Capítulo 11 - Reflexo da Verdade, parte 4
Os ecos das risadas dissiparam-se lentamente na sala de estudos, substituídos pelo estalar reconfortante da lenha na lareira. Vorn limpou uma lágrima solitária do canto do olho com o polegar da mão boa. O peito do veterano ainda subia e descia no ritmo da respiração ofegante. Caelan ajeitou a postura, sentindo uma leve pontada nas costelas fraturadas, mas a alma parecia quilos mais leve.
Gravios permitiu que aquele momento de humanidade durasse o tempo necessário. Quando o silêncio respeitoso retornou, a Lenda de Lancrey voltou ao trabalho.
O General virou-se para uma pequena estante atrás de sua cadeira, puxou um tubo de couro rígido e extraiu um pergaminho grosso e amarelado. Desenrolou o documento sobre a mesa circular, cobrindo as táticas locais, e usou duas canecas de barro para firmar as pontas encrespadas. O cheiro de tinta seca e poeira antiga subiu ao ar.
Todos se aproximaram instintivamente. Mirel apoiou as duas mãos na beirada da mesa, os olhos curiosos varrendo as linhas irregulares desenhadas a carvão e sangue seco. Caelan inclinou o tronco, ignorando a dor no abdômen.
— Os nobres e os Arquivistas gostam de simplificar o terror — começou Gravios, a voz assumindo o tom professoral e letal de sempre. Bateu o indicador no centro inferior do pergaminho, onde um desenho rudimentar representava as muralhas de Lancrey. — Eles chamam tudo lá fora de Fronte. É um erro tático. Uma mentira confortável.
O dedo calejado do General deslizou alguns centímetros para cima, delimitando uma zona circular ao redor da cidade.
— O Fronte verdadeiro é apenas isso. Um raio exato de cinco quilômetros além dos nossos portões. É a nossa área de patrulha, o nosso quintal de cinzas e a trincheira de abate. Mas, além dessa linha invisível… — O dedo de Gravios cruzou a marca delimitada, apontando para a vasta imensidão desenhada na maior parte do pergaminho. — Começam as verdadeiras Terras Exímias.
Caelan engoliu em seco. O mapa não exibia florestas comuns ou rios. Era um catálogo de abismos.
— Nós mal arranhamos a superfície do inferno, recrutas — Gravios traçou uma rota com a ponta da unha. — Sobrevivemos à Cratera de Ashfall. É o primeiro grande declive, o portão de entrada para o submundo engolido. Logo após a cratera, o terreno se estreita na Passagem da Agonia. Um desfiladeiro de pedra negra onde os ecos dos passos enlouquecem qualquer batedor despreparado.
Trok acompanhava o traçado com os olhos semicerrados. Conhecia histórias sobre a Passagem, lendas de esquadrões inteiros esmagados por deslizamentos silenciosos.
— Passando o desfiladeiro, entramos na Floresta Sussurrante — continuou o General. — Árvores petrificadas. Troncos grossos como torres, abrigando abominações entre as copas mortas. Essa floresta deságua direto no Ninho Selvagem.
— Zona de procriação — murmurou Vorn, o rosto endurecido pela memória de campanhas passadas.
— Exato — confirmou Gravios. — Um labirinto de tocas vulcânicas onde os Xemios Maiores se reúnem. Vencer o Ninho significa chegar ao Cemitério dos Honrosos. Uma planície branca, coberta pelas armaduras e ossos dos primeiros Exploradores. Aqueles audazes o suficiente para marchar até lá e nunca mais voltar.
Mirel piscou, a respiração vacilando ao imaginar um mar de restos humanos servindo de banquete para o Exímio.
— E além do cemitério… a maior estrutura já registrada pelos mapas ancestrais. O Castelo do Bastião das Estrelas Eternas. — O General apontou para um desenho imponente no canto superior do pergaminho. Um forte colossal, de pontas góticas e agulhas cravadas no escuro. — Uma fortaleza de um reino esquecido. Completamente dominada pela corrupção. Sobreviver à travessia do Castelo nos coloca na reta final. A Trilha para a Beira.
O dedo de Gravios parou na extremidade superior do mapa, onde a tinta simplesmente acabava, dando lugar ao vazio intocado do papel.
