Capítulo 14 - Presa
No meio de uma clareira tomada pela floresta ao seu redor, deixando apenas alguns feixes da luz da lua emergirem, o leve brilho de seus olhos iluminava o local. O que outrora era como um sonho, virou completamente um pesadelo. Um sentimento ruim percorria todo o seu corpo, e ele se via preso em um limbo sem fim.
“Quem era aquilo?”, pensou. “Só pode ter sido uma nova alucinação. Não, aquilo era muito real para isso… com certeza era alguém como eu! Pensei tanto que no subúrbio da cidade seria relativamente seguro. Ah, que merda!”
Billy esbravejou, socando uma árvore. O golpe causou uma leve onda de impacto, fazendo a madeira absorver boa parte da força e deixando a casca e as fibras fragmentadas, como se tivesse sido batida por um martelo inúmeras vezes.
— Por agora, posso voltar e fingir que nada disso aconteceu… pelo menos até que eu descubra.
Seguindo de volta para casa, as correntes de ar frio penetravam em sua pele, causando calafrios. Cada passo se tornava cada vez mais pesado. Seu corpo parecia carregar o dobro do peso de antes, tornando-se uma luta constante para continuar andando. Vendo que tinha percorrido uma grande distância enquanto corria para dentro da floresta, tudo que podia fazer era torcer para estar indo na direção correta.
“Merda, merda, merda… preciso chegar antes que amanheça!”
Depois de mais algumas horas de caminhada, com as pálpebras, mãos e pele já congelando, ele andava em passos curtos. Após mais algum tempo, finalmente chegou à propriedade dos Filemon. Focado completamente em chegar logo ao seu quarto, foi direto para a área dos empregados e jogou-se em sua cama, empilhando todos os panos que encontrou pela frente.
— Billy, acorda!! — o senhor Kestel batia na porta, quase arrebentando-a do lugar, por ser uma porta simples e deteriorada pelo tempo.
Billy acordou no susto, pulando para fora da montanha de panos. Abriu a porta ainda com os olhos cheios de remela.
— Perdão, que horas são? — perguntou, levantando os braços e esfregando os olhos.
— Hora de trabalhar. Vamos! Se a governanta vir que ainda estamos no prédio dos empregados, nosso dia vai se tornar ainda pior — respondeu Kestel, já caminhando para as escadas.
— E tem como ser pior do que quase congelar no meio de uma floresta? — ele resmungou, igual a um velho rabugento.
Logo o dia começou a passar rapidamente. Billy já estava acostumado a entrar na sua rotina; o cansaço ainda em vista o atormentava durante todo o horário de trabalho, impedindo-o de pensar em qualquer coisa a não ser colocar o sono em dia. Chegando ao final da tarde, ele se viu junto com os outros empregados no salão principal do casarão. O ambiente contava com uma ala grande para bailes e uma área do jardim dos fundos bem cuidada para a apreciação dos convidados. Dentro do salão de festas, havia seis mesas de madeira. A governanta estava bem na porta principal de entrada. Ele era o único empregado negro ali.
— Então, vamos nos organizar. Os empregados da área interna ficarão responsáveis por limpar e encerar o chão; os da área externa, com o ajuste dos móveis e o posicionamento da decoração.
— Kestel, tem algum evento importante para a gente estar limpando o salão de festas? — Billy sussurrou.
— Sim, o Baile de Inverno da senhorita Julie.
Billy franziu a testa, pensando consigo mesmo: “Aquela garota com cara de merda… vai ser incrível ver ela discutindo com todos os visitantes”. Nessa hora, todos os empregados se dirigiram para suas respectivas tarefas, sobrando apenas ele.
— E você, “cão de rua”, tenho o serviço perfeito para você! — ela disse, com um sorriso estranhamente maldoso e racista.
“Merda”, pensou Billy, fazendo uma incrível força de vontade para esconder sua raiva e indignação.
Ela caminhou junto com ele para a parte lateral da casa, onde havia uma área com portas de alçapão. Pegou uma luminária corta-fogo e o encaminhou para dentro. A área estava lotada de teias de aranha, ferramentas, tubulações e encanamentos sujos e encardidos. Ali ficava a área da caldeira.
— Ouvi dizer que você ganhou um prêmio numa das fábricas de vergalhões, e que sabia muito bem como lidar com maquinário. Claro que achei que era tudo mentira, mas como saiu da boca do patrão, tive uma brilhante ideia: por que não pedir ao nosso “cãozinho” para ajustar a pressão da caldeira, já que ele sabe muito bem como lidar com maquinário, certo?
“Como eu odeio essa vagabunda desgraçada” — pensou ele, sentindo uma leve luminescência surgir de seus próprios olhos.
