Capítulo 12 - Passos na Cinza
Lancrey despertou sob o habitual manto espesso de fumaça e neblina. O sol matutino não passava de um disco pálido tentando rasgar o céu cinzento. Nas ruas de paralelepípedos úmidos, o som constante de bigornas martelando aço ecoava como o coração metálico da cidade, um lembrete perpétuo de que a paz era apenas uma ilusão temporária.
Mirel desceu os longos degraus de pedra do alojamento leste. Cada movimento de suas pernas exigia esforço calculado. As ataduras de linho apertavam seu torso, limitando a respiração, e os músculos ainda gritavam em protesto contra o esforço. Mas ela não parou.
Forçou-se a colocar um pé na frente do outro. O ar gelado da manhã bateu contra seu rosto, carregando o cheiro forte de carvão queimado e raízes assadas. Fechou os olhos por um segundo, absorvendo o ruído caótico do distrito comercial. O burburinho de mercadores, o trotar dos cavalos de carga e os gritos distantes dos oficiais de patrulha preenchiam seus ouvidos.
Era o som da vida.
Após sete dias trancada na penumbra do quarto, refém dos ecos distorcidos do abismo e do fedor de memórias queimadas, sair da cama significava uma vitória monumental. O sorriso surpreendente de Gravios na noite anterior e a risada compartilhada com o esquadrão serviram como uma âncora. O Fronte havia tentado engoli-la, mas a garota fincou as botas na pedra de Lancrey e recusou-se a afundar.
Caminhou devagar pelas ruas estreitas, desviando de carroças e de cidadãos apressados. Ao se aproximar da praça do relógio de sol, no encontro das ruas principais, notou uma silhueta familiar cortando a multidão.
Caelan caminhava com passos firmes e decididos. Vestia uma túnica simples de lã grossa, a espada curta embainhada na cintura por puro hábito militar. O garoto mantinha o queixo erguido, os olhos atentos, muito diferente do recruta apavorado que chorava no escuro das ruínas. O propósito forjado na reunião secreta havia refeito sua postura.
Mirel ergueu a mão, acenando de forma contida.
Os olhos de Caelan a encontraram. A expressão dura e focada do garoto suavizou-se imediatamente. Ele mudou a rota, desviando ágil de um carregador de lenha cego pelo peso da própria carga, e parou diante da garota.
— Sobreviveu à caminhada? — perguntou Caelan, oferecendo um meio sorriso torto, os olhos avaliando os ombros levemente encolhidos da colega.
— Sobrevivi à própria mente, o que já é um milagre — respondeu Mirel, cruzando os braços com cautela para proteger as costelas doloridas. — Ficar trancada naquele alojamento ouvindo o silêncio estava me enlouquecendo. Precisava ver o céu. Mesmo esse céu feio.
Caelan assentiu, olhando brevemente para as nuvens pesadas. O garoto compreendia a sensação com uma precisão cirúrgica.
— Faz bem sair da toca — concordou ele, apoiando os polegares no cinto de couro. — O ar aqui em cima tem cheiro de fuligem, mas pelo menos não fala com a gente.
A menção sutil ao Alfa trouxe uma sombra passageira aos olhos de ambos. O trauma de escutar uma fera articular uma negação formava um laço invisível e inquebrável entre eles. Um peso exclusivo dos poucos que sabiam a verdade.
Mirel sacudiu a cabeça de leve, espantando a lembrança, e observou a direção da rua.
— Você cruzou o setor militar inteiro. Não está indo para os campos de treinamento, as arenas ficam para o sul. Para onde vai com tanta pressa?
Caelan girou o tronco de lado, apontando o queixo para o horizonte interno da muralha. Lá, erguendo-se majestosa no centro do distrito superior, a Torre dos Arquivistas furava o céu como uma imensa agulha de rocha negra. As janelas circulares do prédio abrigavam o conhecimento de todas as gerações perdidas.
— Vou ver Liriel — revelou a voz ganhando um tom grave e cauteloso. — Gravios nos deu um alvo ontem. A Beira. Mas marchar para o limite do mapa confiando apenas nos instintos é suicídio puro. Minha irmã tem acesso irrestrito aos tomos proibidos das primeiras expedições.