— A Beira? — perguntou Caelan, a testa franzida. — O que tem lá?
A lareira estalou alto. Gravios recolheu a mão, cruzando os braços sobre o peito.
— Ninguém sabe — respondeu o General, a frieza habitual mesclada a um profundo respeito. — Os registros não dizem. Os Exploradores ancestrais não voltaram para contar. A Beira é o abismo final, o coração pulsante do Exímio, ou o limite do nosso mundo caído. É lá onde as fogueiras originais supostamente nasceram. E é o nosso objetivo final. A salvação definitiva de Lancrey encontra-se naquele precipício.
O peso daquelas palavras esmagou a sala. A jornada exigida parecia impossível. Cruzar aquele mapa era o mesmo que marchar voluntariamente para a boca aberta de um deus faminto.
Trok rompeu o silêncio opressivo. O atirador descruzou as pernas, empurrou o corpo para longe da estante e deu dois passos arrastados em direção à mesa. Ele apontou para as próprias ataduras sujas e, em seguida, para a tala de madeira no braço de Vorn.
— Com todo o respeito a esse plano suicida maravilhoso, General… — O atirador forçou um sorriso irônico. — Olhe para nós. Mal conseguimos ficar de pé sem gemer de dor. No estado atual da equipe, não conseguiríamos matar nem um Zecreo.
A comparação arrancou um bufo divertido de Vorn. O Zecreo era o Xemio Maior mais covarde já catalogado. Uma criatura trêmula de escamas finas, famosa por fugir e se enterrar nas cinzas ao ouvir o simples som de um virote sendo engatilhado.
— O atirador tem razão — concordou Vorn, acomodando o braço machucado sobre o colo. — Nossos ossos viraram pó. Nossas armas entortaram no casco daquela aberração violeta. Caelan e Mirel possuem potencial, mas ainda são recrutas recém-chegados.
Caelan não retrucou. Sabia perfeitamente de suas próprias limitações. A lembrança do Alfa esmagando a defesa de Mirel ainda o assombrava.
— E é por isso mesmo — Gravios apoiou os nós dos dedos na mesa, o olhar afiado passando por cada rosto ali presente — que nós não sairemos de Lancrey amanhã. Nem semana que vem.
O General assumiu a postura inabalável de comandante.
— Vocês aperfeiçoarão as próprias habilidades. Treinarão até os músculos esquecerem como falhar. Caelan e Mirel precisam aprender o ritmo de batalha do veterano Vorn. Precisam entender os pontos cegos de Trok para oferecer cobertura. Conhecerão uns aos outros como peças de uma mesma engrenagem. Só voltaremos ao Fronte quando essa unidade estiver impecável.
Todos assentiram. A lógica de Gravios era absoluta.
— Porém… — O General ergueu o queixo, um brilho perigoso surgindo em seus olhos azuis. — Sincronia perfeita e coragem não cortam uma carapaça violeta. A nossa forja padrão é inútil contra um Alfa modificado.
Ele recuou um passo, assumindo uma postura quase cerimonial.
— Contatei uma pessoa hoje cedo. Um ferreiro do distrito restrito da fortaleza. Um dos últimos descendentes diretos de Markyu.
O nome fez os olhos de Vorn arregalarem-se em surpresa genuína. Markyu, o Primeiro Forjador. A lenda dizia que as marteladas originais de Markyu forjaram os portões de Lancrey.
— Ele concordou em trabalhar conosco — finalizou Gravios, o tom carregado de uma promessa letal. — Ele criará armas e equipamentos sob medida para este esquadrão. Ferramentas pesadas o suficiente para esmagar os ossos do Alfa e carapaças capazes de suportar as chamas invertidas.
O silêncio retornou à sala de estudos, mas agora não havia tensão ou medo. Havia propósito. Caelan sentiu o sangue correr mais rápido pelas veias. O pavor começava a ceder espaço para a determinação.
— Descansem. Curem essas feridas. Comam até recuperar a força — ordenou Gravios, com um aceno definitivo. — O inferno nos aguarda, mas nós não desceremos até lá desarmados. Reunião encerrada.

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