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    A areia parecia azul abaixo do céu negro, sem lua, ou estrelas visíveis, com somente nuvens vagando num mocimento disforme. A passagem de pedra era como um grande corpo com uma escuridão diferente dos demais. Seguindo de uma ponta a outra. Tão comprida quanto o horizonte que a cercava.

    Três silhuetas surgiram caminhando por ela, movimentando a paisagem, estática sem contar o vento incessante.

    Três…

    Sempre andavam em mais de quatro, toda vez que passavam por ali. Talvez fossem sobreviventes. Ou desgarrados. Ou talvez algum deles tenha sido pego por um dos animais que se escondiam nas rochas. Ou, ocorreu o pior dos casos, um deles pode ter caído na areia.

    Ainda lembrava da visão intragável que teve quando o monte para onde um dos beduínos fugira, ganhou uma coroa pontiaguda e engoliu o homem por inteiro ao se fechar. A grande criatura se arrastou de volta para as profundezas do deserto logo depois. Desde então, se manter longe da areia tornou-se obrigação.

    Três… muito conveniente, não? Falou-lhe a voz em sua cabeça. Dessa vez parecia soar com o sotaque lírico e tom fanho de Saymon. Porém sem a mesma espiritualidade.

    A ignorou.

    Com grande cuidado, desceu pelas costas do grande cume em que estava observando. Observara dali vezes o suficiente para saber que caminho os três pegariam, e a se embrenhara entre rochas, cavernas e corredores tanto quanto qualquer rato ou toupeira que vivesse ali. Sabendo o melhor atalho para interceptá-los.

    Já não emboscou um grupo hoje? Lembro que haviam plantas comestíveis nele. Porquê se arriscar em outro ataque?

    Os pés moveram-se com a agilidade desenvolvida na juventude, espreitando pelos bangalôs degradados de Auburn Gresham, procurando janelas abertas ou pessoas desavisadas na rua. Era necessário muita rapidez para fazer o que tinha de ser feito e então desaparecer.

    Sentiu o vento em seu rosto quando escalou o pequeno rochedo que o separava do caminho por onde os três logo passariam. As mãos agarravam as pedras, ignorando a dor nos dedos calejados. Os pés se firmavam nas fendas, sem medo de escorregar. Ele se movia antes de ter o luxo desse medo. Parou, tentando se misturar à paisagem noturna, e cobriu o rosto com o manto para proteger-se da areia trazida pelo vento. E então esperou pelos instantes mais lentos que existiam no mundo. Os que precediam uma emboscada.

    Como a voz em sua mente o lembrou, não era a sua primeira vez naquele dia. Como também não era sequer a vigésima em toda a sua vida. Não sentia o nervosismo de um novato. Controlava a expectativa, o pulso não tremia e os olhos não se desviavam do alvo.

    Oh, eles estão se aproximando, alertou a voz. Dessa vez com o timbre nervoso de Isiah, quando era ele a tocaia.

    Os olhos piscaram, e sua testa se franziu ao ter a concentração atrapalhada pelas lembranças que a voz trazia. Então viu os três se arrastando pela vala entre as rochas e controlou sua respiração. Passaram a sua frente, sem olhar para cima, sem lhe ver.

    “Espera, gente, acho que não é boa ideia”. Foi isso que ele disse, não? Comentou a voz.

    O nariz aspirou uma grande quantidade de ar quando a imagem lhe veio à mente.

    Isiah sendo furado por uma chave de fenda. Sua barriga sangrando enquanto ele o arrastava até o socorro mais próximo. Pediu por água antes de parar de falar.

    Os três passaram, enquanto ele fechava os olhos, reprimindo.

    Desistis-te?

    Deu três passos e pulou, caindo sobre as costas do terceiro e último. Os pés pressionando-o contra o chão num estrondo. Os outros dois viraram de repente, assustados. Grasnaram algo, apontando em sua direção. Pareciam prestes a atacar.

    Ele foi mais rápido.

    Assim, que um dos encapuzados plantou o pé em seu alcance, uma perna se estendeu contra seu joelho como uma mola, acertando-o com uma pisada. As articulações eram resistentes, menos quando estavam completamente estendidas, suportando o peso do corpo.