Mirel descruzou os braços, surpresa com a iniciativa tática do garoto.
— Acha que ela pode encontrar algo sobre o Alfa? Ou sobre o que tem na Beira? — perguntou a recruta, baixando o tom de voz para evitar ouvidos curiosos na rua.
— Ela é a melhor decifradora de mapas antigos de Lancrey — respondeu Caelan, a convicção brilhando no olhar. — Se existe alguma menção a monstros sofrendo mutação pelo fogo humano, ou um relato sobrevivente do que aguarda no fim da Trilha, Liriel achará as páginas. Precisamos de vantagem antes que as novas armas de Markyu fiquem prontas.
A determinação de Caelan era contagiante. O pavor dera lugar a um pragmatismo afiado. Mirel ajeitou a gola da túnica, endireitando os ombros apesar da fisgada de dor.
— Quer companhia? — ofereceu a garota. — Quatro olhos lendo pergaminhos empoeirados encontram segredos mais rápido que dois.
Caelan balançou a cabeça, recusando a oferta com um gesto suave das mãos.
— Melhor não. Os Arquivistas são paranoicos por natureza. O velho Silas faria um escândalo se visse dois Exploradores sobreviventes farejando as alas restritas da biblioteca. Eu sei como me infiltrar no laboratório da Liriel sem chamar atenção da corte.
Ele deu um passo para trás, preparando-se para retomar o caminho, mas lançou um último olhar encorajador para a colega de esquadrão.
— Volte para o alojamento, coma direito e recupere essas pernas. Logo o treinamento de unidade começa, e Vorn não terá piedade das nossas costelas remendadas.
Mirel permitiu que um sorriso sincero nascesse em seus lábios.
— Vá decifrar seus mapas, garoto. Quando chegar a hora, não serei eu a atrasar o esquadrão.
Eles acenaram uma última vez. Caelan virou as costas e sumiu meio à multidão barulhenta, rumo aos segredos guardados na Torre negra, enquanto Mirel virou o rosto para o vento frio de Lancrey, sentindo, pela primeira vez em semanas, vontade de viver o dia de amanhã.
A Torre dos Arquivistas erguia-se como um monólito de rocha negra no centro do distrito superior, desafiando a neblina perpétua de Lancrey. Caelan adentrou o salão principal em silêncio. O cheiro de cera derretida e poeira antiga invadiu as narinas do garoto. Para evitar os olhos investigadores do Arquivista-Chefe Silas, escolheu a escadaria de serviço, uma espiral estreita e mal iluminada usada apenas pelos aprendizes.
Subiu os degraus de pedra com cautela absoluta, poupando as costelas recém-curadas.
No quarto andar, a ala de cartografia restrita cheirava a segredos esquecidos. Caelan empurrou a pesada porta de carvalho. A sala circular exibia dezenas de mesas abarrotadas de mapas amarelados e livros de couro gasto. Liriel inclinava-se sobre um tomo imenso, a luz vacilante de um candelabro iluminando os fios escuros soltos de suas tranças. A pesquisadora acompanhava as linhas do texto com a ponta do dedo indicador, a testa franzida em concentração absoluta.
Caelan pigarreou, quebrando o silêncio fúnebre do ambiente.
Liriel sobressaltou-se, erguendo o rosto num solavanco. Ao reconhecer o irmão, os ombros tensos relaxaram quase instantaneamente.
— Quase me fez derrubar tinta num manuscrito de trezentos anos, seu idiota — sussurrou a garota, fechando o livro com um estrondo abafado.
Caelan aproximou-se da mesa, puxou um banquinho de madeira lascada e sentou-se. A armadura emocional desmoronou longe das ruas da fortaleza.
— Desculpa. Precisava sair do alojamento. E você precisa saber o que Gravios revelou ontem, depois que a porta de casa fechou — confessou o garoto, a voz rouca pelo cansaço mental.
Liriel cruzou os braços, apoiando o quadril na borda da mesa. A postura analítica assumiu o controle.