— Espero ver tudo consertado até o final do dia! — Ela saiu e trancou o alçapão, levando a chave consigo.
Billy olhou em volta e viu uma caixa de ferramentas que poderia tentar usar para ajustar a pressão. Ele tentou se lembrar do conhecimento da última vez, de cada passo que tomou para corrigir o erro daquele maquinário, mas nada vinha à sua mente.
“Isso é estranho… Antes, vinha com tanta facilidade.”
Ele começou a analisar os canos, tentando fazer quaisquer distinções, mas tudo o que conseguia entender era que eram canos de metal presos uns aos outros.
“Será que isso é culpa de ter abusado demais do poder? Não, na realidade… desde que aquilo aconteceu, desde que ouvi aquela voz me dizendo que ainda não era o tempo, eu parei de ter qualquer conhecimento que não tinha antes! Então, como vou corrigir essa merda de cano?”
Ele deu um leve tapa no metal. Imediatamente, a pressão do vapor estourou em sua direção, atingindo seu rosto em cheio. Ele passou um bom tempo gritando, sentindo a pele do seu rosto derreter. A dor era tão excruciante que ele caiu no chão, desmaiando pela agonia e pelo cansaço.
— Garoto… garoto! Vamos, bela adormecida, tá na hora de acordar! — Kestel balançava Billy, que ainda estava deitado no chão.
Billy acordou num sobressalto. Logo tocou o rosto, sentindo-o normal de novo, e olhou para Kestel.
— O que aconteceu?
— Eu também não sei. Fui pegar as chaves com a governanta para te soltar daqui e te encontrei desmaiado. Esperava que você pudesse me dizer o que ocorreu para estar atirado no chão desse jeito!
— Tudo que lembro é que tava mexendo nos canos, dei um tapa em um deles e a pressão do vapor estourou, indo direto no… meu rosto. — Ele tocou a pele novamente, percebendo que estava completamente bem, sem qualquer rastro de que seu rosto tivesse derretido pelo calor intenso.
Kestel olhou para o jovem, depois para os canos, e viu que alguns estavam amassados. Ele se voltou para Billy:
— Olha, tem alguns amassados ali. Deve ter saído um pouco de vapor e queimado o ar que tinha nessa sala. Você deve ter alucinado pela falta de oxigênio!
— Sim, deve ter sido isso! Só vamos logo lá para dentro, tô começando a congelar aqui.
Billy levantou e começou a andar em direção à saída. Ao passar pelo lado de fora, caminhando em direção ao prédio dos empregados, viu a governanta em uma das janelas do segundo andar. Ela exibia um sorriso satisfeito, que logo se transformou em espanto, e depois, em um ódio indescritível ao vê-lo ileso.
— Essa vadia, ela fez isso de propósito… — murmurou, caminhando para dentro e tentando esconder o fato de que havia percebido como a mulher o olhava.
No seu quarto, após o jantar, Billy olhava para o teto, sentindo um leve formigamento pelo corpo. Encarava as tábuas de madeira velha, notando o mofo acumulado e as teias de aranha nos cantos.
“Por que essa maldita cismou tanto comigo? Sei que sou negro, mas não consigo entender o que se passa na mente dela para desejar tanto a minha morte!”
Ele se mexeu e viu uma pequena aranha se movimentando na teia do teto.
“Ah, que desgraçada. Ainda faltam algumas semanas para o inverno, tenho que evitá-la ao máximo. Sem contar aquilo…” — Sua memória voltou para o calafrio que sentiu quando estava na floresta; a sensação de ser observado por alguma coisa, como um caçador espreitando a presa. “Dane-se, eu vou dormir!”
Ele se virou de lado para tentar descansar. Passou-se um tempo indefinido. Com certa inquietação durante a noite, ele se movimentou na cama até que, sem perceber, caiu em um sono profundo novamente. Dentro da sua mente, um turbilhão de sensações e pensamentos divergia. Ele mergulhou profundamente em seu subconsciente, até que abriu os olhos.
Viu-se num campo de trigo, com o vento movimentando e levando tanto o trigo quanto o joio. O céu estava azulado, com poucas nuvens, num belo dia ensolarado que refletia em suas retinas castanho-escuras.
— Akim!! Akim! — gritos ecoavam pelo campo.
Levantando-se do chão, deparou-se com uma enorme plantação que se estendia por todo o horizonte à sua volta. Podia ver apenas um pequeno galpão feito completamente de madeira. Viu então uma mulher, que se assemelhava muito com sua mãe, aproximando-se com um sorriso nos lábios. Ela tinha características bem marcantes: lábios carnudos, olhos grandes com sobrancelhas simples e um pano na cabeça que fazia suas tranças caírem pelas costas. Tinha um corpo volumoso, com ombros e quadris largos, bem delineado tanto pelo esforço físico quanto pela própria genética. Ela já estava a poucos passos dele.
