Índice de Capítulo

    A porta se abriu, com seu som metálico raspando contra o áspero chão de pedra. Pamela não ouviu passos, no entanto, sabia quem era. Notou uma pequena luz se aproximando pelo corredor. Aaliyah não precisava daquilo, bem sabia. Porém passou a usar a pequena lamparina para que Pamela a visse. E num segundo lá estava ela, espiando por entre as grades. Pequena, de rosto redondo e jovial.

    — Dormiste bem? — perguntou com sua voz doce, segurando uma bandeja com duas porções de comida na outra mão.

    Pamela negou com a cabeça em um movimento fraco, que causou um doloroso espasmo em seu pescoço, fazendo-a se debruçar para frente devido a surpresa da dor.

    — Não muito — respondeu, quase sussurrando.

    Aaliyah se abaixou e deslizou a bandeja sobre o chão, provocando pequenos ruídos arenosos.

    — Coma, deve fazer com que se sinta melhor — disse a garota.

    — Obrigada. Pode dar uma olhada em como Marcelo está?

    Aaliyah assentiu, mostrando-lhe um sorriso, e então ergueu-se mais uma vez, caminhando com a bandeja na mão até a outra cela, onde Marcelo ainda estava. Com a claridade da lamparina, Pamela vislumbrou a cela a sua frente. Estava vazia. O prisioneiro ferido que vislumbrava a dias fora levado dali pelos guardas, grunhindo de dor.

    Sobrevivera por tempo demais para alguém com a barriga aberta. Pamela lembrava de ouvir os homens que vieram buscá-lo, dizendo algo como “O bruxo deseja aquele”.

    Sabia de quem se tratava. O homem magro e pálido que a capturara junto de Marcelo e Tyler. A lembrança de sua voz causava-lhe arrepios.

    Pamela ainda tentava tirar a tez doentia e os olhos amarelados do homem de sua mente quando percebeu a luz da pequena lamparina retornando pelo corredor escuro. Acompanhado dos clamores de alguns prisioneiros que a muito tempo não tocavam em uma mulher, baseado no que berravam.

    Aaliyah parou novamente de frente para a cela de Pamela.

    — Seu amigo parece… bem. Ao menos está desperto dessa vez.

    — Ele disse alguma coisa?

    — Ele diz muitas coisas, quando fala. Em grande parte, sobre comidas que diz sentir falta, enquanto prova da carne de cacto. Ou pelo menos parece isso. Nunca ouvi falar sobre costeletas, peixe assado ou churrasco — comentou Aaliyah.

    Pamela engoliu em seco.

    — Desculpe por isso — sorriu de forma inconsciente. Sua boca salivou, lembrando a macarronada servida por seu restaurante italiano favorito.

    Uma memória tão distante daquele lugar…

    — Tudo bem. Gosto de ouvi-lo falar sobre isso. Imagino que gosto tem.

    Pamela apenas sorriu. Não iria querer, pensou. Ninguém gostava de lembrar o que já não existia mais.

    O restaurante italiano na quinta avenida, as manhãs frias de novembro passadas entre braços quentes, as flores de abril no central park. O sorriso de Ângela em agosto, soprando as velinhas do seu bolo de aniversário.

    As memórias lhe doíam.

    — Eram muito bons — respondeu.

    Aaliyah deu-lhe outro sorriso.

    — Gostaria de conversar mais, porém devo ir — disse, seguindo pelo corredor, em direção a porta, e levando consigo a luz da lamparina.

    O escuro se fez mais uma vez dobre Pamela. E com ele a solidão e os seus pensamentos. Fechou os olhos e procurou dormir, conseguindo depois de muito esforço, superando o chão sujo, o calor e o ar abafado. Quis dormir, mas não sonhar. E sem muito esforço, sua mente lhe negou esse último desejo.

    O por do sol visto no alto de uma cobertura. Um sorriso caloroso, e uma promessa em seu dedo. Então ouviu o ranger da porta se abrir e acordou a primeira vez. Engoliu em seco, consciente de onde estava, e permaneceu deitada ouvindo os passos pesados que se aproximavam com a luz.

    Não chegaram a passar por sua cela. Ouviu o de ferro rangendo, e então uma voz perguntando para onde o estariam levando. Ninguém respondeu. Os mesmos passos se distanciaram e a porta do corredor fechou.

    Pamela respirou mais profundamente, permanecendo onde estava. Não pretendia adormecer, mas adormeceu.

    Mil flores desabrochavam entre os campos. Lírios, jasmins, margaridas, rosas. Ainda sim, ele lhe comprou uma orquídea de dez dólares em uma barraquinha. Ela sentiu o cheiro, girando-a abaixo do nariz. Conhecia o cheiro de orquídeas, mas não se sentia o cheiro daquela. Ele abriu a boca, e um grito distante tirou Pamela de seu sono.

    Olhou para as grades, assustando-se, ao ver outra pessoa sendo arrastada pelos guardas. Uma mulher de meia idade, suja e desgrenhada, com a roupa rasgada da cintura para cima.

    Pamela encolheu-se em seu canto, junto a parede, olhando enquanto a levavam em direção ao portão, que fechou mais uma vez, deixando-na no escuro. A comida não havia sido deixada ainda. Então haviam levado duas pessoas em menos de um dia. Para onde?

    Por muito tempo não conseguiu dormir, tremendo e imaginando os guardas entrando no corredor para levá-la, tal como fizeram com os outros dois prisioneiros.

    Quando o som da porta chegou ao ouvido, Pamela levou a mão ao peito, dolorido pelo susto. Prendeu a respiração, ouvindo o passo e vendo a luz se aproximar, e soltou todo o ar ao ver apenas um homem trazendo refeições. Nunca se sentira tão bem ao vê-lo.

