Capítulo 10 - Reflexo da Verdade, parte 3
A porta de carvalho rangeu, revelando a escuridão do corredor interno da residência.
Gravios aguardava no batente. O General não vestia a farda de gala ou a armadura pesada do Fronte; usava apenas uma túnica de algodão escuro e calças simples. Sem as ombreiras de ferro para alargar sua silhueta, ele parecia estranhamente humano. As faixas médicas contornavam seu pescoço e peito, ocultando as costelas fraturadas.
Com um aceno de cabeça mudo, o anfitrião deu passagem.
Vorn entrou primeiro, os passos pesados soando abafados nos tapetes felpudos do corredor. O gigante moveu-se com rigidez, mantendo o braço esquerdo engessado na tala de madeira estritamente colado ao peito, usando apenas a mão direita para fechar a porta atrás de Trok e Mirel.
O atirador e a garota seguiram o veterano até a sala de estudos de Gravios.
O cômodo era amplo, aquecido por uma lareira de pedra onde as chamas crepitavam baixinho. Prateleiras repletas de tomos antigos cobriam as paredes. No centro, uma pesada mesa circular de carvalho exibia um mapa tático de Lancrey, ladeado por canecas de barro e uma jarra de água fervida.
Caelan já estava lá. O garoto mantinha a postura reta perto da janela, vestindo uma camisa limpa que escondia o mapa de hematomas de seu torso. Ao lado dele, Liriel organizava alguns pergaminhos, a expressão séria de pesquisadora mascarando o alívio de ver o esquadrão inteiro vivo.
Vorn puxou uma cadeira com a mão direita e sentou-se pesadamente, soltando um suspiro rouco que fez seu peito largo inflar. Trok encostou-se em uma das estantes, cruzando os braços. Mirel preferiu ficar de pé perto de Caelan, os ombros encolhidos dentro da túnica larga, os olhos fixos nas chamas da lareira.
Gravios ocupou a cabeceira da mesa. O silêncio reinou por alguns segundos. A tensão daquela semana inteira parecia ter se condensado naquele cômodo fechado. Ninguém sabia exatamente como começar.
Então, o General apoiou as duas mãos espalmadas sobre a madeira da mesa e varreu o olhar por cada um dos presentes. Os olhos azuis, normalmente frios e analíticos como o aço de uma lâmina, amoleceram.
— Olhem para vocês — a voz de Gravios saiu grave, mas despida de qualquer tom de comando. — Quebrados. Remendados. Exaustos.
Vorn baixou os olhos, esperando a habitual bronca tática. Trok tensionou a mandíbula. Caelan prendeu a respiração.
Mas a bronca não veio.
Os cantos dos lábios ríspidos do General repuxaram para cima. As rugas ao redor dos olhos se aprofundaram. A expressão severa derreteu, dando lugar a uma expressão de puro e irrestrito alívio.
Gravios sorriu.
O ar na sala de estudos simplesmente sumiu.
Vorn arregalou os olhos, a boca entreaberta, piscando duas vezes como se tivesse sofrido uma concussão. Trok descruzou os braços, o corpo esguio perdendo o apoio da estante e quase tropeçando nos próprios pés. Caelan sentiu o coração falhar uma batida. Até mesmo Liriel, que morava com o homem há anos, paralisou com um pergaminho no ar.
Ele sorriu! O pensamento ecoou simultaneamente na mente de todos. A Lenda de Lancrey, o monumento de pedra e disciplina, o homem que nunca demonstrava fraqueza… exibiu os dentes num sorriso quente e genuíno.
— Eu estou feliz — continuou Gravios, a voz ganhando uma textura humana e vulnerável. — Profundamente feliz por todos vocês estarem vivos. Sobreviveram ao impossível. E fizeram isso juntos.
Um calor estranho preencheu o peito de Caelan. Mirel levantou o rosto, os olhos grandes piscando incrédulos. O peso do Fronte pareceu aliviar um milímetro dos ombros de cada um ali dentro. O sorriso do General não durou muito — logo os lábios voltaram a formar a linha reta de sempre —, mas o impacto daquele instante já estava cravado na memória do esquadrão.
Gravios pigarreou, retomando a postura ereta, e a atmosfera mudou novamente, assumindo a seriedade de um conselho de guerra.