— Akim, seu moleque! — Ela levantou a mão e deu um leve tapa no ombro dele, sem qualquer intenção de machucar, mantendo o sorriso no rosto. — Vamos! A gente tem que ir! O paizão Francisco é muito mole com você!
Logo, vários fragmentos de memórias inundaram sua mente. Lembrou-se de brincar com outras crianças, enquanto um velho senhor — usando chapéu, um conjunto de roupas elegantes e apoiado em uma bengala — os observava se divertirem. O homem dava ensinamentos, explicava como se chamavam as constelações e como se guiar por elas, contando como aquilo o havia ajudado quando era mais jovem.
Outra memória surgiu: ele caminhando pelos campos durante os dias de colheita. Com sua carroça, oferecia água para os trabalhadores, pegando copos de madeira e entregando aos adultos.
Uma lembrança ainda mais recente mostrava onde ele tinha aprendido os naipes do baralho. Estava jogando 21 com os outros, enquanto aquele mesmo senhor, secretamente, lhe dava uma dica ou outra. Todos o chamavam de “Pai Chico”.
Ele se lembrou de que ali se chamava Akim, e logo reconheceu a mulher à sua frente: o nome dela era Zuri. Percebeu que tinha vivido a vida toda naquele lugar, mas ainda assim sentia uma certa estranheza. Algo o incomodava profundamente, mas ele não sabia ao certo o que era.
— Que coisa estranha… — murmurou baixo.
— Que foi, Akim? Algum bicho te picou? Já disse para parar de ir para os cantos isolados do campo. Uma hora encontra uma cobra e vai ser igual ao Abdu: vão ter que chupar o veneno desse seu pé preto!
Uma nova memória veio à tona: ele realmente teve que chupar o pé do Abdu, cujo corpo estava cheio de lama! O rosto de Akim logo se contorceu de nojo.
— Mãe, por que tem que lembrar disso? Que coisa mais nojenta! Por que a senhora tava me chamando? — Ele parou para olhar a mulher. O entardecer já começava, deixando o céu alaranjado e realçando ainda mais o tom da pele deles.
— Por que será, né, moleque?! Fez a sua mãe percorrer quase metade do campo indo atrás de você! — A cada palavra, ela dava mais tapinhas nele.
— Tá, desculpa, não faço mais isso! Para de me bater! — Ele levantou os braços, tentando evitar os tapas.
— O paizão quer ver você! Então trate de se comportar. Ele não tá bem de saúde. O médico que veio da última vez disse que ele não tem muito tempo.
Com essa notícia, não houve mais conversa. Sua mãe fez um carinho em seu rosto, notando o seu semblante triste, até chegarem ao poço em frente ao casarão. Eles lavaram os pés para entrar na área de banho. Sua mãe o ajudou jogando baldes de água nele até que ficasse limpo, e ele vestiu sua melhor roupa. Passou no corpo uma água misturada com flores de dama-da-noite antes de entrar no casarão.
Bateu na porta. — Paizão Chico, posso entrar? Após algum tempo, ouviu uma tosse aguda e uma voz bem baixa: — Pode… sim… — acompanhada de mais tosses.
Ao entrar, viu um quarto de madeira com adornos e quadros. Havia uma mesa redonda à direita com uma poltrona, e perto da parede lateral, alguns armários e uma cômoda. Havia também um grande baú na ponta da cama, onde o senhor repousava. Na mesa descansava um prato com talheres de prata, e na cômoda, um abajur e um livro.
Akim logo se aproximou do senhor, que estava coberto por roupas grossas. Ele tinha a pele branca e rosada, com inúmeras linhas de expressão, a barba feita e cabelos brancos ondulados, embora fosse possível ver o couro cabeludo por entre os fios ralos.
— A mãe falou que o senhor queria me ver!
O homem fez força para sentar na cama, segurando um pano sujo de sangue que logo voltou a colocar na frente da boca.
— Sim, Akim… queria te ver, sim! — Ele estendeu a mão trêmula para a frente, que logo foi segurada com carinho pelo jovem.
— O senhor tem que melhorar. A gente ainda vai dar uma surra no baralho no Abdu e no Jamal!
— Claro! Meu filho vai vir para a fazenda cuidar das coisas aqui, então vamos poder jogar de novo! — disse ele, com um leve sorriso no rosto, endireitando as costas enquanto tossia ainda mais.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.