    Comeu, e relaxada, com o estômago cheio, dormiu.

    Não lembrou do que sonhou quando acordou. Apenas abriu os olhos, coberta de suor, chamando por alguém que tanto procurou quando viva. Porém ninguém estava lá, nada estava. Somente a escuridão. Até que a porta se abriu outra vez.

    Esperou pelo som dos passos pesados, mas não ouviu nada. A luz se aproximou e ao invés dos soldados que apareceram nas outras vezes, Pamela viu o simpático rosto de Aaliyah olhando em sua direção, e então respirou, aliviada.

    — Tu pareces cansada. Não conseguiste dormir? —, perguntou a garota, tocando em uma das barras com a mão.

    — Estou bem. É apenas que, várias pessoas foram levadas ontem, e achei que… — Pamela abraçou os joelhos, apertando-os, sentindo o tremor do próprio corpo.

    Aaliyah olhou para as outras celas, como se as conferindo.

    — Saadi… — disse baixinho.

    — Como?

    A garota piscou os olhos e lhe deu outro sorriso de canto de lábios.

    — Não é nada, não se preocupe.

    — Algo está acontecendo lá fora? — perguntou Pamela, sem ouvir o que a garota dizia.

    — Não, digo, não posso dizer. Desculpe — Aaliyah se afastou das barras, olhando para o chão.

    Pamela sentiu um formigamento percorrer seu corpo, e então insistiu mais uma vez.

    — Aaliyah, por favor, estou presa aqui a tanto tempo e não entendo o que está acontecendo. Só me diga para onde as pessoas estão sendo levadas. Só isso — implorou, usando em muito tempo o encanto persuasivo que ganhara desde que chegara aquele mundo.

    Não funcionara com aquele guarda simplório da caravana, e nem com Saadi, porém percebeu como se uma onda saísse de seu corpo e quebrasse contra o corpo da pequena garota, a envolvendo.

    Aaliyah deu um passo para trás, quase cambaleante, quase derrubando a bandeja e a lamparina em suas mãos. Engoliu em seco, lambendo os lábios e então abriu a boca, olhando rapidamente para os lados e se aproximando da grade.

    — Venha aqui — pediu e Pamela se aproximou dela, com seus rostos estando a poucos centímetros um do outro, separados pelo metal frio. Aaliyah Sussurrou. — Por favor, não diga isso a ninguém. Saadi está levando essas pessoas, e ninguém sabe pra quê. Elas só entram nos aposentos dele e não saem.

    — Saadi é o líder daqui? — perguntou Pamela.

    — Não, o anfitrião é Baaz. Porém ninguém o vê a dias. — Aaliyah falava, até que seus olhos se arregalaram, olhando para Pamela. Ela afastou o rosto das barras. Parecia aflito — Não devia ter dito isso.

    Arrastou o prato com a refeição e saiu, rumando a outra cela. Então passou de volta sem parar para falar com Pamela.

    Quando a porta se fechou mais uma vez, o silêncio tornou a imperar, de forma mais completa do que das outras vezes. Havia menos tosses, menos sons de fungados, menos murmúrios. Todo o corredor parecia estar vazio. Como se apenas ela sobrasse ali. Porém Aaliyah havia deixado outra refeição.

    Decidiu testar algo.

    Colou a boca entre as barras e chamou:

    — Marcelo! Marcelo! — sussurrou o mais alto que conseguia, com medo de algum guarda do lado de fora a ouvir.

    Um momento de silêncio depois, ouviu uma resposta 

    — Pamela? Ainda está aqui? — A voz ranhenta ecoou pelo corredor escuro.

    — Sim, estou, você está bem? — Pamela perguntou, mais por desejo de continuar a conversa do que por preocupação. Nunca pensou que ficaria tão animada em ouvi-la.

    — Esses merdas só me trazem cacto para comer. Já tô cansado dessa bosta — reclamou ele, e sem saber por que motivos, Pamela riu. — E você, garota? Te fizeram alguma coisa?

    — Estou bem. Estou… — enquanto ela falava, foi interrompida pelo som de metal arrastando no chão.

    Ela viu a luz no fundo do corredor se aproximar ao som de passos pesados, e saltou das barras para o fundo de sua cela, encolhendo-se com as mãos trêmulas segurando os joelhos. A luz aumentou e dois corpos envoltos nela surgiram na frente de seus olhos.

    Pararam, olhando em sua direção. E um deles apontou com a mão.

    O coração de Pamela parou, junto de sua respiração, e suas mãos se tornaram mais frias do que o chão em que se encolhia.

    — Não ela. O senhor Saadi disse “O homem imune” — resmungou o outro. E continuaram andando pelo corredor escuro. Em direção a uma cela mais distante.

    Pamela ouviu a voz de Marcelo gritar ofensas e palavras obscenas. Ouviu a cela ser aberta e o barulho de grunhidos junto a passos arrastados. Então veio um abafado som, acompanhado de um gemido mudo. E então outro, e outro. Passos voltaram a se aproximar pelo corredor. Os guardas pareciam arrastar algo. E quando a luz passou por Pamela, ela viu que carregavam Marcelo pelos braços. Ele estava com o rosto roxo, com um filete de sangue escorrendo no rosto.

    Pamela continuou espremida em seu canto, respirando apenas no momento que o portão de ferro se fechou atrás deles. Sentiu uma dor no peito, e pôs a mão lá, agarrando e apertando a camisa surrada que vestia. Chorou no escuro, sem ouvir mais nenhuma voz, tosse ou som de respiração.

    Agora estava de fato sozinha.

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