    O homem gritou, se curvando para frente. Uma joelhada acertou a lateral de seu rosto, fazendo-o girar e cair com o corpo mole para o lado.

    O terceiro deu dois passos para trás, o encarando. Percebeu o corpo dele trêmulo, recuando a cada movimento seu. Então o braço se moveu. Não parecia querer puxar algo de sua capa. Não tinha brilho metálico, ou o formato de um objeto opaco entre os dedos de suas mãos. Ainda assim, ele ergueu o braço, e de um momento para o outro, algo se ergueu.

    O chão sob seus pés arrastou-se como a corrente de um rio, e um manto se fez entre ele e o encapuzado ainda de pé. Sentiu os olhos arderem e a boca, e o nariz, se encherem de areia, enquanto aquilo o atingia sem que o vento o soprasse.

    Cobriu o rosto, girando e encolhendo o corpo, sem ver ou ouvir o que estava ao seu redor, percebendo apenas depois o real perigo.

    Direita, na altura do ombro.

    Saltou para frente, desviando do que quer que tivessem usado para feri-lo. Ouvindo o som dos pés confirmando o ataque. Agachou-se mais, estendeu uma perna pelo chão e a girou, sentindo-a acertar algo, que caiu com um tremor, e um gemido, sobre o solo.

    Levantou e recuou devagar, limpando os olhos, ainda cheios de areia. Conseguia ver apenas borrões se movendo, enquanto a ardência o forçava a fechar as pálpebras.

    O primeiro que você derrubou está levantando.

    Esforçou-se para manter um olho aberto e avançou contra o que acabara de derrubar. Ele estava de joelhos, segurando o braço. Não viu quando o joelho acertou seu queixo, ou mostrou qualquer noção de resistente quando teve o braço agarrado e deslocado. Mas gritou, num som tão terrível quanto o do osso se separando da articulação.

    O olho ainda aberto virou-se para onde estava o primeiro. Tinha algo nas mãos. Uma faca. O homem a segurava, tal como um amador seguraria

    Finalmente, pensou, sentindo a própria voz ressoar em sua mente dessa vez. Pensou e sorriu. E isso, de algum modo, pareceu assustar o homem à sua frente, pois esse segurou o cabo com as duas mãos, tremendo a pequena lâmina entre os dois.

    Familiar, não? Lembra-se da primeira vez que apontou uma faca para alguém? Quantos anos ela tinha? Era velha o bastante para ser sua avó, talvez…

    Avançou, ignorando-o.

    — Pare — Ouviu o homem gritar. Mas apenas gritar.

    Um amador. Deixou a faca estendida antes do ataque. Não teria velocidade o suficiente para puxá-la e estocá-la antes do punho atingir. Mas não foi sequer lhe dada essa chance. E ele nem sequer tentou estocar. Cortou, como se pequena faca fosse um machado, e gemeu quando teve o braço acertado por uma pancada no cotovelo, fazendo-o soltar a arma. E depois ainda mais, quando o punho atingiu seu nariz, jogando sua cabeça para trás.

    Ah, então ela deveria ter agido desse jeito. Uma sorte que ela entregou a bolsa rapidamente. Mas aquele mecânico não teve a mesma sensatez, não é?

    O pé acertou a lateral da perna. O punho esquerdo, três vezes as costelas direitas. O punho direito, a barriga. E quando já estava no chão, acima do corpo, socou o rosto úmido e pegajoso, sentido o calor nos punhos.

    Aprendeste bem, mas não foi para isso que te ensinaram, não é?

    — Cala a boca — grunhiu, passando a mãos nos olhos ainda ardidos.

    Por quê atacá-los? Acha que vão te levar até onde a garota está? Quantas vezes já os perguntou, e te responderam com o mesmo silêncio?

    — Cala a boca — repetiu. O homem abaixo dele já não respirava, mas ainda havia os outros dois. Poderia perguntar-lhes o que queria. E mesmo se não respondessem, ainda teria a faca.

    Um estalar de língua ressoou em sua mente.

    Dois homens incompletos dentro de um. Que frustrante.

    Tyler ignorou a voz mais uma vez, e se levantou. Precisava interrogar os sobreviventes mais uma vez. Precisava saber como entrar onde Pamela e Marcelo estavam.

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