Caelan não poupou detalhes. Descreveu o mapa rasgado desenhado a carvão. Relatou os cinco quilômetros do verdadeiro Fronte, os horrores do Ninho Selvagem, o Cemitério dos Honrosos e o alvo final suicida: A Beira. Por fim, o garoto abaixou a voz até um sussurro áspero. Contou sobre a confissão da Lenda de Lancrey. Contou sobre a mentira na sala do trono e o verdadeiro motivo do medo.
— A fera não apenas rugiu, Liri. Ela articulou uma palavra. Ela disse “Não”. Recusou a própria morte no escuro — finalizou Caelan, esfregando o rosto marcado de cicatrizes. — Gravios escondeu isso de vocês e do Rei para evitar o pânico. Mas se os monstros pensam… o que diabos vamos enfrentar na Beira?
A pesquisadora arregalou os olhos escuros, a respiração subitamente presa na garganta.
— Gravios mentiu para o conselho inteiro… — Liriel apoiou as duas mãos na madeira, processando a magnitude daquele choque. — E a besta tem consciência.
O silêncio reinou por alguns segundos, quebrado apenas pelo estalo das velas. De repente, a jovem virou-se bruscamente para a estante às próprias costas. Puxou um cilindro de couro negro, corroído pelo tempo e selado com cordões de prata.
— Ontem à noite, Silas obrigou todos os escribas a atualizarem os mapas com o relatório oficial do General — explicou Liriel, abrindo o tubo e retirando um pergaminho escuro. — A versão do palácio afirma categoricamente que o fogo humano engolido serviu apenas para causar uma mutação biológica na carapaça. Mas, com essa sua revelação… tudo muda de figura.
Ela estendeu o pergaminho sobre a mesa. As letras prateadas formavam um idioma quase extinto, e a lateral exibia uma ilustração perturbadora: um humano de joelhos, o peito aberto, enquanto uma chama fluía diretamente do coração para a mandíbula escancarada de uma criatura abissal amorfa.
— Silas e os Arquivistas acreditam na teoria do parasita. Acreditam na simples destruição das memórias para mergulhar o mundo no esquecimento. — Liriel bateu o nó do dedo contra o desenho prateado, a voz trêmula pela descoberta. — Mas este manuscrito de Markyu, o Primeiro Ferreiro, sugere o completo oposto. A corrupção não apaga a humanidade. Ela a absorve.
Caelan franziu o cenho, os olhos acompanhando a figura.
— Absorve?
— Pense na lógica! — Ela inclinou-se sobre o documento. — O Alfa usou a fogueira engolida para forjar a carapaça violeta, mas o fogo carrega as memórias queimadas das pessoas! Agiu como um núcleo para a mente da criatura. A besta recusou a morte porque as almas consumidas se misturaram à essência dela. O Exímio não odeia nossa consciência. Ele precisa dela. Ele rouba as memórias e emoções humanas para evoluir intelectualmente no escuro!
O garoto sentiu o sangue congelar nas veias. A teoria unia todas as peças do quebra-cabeça macabro com perfeição aterrorizante. O calor repleto de gritos vomitado pelo monstro. O pavor articulado. O intelecto nascendo debaixo da terra.
— Se isso for verdade… — sussurrou o recruta, erguendo o olhar apavorado para a irmã. — Se eles roubam quem nós somos para aprender a pensar… a Beira não é apenas o fim do mapa. É um reservatório colossal de almas e intelecto.
Liriel assentiu devagar, os olhos marejando levemente diante da monstruosidade da própria dedução.
— Exato — confirmou a pesquisadora. — E seja o que for que governe o fundo da Beira, esperando por vocês… já possui as lembranças de todas as civilizações caídas antes de Lancrey.
A sala redonda pareceu encolher. O verdadeiro inimigo não exibia apenas garras imensas e força bruta. Carregava milênios de conhecimento humano corrompido. A guerra pela salvação exigiria muito mais que espadas forjadas por Markyu; exigiria a força para enfrentar os fantasmas do próprio mundo esquecido.

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