira enquanto ela cuidava de seu pai. Mesmo surpreso, ele entendeu que aquilo era o reflexo do quanto ela estava preocupada com ele.
— Bom… eu não sei explicar ao certo o que aconteceu. É tudo tão confuso; nada faz sentido.
Minha única certeza é que eu tinha ido para a fábrica. Lá, o superior estava em cima de um palanque anunciando inúmeros nomes de quem tinha sido despedido.
Logo depois disso, nada mais faz sentido. Em um segundo eu estava no meio de todos, e no outro… eu estava socando a cara dele.
— Como assim, querido? Isso… no meio de todos?!
— Bom, era como se algo tivesse me preenchido. Em outro momento, um estouro aconteceu e, quando dei por mim, eu tinha matado aquele homem.
E o mais estranho de tudo: o mundo tinha parado. Era como se tudo fosse uma foto e eu fosse o único que podia se mover dentro dela.
Mas logo o estrondo pareceu passar e eu comecei a correr. Cheguei ao rio a tempo e consegui limpar um pouco do sangue, mas o senhor Filemon me parou bem na entrada… Ele sentiu o cheiro de sangue…
Marta se viu diante de uma situação quase fantasiosa. Olhou para o filho com um olhar profundamente preocupado, fez um leve carinho em seu rosto e se levantou.
— Querido, tire sua roupa. Rápido.
Billy, sem entender, obedeceu às ordens de sua mãe, ficando apenas de cueca.
— Mãe… por que seus olhos brilharam dourados agora há pouco?
— Assim que seu pai chegar, a gente vai conversar sobre isso.
Ela pegou as roupas sujas, levou-as até a varanda e logo ateou fogo nelas. Em seguida, entregou um novo conjunto ao filho, ajudando-o a se vestir e sentando-o à mesa.
Billy via sua mãe perdida em pensamentos, observando as labaredas de fogo consumirem o tecido por completo, o brilho do fogo iluminando o rosto dela.
— Mãe, pode, por favor, falar algo? Qualquer coisa…
— Já falei. Assim que seu pai chegar…
Horas se passaram em um clima tenso e completamente desconfortável.
Com o semblante de tristeza tomando conta de seu rosto, Billy tentava ajudar, mas ela estava completamente perdida em suas próprias memórias, engolida por remorsos e pesadelos do passado.
Tudo isso se quebrou assim que o barulho da porta se fez presente.
— Está tudo bem?
Logo, o sol que ainda iluminava a casa se esvaiu por completo. A escuridão tomou conta, restando apenas velas já gastas para iluminar a mesa onde estavam sentados.
Assim que entrou, o pai percebeu a tensão que pairava no ar, deixando até a respiração difícil.
Ele caminhou até a mesa e se sentou ao lado de Marta. Notando imediatamente que sua esposa estava sendo afligida pelas dores do passado, passou o braço sobre a cintura dela, trazendo-a para perto de si.
— William, chegou a hora… Você estava certo… — disse Marta, enquanto ele ajeitava as tranças que caíam sobre o rosto dela.
William caminhou para o canto da casa, puxou uma tábua de madeira no chão e a retirou com facilidade.
De lá, tirou uma pequena caixa de madeira entalhada.
Ela trazia o brasão de uma antiga família mercantil: um escudo com o entalhe de uma ave de rapina dos mares do sul, uma ave capaz de viajar tanto pelo ar quanto pelas águas.
Billy nunca tinha visto seus pais tão sérios, sem sorrisos ou palavras de afeição.
— Pai… Mãe… O que está acontecendo? Por que vocês estão assim?
O pai voltou para a mesa e colocou a caixa com o brasão bem na frente do jovem.
— Bom, filho, eu e sua mãe discutimos muito sobre isso desde o seu nascimento. E, bom… eu esperei sua mãe ficar confortável para dizer isso para você, já que esse passado foi muito cruel com ela.
— E, querido — interrompeu Marta —, quero deixar claro que você não está louco. A gente vai explicar tudo o que sabe. Então… tenha a mente aberta.
— Eu não estou entendendo nada… O que essa caixa com o símbolo de um pássaro tem a ver com os seus olhos dourados e com o fato de eu ter perdido o controle e matado um cara?
O pai estacou, chocado.
— Peraí… Como assim, matar?
— Bom, não literalmente — explicou Billy, confuso. — O que eu lembro é de acordar com a minha mãe me segurando e os olhos dela brilhando…
O pai olhou fixamente para o jovem.
— Filho, quem você matou?
— Foi o meu chefe. Aquele cara que era o supervisor da produção da minha fábrica…
— A gente lida com isso depois — disse o pai, tentando manter o controle. — Agora… tem coisas que você precisa saber, filho. Você já ouviu falar que os olhos são o portal da alma e que por eles conseguimos ver a verdade sobre uma pessoa?
— Sim, mas o que quer dizer então o fato de os olhos de vocês brilharem dourado…?
— A verdade, filho, é que nem eu nem sua mãe entendemos direito o que é isso. Mas o meu pai… ele tinha contatos. E, bom, uma verdade sobre qualquer família poderosa é que existem conhecimentos e entendimentos passados de geração em geração…
— Pai, se a gente fosse de uma família assim, você não teria quase morrido me protegendo das chicotadas, ou a mãe não teria tantas cicatrizes nas costas…
Logo após essa frase, sem perceber, Billy fez seus pais se lembrarem de algo que estava profundamente contido e escondido em suas mentes e corações.
Uma verdade dolorosa veio à tona: a de que uma única escolha pode moldar sua vida para sempre.

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