— Chamei-os aqui porque precisamos repensar tudo — declarou o General, batendo o nó do dedo no mapa sobre a mesa. — O que aconteceu na Cratera de Ashfall não foi um acidente de terreno. O Exímio não funciona como os Arquivistas acreditam. A fenda, a mutação do Alfa, e acima de tudo… as ruínas intactas debaixo dos nossos pés. O Fronte está escondendo segredos vitais sobre a nossa sobrevivência.
— O senhor acha que aquilo não foi um caso isolado? — perguntou Vorn, a voz rouca, ajeitando a tipoia no braço esquerdo.
— Tenho certeza de que não foi. E nós também precisamos abordar o elefante na sala. — Gravios olhou diretamente para Caelan. — Aquela besta falou. Ninguém aqui teve alucinações. Todos nós ouvimos a mesma palavra no túnel desmoronado.
Trok engoliu em seco, olhando para a lareira.
— Um Racrydoth que recusa a matança. Um monstro que diz “Não”… — O atirador balançou a cabeça. — Isso implica inteligência. Implica consciência.
— Implica que nossa guerra não é contra bestas irracionais — completou Liriel, dando um passo à frente, os olhos afiados de pesquisadora brilhando. — Se as criaturas das Terras Exímias podem pensar, elas podem planejar.
— Exatamente — confirmou Gravios. — E é por isso que não confio essa informação a lordes que nunca pisaram nas cinzas. Se o pânico se instaurar, Lancrey destruirá a si mesma antes que qualquer Alfa alcance as muralhas. O conselho dos Lordes é covarde. Os Arquivistas são cegos por suas próprias teorias.
Vorn bufou, arrastando a cadeira um pouco para trás.
— Falando no conselho e nos engravatados, senhor… — O gigante inclinou-se para a frente, um brilho de curiosidade substituindo o choque inicial. — A sua audiência com o Rei Aldric e os Arquivistas terminou faz algumas horas. Como foi lá na corte? O que o senhor relatou sobre as ruínas e sobre a anomalia do Alfa?
A sala ficou em absoluto silêncio. Todos sabiam que o General Gravios era a personificação da honra militar. Um homem que jurou lealdade irrevogável à coroa e à verdade do Fronte.
Gravios olhou para a jarra de água sobre a mesa. Inclinou a cabeça de leve, os ombros subindo e descendo em um suspiro longo.
— Como foi a audiência? — Gravios repetiu a pergunta, erguendo os olhos azuis para encarar seus subordinados. Ele cruzou os braços sobre o peito enfaixado. — Eu nunca menti tanto na minha vida.
O silêncio reinou por três segundos inteiros.
A imagem da lenda impecável de Lancrey, o herói de guerra incorruptível, confessando com a maior naturalidade do mundo que havia descaradamente enganado o Rei da humanidade, foi simplesmente absurda demais.
Trok foi o primeiro. Um som estrangulado escapou do nariz do atirador, semelhante ao barulho de um porco engasgado. Ele cobriu a boca com a mão, virando o rosto, mas não conseguiu conter. O atirador soltou uma gargalhada genuína.
A risada de Trok serviu como um gatilho.
Vorn tentou segurar, mas o peito largo do gigante começou a chacoalhar. Ele jogou a cabeça para trás e a sala ecoou com o riso grave e trovejante do veterano, que logo levou a mão direita às próprias costelas, gemendo de dor sem parar de rir.
— Mentiu para o Rei! — Vorn gargalhava, lágrimas nos olhos. — A Lenda… A Lenda mentiu para os engravatados!
Caelan olhou para Mirel. A garota traumatizada, que passara os últimos sete dias presa num silêncio profundo, cobriu o rosto com as duas mãos, os ombros tremendo. Quando ela tirou as mãos, um sorriso largo e brilhante rasgava seu rosto, o som de uma risada doce e musical enchendo o cômodo.
Contagiado pela absurdidade do momento, Caelan riu. Riu das dores no corpo, do medo esmagador do Alfa, da poeira da cidade morta e da ironia de estarem todos vivos ali. Liriel abraçou o irmão pelos ombros, rindo junto com o esquadrão, a tensão do trauma finalmente encontrando uma válvula de escape.
No centro da mesa, Gravios não os repreendeu. O General fechou os olhos e permitiu-se outro sorriso sutil.
Aquela risada coletiva não era desrespeito. Era a prova viva de que as mentes de seus soldados haviam sobrevivido à podridão do Fronte. Era a catarse de quem caminhou no inferno e voltou para contar a mentira.

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